
Juros elevados e maior necessidade de financiar as operações devem manter o caixa das indústrias brasileiras sob pressão nos próximos três meses. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que 32% das empresas consultadas esperam aumentar o saldo de suas dívidas bancárias.
Os dados fazem parte da terceira edição da Consulta Empresarial sobre Juros, Crédito e Custos Financeiros, realizada em agosto. O levantamento ouviu 179 empresas de 28 setores industriais, distribuídas por 21 unidades da Federação.
A necessidade de recursos aparece em diferentes áreas da operação. Entre as empresas consultadas, 56% projetam maior demanda por financiamento das contas a pagar, 50% dos estoques e 49% das contas a receber.
O impacto do custo do crédito não fica restrito às decisões sobre grandes investimentos. Segundo a CNI, os juros também interferem no financiamento do capital de giro e podem influenciar decisões sobre contratação de trabalhadores, aquisição de máquinas e expansão da capacidade produtiva.
"A principal mensagem da consulta é que o efeito dos juros vai muito além de uma decisão de investir ou não. Eles afetam o cotidiano das empresas", afirma Maria Virgínia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI.
Além de precisarem de mais recursos, muitas empresas esperam pagar mais pelo financiamento. Nos estoques, 50% projetam aumento dos custos financeiros. Nas contas a receber, 46% esperam juros maiores, enquanto 7% preveem redução. Para as contas a pagar, 42% antecipam elevação.
Entre as empresas que já projetam maior necessidade de financiamento, pelo menos 60% também esperam aumento dos juros nas respectivas modalidades.
O efeito combinado entre maior demanda por recursos e crédito mais caro tende a atingir diretamente a rentabilidade. A pesquisa mostra que 57% das indústrias esperam redução da margem líquida nos próximos três meses.
Dentro desse grupo, 14% projetam uma queda acentuada. Em sentido contrário, apenas 19% das empresas consultadas esperam melhora da margem líquida.
Apesar da pressão financeira, a maioria não pretende transferir integralmente o aumento dos custos para os consumidores. Para 53% das empresas, os preços de venda deverão permanecer estáveis, enquanto 35% planejam reajustes.
A comparação com as pesquisas anteriores mostra alguma melhora nas expectativas, embora os indicadores continuem apontando dificuldades financeiras.
Em junho, 45% das empresas esperavam aumentar o endividamento bancário. Em agosto, essa parcela caiu para 32%. A intenção de elevar preços também diminuiu, passando de 51% para 35%.
A expectativa de redução da margem líquida recuou de 64% para 57% no mesmo período.
"O conjunto dos resultados aponta para um trimestre de maior demanda por recursos, crédito mais caro e margens comprimidas. O cenário tende a elevar o risco financeiro e limitar a capacidade de investimento da indústria", avalia Kleber Castro, gerente de Política Econômica da CNI.
A terceira edição da Consulta Empresarial sobre Juros, Crédito e Custos Financeiros foi realizada entre 18 e 28 de agosto de 2026.
Ao todo, participaram 179 empresas industriais pertencentes a 28 setores e localizadas em 21 unidades federativas. O levantamento busca identificar como juros, disponibilidade de crédito e custos financeiros estão interferindo nas decisões e perspectivas do setor produtivo.