
Descendo da Circular, no ponto em frente à banca de jornal, estava aquela linda mulher, com seu vestido godê florido, as pernas à mostra e uma bolsa lançada ao ombro.
Ernesto, havia dias, observava aquela nova figura que vinha ao centro. Não sabia de onde vinha, nem para onde ia. Mas já era o quarto dia que, às 7h42, a jovem mulher desembarcava do Transgiro, bem em frente à sua banca de revistas.
Caminhava suave, com suas sandálias de salto baixo, a meia-calça dando brilho aos tornozelos. De longe, o aroma do Lancaster vinha, flutuando, até o balcão de Ernesto. A desconhecida atraía os olhares por onde passava.
Naquela manhã, ela caminhou até a banca, olhou para o expositor e parou.
— Você tem a Burda para vender?
Ernesto arregalou os olhos.
— Eu não acredito.
A jovem sorriu ao pegar a revista nas mãos.
— Quanto é?
— A Burda Moden? Quarenta cruzeiros.
O dinheiro que Ernesto recebeu ficou com o perfume daquela criatura encantadora. Talvez permanecesse guardado por algum tempo, até o aroma desaparecer. A moça subiu a Santa Catarina, e o jovem jornaleiro a acompanhou com o olhar. Entre clientes, ônibus e carros, a banca de revistas atravessava o dia.
7h40, sexta-feira. Ernesto estava de pé atrás do balcão, com os olhos voltados para o ponto de ônibus. A Circular parou. E ela desceu novamente.
De evasê.
O perfume parecia Giovanna Baby, com aquele adorável aroma de lavanda. Ernesto quase fechou os olhos para sentir a fragrância. O corte em A do vestido desenhava sua silhueta com leveza. Os cabelos estavam presos, e a meia-calça dava o tom à pele. Parecia uma daquelas moças das capas das revistas.
A elegante figura veio direto à banca. Ernesto ajeitou o cabelo. E ela parou diante do expositor.
— Vou levar essa Cláudia.
— De... de... dez cruzeiros... — Ernesto falou, gaguejando.
A jovem sorriu, pegou a revista e seguiu rua acima.
Ernesto estranhou as mãos, tentando recordar se havia sentido um perfume tão marcante. E a nota de dez cruzeiros passou o dia nas suas mãos. Trazia consigo aquele perfume e também guardava o lindo sorriso dela.
Sábado de manhã, já passava das 8h, e a bela mulher não descera do Transgiro. Ernesto até pensava em ir ao Cine Maver com ela. Ou ao Clube Aliança. Pegou a nota de dez cruzeiros. O perfume ainda estava ali.
— Se aquela moça aparecesse hoje, juro que chamaria para sair.
Neco encostou seu 608 na esquina, carregado de melancias. Ernesto pegou uma e a carregou até sua Variant, estacionada na avenida Maripá. Quando olhou para a banca, lá estava ela.
Ernesto não sentiu o perfume. Só o cheiro do diesel do 608.
Ernesto se apressou a atravessar a avenida. Ela estava mais simples, com uma calça boca de sino, uma blusa e sapatos. Na mão, uma pasta. O vento não ajudava. Ernesto não conseguiu sentir seu perfume.
— Você tem palavras cruzadas?
— Tenho aqui, várias.
A cliente misteriosa pegou cinco ou seis revistas de palavras cruzadas. Os olhos verdes da jovem encontraram os de Ernesto. Ele tremeu os lábios, mas não conseguiu falar. Sua mente queria convidá-la para sair, mas o corpo não retribuía o desejo.
— Aqui está. Vinte cruzeiros — disse ela, estendendo a mão.
Ernesto pegou as notas, com vontade de tocar na mão dela. Ela pegou as revistas e saiu. Seguiu para o outro lado da rua, em direção à rodoviária.
Segunda-feira, 7h40. Ernesto ajeitou o cabelo, a gola da camisa e conferiu a cera do sapato.
Ela não apareceu. Nos outros dias da semana também não.
Os dias passaram. O perfume no dinheiro sumiu. E Ernesto lembrava do Godê e do Evasê.