Sexta, 09 de Outubro de 2026
20°C 31°C
Marechal Cândido Rondon, PR
Publicidade

Férias de Monareta...

Entre joelhos ralados e picolés, a diversão era garantida

Gelsiney Schell
Por: Gelsiney Schell
09/10/2026 às 08h52

O sol de fim de ano sempre foi quente. O mormaço fazia o chinelo grudar no piche derretido. De manhã, ir para a escola e, à tarde, voltar para ensaiar para as festividades de Natal.
Era uma quinta-feira, o último dia de aula. Tinha ensaio natalino, e o calor do verão pedia um Ki-Suco de abacaxi com bastante açúcar.
Cheguei em casa e o pai estava sentado na varanda com seu chimarrão. Ele disse:
— Já que você passou de ano, trouxe um presente pra você. Tá na mesa da cozinha.
Fui até lá e encontrei um pacotinho de caramelos. O papel estava cheio de balas, aquelas coloridas com formato de peixe. Fiquei contente; para mim, aquilo já estava bom. O pai veio, me abraçou e perguntou:
— Gostou do presente?
— Sim.
— Então vai lá nos fundos. Tem outro presente.
"O que será?", pensei.
E lá nos fundos, ao lado do tanque de lavar roupas, estava ela: uma Monareta verde. Tinha fitinhas penduradas no guidão, aro branco com uma listra verde, banco com duas molas e várias partes que brilhavam tão intensamente que pareciam espelhos. E, sim, ela tinha dois espelhos.
Eu mal conseguia sentar no banco. Depois de baixá-lo, era hora de pedalar. Desci a rua de casa, meio sem jeito. Quando voltei, minha mãe e meu pai sorriam ao me ver passar. À noite, levei a bicicleta para o quarto e a estacionei bem ao lado da minha cama.
No outro dia — o primeiro das férias de verão —, lá estava eu de Congas, calção azul, blusa branca e um boné com a escrita “Carga Pesada”. Subi em direção ao centro. Dobrei uma esquina, depois outra, até chegar ao Módulo Esportivo.
Agora eu fazia parte da “gangue”: a Gangue das Bicicletas... Tinha Berlineta, Caloi Cross, uma Monark infantil e as Monaretas. Umas eram “caleras”. E a minha Monareta, novinha em folha, verde.
De repente, veio a ideia:
— Vamos até a Maracaju?
— Vamos!
E descíamos, embalados, estradão afora. No caminho, passamos por uma pinguela de tábuas. A Codecar estava colocando manilhas para a coleta da água da chuva. A Maracaju era um estradão cheio de morrinhos. Os guris das Caloi Cross rampavam os barrancos, fazendo a poeira subir. E eu? Só pedalava.
Perto do meio-dia, eu corria para casa, pois ainda tinha desenho na TV. Guardava a Monareta no quarto e sentava na sala, sentindo o cheirinho de alho frito na banha, da carne fritando na panela e o leve aroma do fogão a lenha. Quando o pai chegava, a mãe já tinha preparado o chimarrão. Um copo de Ki-Suco, carne, arroz e feijão com duas ou três folhas de rúcula: eu estava abastecido para a tarde.
E a tarde foi virando as tardes. O dia se pluralizou.
Vieram as quedas, os joelhos ralados, o picolé gelado, o asfalto grudando... E assim fui passando por aquele tempo, pedalando todos os dias.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários