
Na cozinha, no rádio AM, o Zé Curió contava seus causos.
O sol entrava pela fresta da cortina de renda.
E o sábado começava.
Café com leite, pão com nata e melado e, às vezes, um ovo frito na banha.
Era dia de o pai ir ao mercado, de a mãe fazer a faxina e de eu?
Gravar as músicas no meu gravador de fitas.
Ficava ajoelhado na sala, com os dedos no REC e no PAUSE.
Era um “esquema” que só nós, os caçadores da boa música, sabíamos.
O locutor anunciava as músicas que viriam, e os dedos sincronizavam com o ouvido.
Esperava.
Preparava.
E, na hora certa, despausava a fita.
Começava a gravação.
Aquilo exigia precisão.
Um segundo depois, perdia a introdução.
Um segundo antes, pegava o locutor falando.
E quando a música estava indo perfeitamente, justamente quando tudo parecia dar certo, o radialista largava:
— Sabadão é aqui na rádio "flubé"...
Pronto.
E poluía a música.
Estragava tudo.
A música continuava, mas agora vinha acompanhada da voz do locutor.
E não tinha jeito.
Era gravar de novo.
Eu tinha uma fita BASF regravável, de 60 minutos cada lado.
Passava o sábado inteiro gravando.
Era música para a noite.
E à noite tinha o Fusca.
O Fusca precisava estar preparado.
Passava umas doze, quinze, vinte vezes pela Avenida Rio Grande do Sul.
As gatinhas saindo do Cine Maver.
Outras estavam nas lanchonetes.
Algumas passavam pela calçada.
E nenhuma estava no Fusca.
Mesmo assim, eu continuava.
Vidros abertos.
Fusca andando bem devagar.
A fita tocando.
A música certa.
O cabelo no lugar.
A noite prometia.
A Avenida era movimentada, cheia de meninas.
Tinha baile no Salão do Cerny, em Curvado. Às vezes, no Borgmann, na Quinta das Seleções.
E o Fusca branco desfilava.
Na fita, Modern Talking, Bee Gees, Pink Floyd.
Eu passava.
Voltava.
Passava de novo.
A fita tocava.
O Fusca desfilava.
As meninas olhavam.
Ou talvez nem olhassem.
Mas eu continuava passando.
Até que, justamente na hora de “abafar”, o sem-vergonha do toca-fitas engolia a fita.
O som começava a ficar estranho.
Parecia que a música estava sendo tocada debaixo d’água.
Depois vinha um:
— Cléc!
E o toca-fitas desarmava.
A música parava.
O Fusca parado perto da Prefeitura.
E eu ficava olhando para o aparelho.
A fita estava lá dentro.
Enroscada.
Minha melhor música da noite.
E eu ainda tinha vinte voltas pela Avenida Rio Grande do Sul pela frente.
Só que a gasolina não estava tão interessada naquela programação.
O ponteiro entrou na reserva.
E o desfile acabou.
Cheguei em casa às dez da noite.
O pai estava sentado no sofá, esperando começar o Super Cine.
Olhou para mim.
Depois olhou para o Fusca pela janela.
— Bora jogar uma cachetinha até o filme começar?
E lá estávamos nós.
Eu e meu pai.
Baralho na mesa.
Uma Cerpa gelada.
O Super Cine começando.
O pai quase nunca assistia a um filme até o fim.
Logo ia dormir.
E eu terminava a noite sozinho, com uma loira gelada e um copo suado.
A janela aberta.
O Fusca na garagem.
Céu estrelado.
Vagalumes.
O vento balançando as cortinas.
E os anos 80 passando.
A pequena Marechal parecia cidade grande.