
Não lembro exatamente o ano.
Mas lembro perfeitamente do tempo.
Era o tempo em que a televisão ainda era preta e branca, de tubo, grande, pesada e parecia ocupar quase toda a sala. Não era apenas um aparelho. Era uma janela para o mundo. Para nós, crianças, era a janela para os desenhos animados, para as aventuras e para tudo aquilo que a imaginação conseguia criar.
Da parte de trás da televisão saía uma fita preta que atravessava a janela de madeira e seguia para fora da casa. Lá no alto estava a famosa antena espinha de peixe, firme contra o vento, a chuva e o passar dos anos.
Às vezes, uma rajada mais forte mudava sua posição e, de repente, a imagem desaparecia.
Era quando começava a correria.
Alguém colocava a mão para fora da janela e tentava ajustar a antena até que a televisão voltasse a mostrar os desenhos.
— Mais um pouco!
— Agora volta!
— Aí!
Depois de algumas tentativas, a imagem finalmente reaparecia.
Era como se o mundo novamente encontrasse o seu lugar.
O nosso mundo.
A nossa casa.
Um dia, meu pai resolveu aquele problema do jeito simples e genial que só os homens do interior sabiam encontrar.
Pegou uma velha câmara de pneu de bicicleta, que já não servia mais para rodar, e amarrou cuidadosamente na antena, deixando-a firme na posição correta.
Funcionou.
E continuou funcionando por muito tempo.
Naquele período, uma solução simples feita pelas mãos do pai parecia uma verdadeira invenção.
Lá no alto da Rua Floriano Peixoto, nos dias frios e chuvosos, a casa parecia se fechar para o mundo.
Lá fora ficava o frio.
Aqui dentro, nós.
Enrolados nas cobertas, sentados no sofá, assistíamos a tudo o que aquela televisão conseguia nos oferecer. Desenhos, filmes, programas e qualquer imagem que surgisse naquela pequena tela em preto e branco.
A imaginação fazia o restante.
A casa tinha seus próprios sons.
O barulho da chuva batendo no telhado.
O vento passando pelas pequenas frestas da madeira.
O estalar da lenha queimando no fogão.
As panelas da mãe trabalhando na cozinha.
A mãe morava naquela cozinha.
Passava horas preparando coisas para nós.
Fazia bolo, cuca, bolachas, pão, broa de milho com nata e melado. Quando não era uma coisa, era outra.
Se não vinha uma xícara de leite com chocolate, vinha a chaleira com um chá quente.
Se não era pipoca adoçada com melado, era uma forma de cuca chegando à mesa.
A infância tinha gosto.
Tinha cheiro.
Tinha cuidado.
Nas tardes frias, a mãe preparava o mate doce com chá de cidreira e leite. Não podia ser muito quente, porque criança não tinha paciência para esperar.
E nós esperávamos mesmo assim.
Às vezes, quando o sol aparecia depois da chuva, a mãe chamava para ajudar.
Era hora de cuidar do quintal, das flores e da horta. Era hora de capinar o lote, varrer a casa e participar da rotina diária.
A casa não era apenas o lugar onde morávamos.
Era um lugar ao qual pertencíamos.
O pai também fazia parte daquele universo.
Ele tinha uma Rural amarela, com um cheiro de gás.
Quando chegava em casa, quase sempre trazia alguma surpresa escondida.
Um pequeno pacote de paçoca.
Balas de hortelã.
Às vezes, um suspiro, um merengue ou aqueles pacotinhos vermelhos de pipoca doce que pareciam adoçar o dia.
Eram pequenas coisas.
Mas, para uma criança, eram enormes.
Naquele tempo, a felicidade cabia dentro de um pequeno pacote.
E foi dentro daquela casa cheia de sons, cheiros e lembranças que apareceu o meu amigo.
A despensa da mãe não tinha porta.
Era separada da cozinha apenas por uma cortina florida, cheia de folhas verdes e flores estampadas.
Para nós, crianças, atravessar aquela cortina era como entrar em outro reino.
