
Os quatro grandes bancos brasileiros aumentaram de forma expressiva a proteção contra possíveis calotes diante da deterioração do mercado de crédito. Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander destinaram, juntos, R$ 91,082 bilhões para provisões contra devedores duvidosos no primeiro semestre de 2026, crescimento de 23% em relação ao mesmo período do ano passado.
O movimento ocorre em um ambiente no qual os juros permanecem restritivos, apesar do início do ciclo de redução promovido pelo Banco Central. A inflação persistente, os efeitos econômicos da guerra no Oriente Médio e o desequilíbrio das contas públicas aparecem entre os fatores que dificultam um alívio mais rápido das condições financeiras.
Na prática, juros elevados aumentam o custo das dívidas e pressionam o orçamento das famílias e das empresas. Os bancos, diante da percepção de maior risco, passam a reservar mais recursos para absorver eventuais perdas e adotam maior cautela na concessão de novos financiamentos.
Uma parcela relevante da deterioração está no agronegócio, setor afetado pela volatilidade dos preços dos insumos, maior endividamento e impactos climáticos. Mas os balanços bancários também começam a revelar dificuldades entre pessoas físicas, especialmente nos segmentos de menor renda.
O Banco do Brasil aparece entre as instituições mais pressionadas pela carteira rural. A inadimplência da instituição encerrou junho em 5,61%, ainda fortemente influenciada pelos atrasos no agronegócio.
Somente no segundo trimestre, o BB registrou R$ 18,5 bilhões em provisões contra calotes, alta de 16,1% na comparação anual, em termos líquidos.
A instituição também identificou deterioração na carteira de pessoas físicas. Nos cartões de crédito, a inadimplência chegou a 14,58%, após aumento superior a 7 pontos percentuais na comparação com o trimestre anterior. Além da presença de produtores rurais também como clientes pessoa física, o banco observou crescimento no reparcelamento de faturas entre um público mais amplo.
No Santander, a inadimplência considerando atrasos superiores a 90 dias atingiu 3,3% em junho, avanço de 0,7 ponto percentual em relação ao mesmo período de 2025.
As despesas com provisões do banco alcançaram R$ 7,7 bilhões no trimestre, crescimento anual de 11,5%. Além das mudanças contábeis, a instituição reconheceu a influência do cenário macroeconômico mais restritivo.
O banco vem alterando o perfil da carteira, direcionando a concessão para linhas consideradas mais seguras e para clientes de maior renda. A expectativa apresentada pela instituição é de que os efeitos dessa estratégia sobre a qualidade do crédito apareçam de maneira mais clara em 2027.
Bradesco e Itaú Unibanco também elevaram suas proteções, mas apresentaram indicadores de inadimplência relativamente mais controlados.
No Bradesco, as linhas de crédito com garantias já representam 61% da carteira. A instituição registrou aumento dos atrasos entre pessoas físicas e também acompanha a evolução dos programas destinados a micro, pequenas e médias empresas com garantia governamental.
O Itaú manteve a inadimplência superior a 90 dias em 1,9% por mais um trimestre. Entre micro, pequenas e médias empresas, o indicador alcançou 2%, com expectativa de novo aumento no terceiro trimestre antes de uma possível estabilização.
O crescimento das provisões mostra que as instituições estão aumentando a proteção diante de um cenário considerado mais arriscado. A deterioração de linhas emergenciais e do crédito rotativo também amplia a preocupação do sistema financeiro.
Com o comprometimento da renda das famílias, inflação ainda pressionada e juros elevados afetando empresas e produtores, a tendência apresentada pelos bancos é de maior seletividade na concessão de crédito enquanto os indicadores de inadimplência permanecerem pressionados.
Os números do primeiro semestre colocam, portanto, a evolução dos calotes e das provisões bancárias entre os indicadores a serem acompanhados ao longo da segunda metade de 2026.