
Ter primos é ter uns irmãos a mais.
Eu, particularmente, tinha 60.
Vinte e nove por parte de mãe e trinta e um por parte de pai.
E, naquela época, parecia que criança era o que não faltava ao meu redor.
Quando juntava os primos no sítio do vô, pai da minha mãe, mais a piazada dos vizinhos, era uma verdadeira “alegria” para os adultos.
Porque bastava juntar aquela criançada toda para começar a confusão.
Um esmagava o dedo na carroça.
Outro espetava o pé num espinho.
Um chorava.
Outro berrava.
Tinha os tímidos e os loucos.
As que faziam massinha com barro e os que faziam a festa com uma mata-junta.
Corríamos o dia inteiro.
Pega-pega.
Esconde-esconde.
Correria em volta da casa.
Os mais espertos subiam na carroça.
Os mais corajosos se metiam onde não deviam.
E os adultos, de vez em quando, gritavam:
— Desce daí, piá!
Mas bastava eles virarem as costas para a gente subir de novo.
E quando aparecia um sapo...
Aí era festa.
Ou terror.
Dependia de quem encontrava primeiro.
Na hora da sobremesa, os perigos mudavam.
— Não pode misturar manga com leite, que pode morrer!
E sobrava leite.
— Não come tanto sagu, que a barriga cresce demais!
E sobrava sagu.
Naqueles tempos, parecia que tudo podia matar uma criança.
Havia veneno, espinho, carroça, sapo, cachorro, fogo e uma infinidade de outras ameaças que os adultos conheciam muito bem e nós, felizmente, ignorávamos.
A vida, para uma criança de quatro ou cinco anos, era perfeita.
Sem preocupação alguma.
Depois tinha a casa da outra vó.
Essa ficava na cidade, na Avenida Maripá.
E lá também tinha sapos.
Era em frente ao Mercado Copagril.
A avenida tinha umas plantas cheias de espinhos que chamavam de Coroa de Cristo.
Na calçada, a piazada brincava.
De dia, era correria.
À noite, apareciam os vagalumes.
E os sapos.
Os sapos eram o terror das meninas.
Eu gostava dos dois.
Naquela avenida havia várias crianças.
E, entre todas elas, havia uma menininha da minha idade que vinha todos os dias brincar comigo.
Ela fugia de casa para isso.
Aquilo, para mim, era o máximo.
Quando me via, vinha correndo:
— Oi!
E pronto.
Era o suficiente.
Brincávamos no jardim, entre as flores.
O cheiro do jasmim sempre estava lá.
Eu não sei quanto tempo durava uma tarde naquela época.
Parecia durar muito.
Num desses sábados, porém, ela não veio.
Esperei.
Nada.
Perguntei por ela.
A vó disse que a pequena estava no hospital, doente.
No outro dia, fomos até a casa dela.
Ela estava deitada.
Num pequeno caixão.
No centro da sala.
Eu não sabia que isso acontecia com crianças.