Era um mundo dentro da própria casa.
O Rumpelzimmer.
Lá dentro ficavam os grandes potes de vidro alinhados nas prateleiras.
Potes onde a mãe guardava arroz, feijão, milho, pipoca e os mais variados tipos de sementes.
Naquele tempo não existiam garrafas PET nem tantos recipientes de plástico como hoje.
Era tudo vidro.
Vidro que deixava aparecer o alimento guardado.
Vidro que conservava o tempo.
O Rumpelzimmer tinha seus próprios cheiros.
O cheiro da banha guardada na lata.
O cheiro dos chás secos pendurados em pequenos feixes no canto da prateleira.
O cheiro das ervas.
Dos temperos.
Do vinagre.
Dos grãos armazenados.
Como não tinha janela, todos aqueles aromas permaneciam presos naquele pequeno espaço.
Era o cheiro de muitas coisas ao mesmo tempo.
Era um aroma de casa.
Um cheiro que parecia morar nas paredes.
E foi em uma dessas tardes de chuva que ele apareceu.
Eu estava no sofá, enrolado na coberta, quando vi algo atravessar a sala.
Foi rápido.
Pequeno.
Quase invisível.
Um pequeno camundongo.
Parou por um instante.
Levantou as patinhas até o focinho, como se limpasse o rosto ou saboreasse alguma migalha encontrada pelo caminho.
Depois correu em direção ao Rumpelzimmer.
Ninguém viu.
Só eu.
Para os adultos, talvez fosse apenas um rato.
Para mim, era uma descoberta.
Levantei devagar.
Não queria que ninguém percebesse.
Fui até o Rumpelzimmer.
Puxei uma cadeira de palha.
Subi com cuidado.
Alcancei a chaveta da lâmpada.
Naquele tempo, a lâmpada ficava pendurada no centro do cômodo e tinha, ao lado, um pequeno botão de porcelana que precisava ser girado para acendê-la.
Girei.
A luz amarelada iluminou aquele pequeno reino.
Procurei entre os potes de vidro, os sacos de mantimentos e as prateleiras.
Até encontrá-lo.
Atrás do pacote de farinha havia um pequeno rasgo.
O camundongo estava ali, quieto, procurando alimento.
Fiquei parado, observando.
Por alguns instantes, nenhum de nós se moveu.
Então ele correu para um canto.
Desci da cadeira.
Foi quando vi um pequeno rabo desaparecer por uma fresta na parede.
Peguei o foke.
Naquele tempo, lanterna era simplesmente foke.
Acendi a luz e apontei para aquela pequena abertura.
No início vi apenas um amontoado de palha.
Depois alguma coisa se mexeu.
Mais um movimento.
Então eles apareceram.
Ao redor do pequeno camundongo estavam os filhotes.
Pequeninos.
Frágeis.
Ainda de olhos fechados.
Fiquei em silêncio.
Naquele instante pensei:
Se eu contar para a mãe, ela vai querer acabar com eles.
Se eu contar para o pai, ele certamente vai colocar uma ratoeira.
Então guardei aquele segredo.
A partir daquele dia, aquele pequeno camundongo passou a ser o meu amigo.
E ninguém podia saber.
Todos os dias eu levava alguma coisa.
Uma migalha de pão.
Um punhado de farelos.
Um pedacinho de queijo.
Deixava tudo perto da pequena entrada da toca.
No dia seguinte, não havia mais nada.
Eu sabia que eles tinham passado por ali.
E isso me deixava feliz.
Com o passar dos dias, o Rumpelzimmer ganhou novos moradores.
Os filhotes cresceram.
Agora eram vários pequenos camundongos cruzando silenciosamente aquele reino de potes de vidro.
Eu os observava.
Eles pareciam me observar.
Nunca consegui tocá-los.
Eles também nunca permitiram que eu chegasse tão perto.
Mas existia entre nós uma convivência silenciosa.
Uma amizade sem palavras.
Eu olhava para eles.
Eles olhavam para mim.
E talvez, por alguns segundos, cada um tentasse compreender o outro.