
O mercado de crédito brasileiro entra no segundo semestre de 2026 sob pressão. Juros elevados, renda das famílias comprometida, inadimplência acima da média histórica e aumento do custo de financiamento para empresas levam bancos e analistas a projetarem um cenário mais restritivo para concessão de empréstimos.
De acordo com reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, os três maiores bancos privados do país, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander, ampliaram as reservas para perdas com calotes no segundo trimestre. Somadas, as provisões chegaram a R$ 28,7 bilhões, alta de 12,4% em relação ao mesmo período de 2025.
O aumento das provisões ocorreu em ritmo superior ao crescimento da carteira de crédito. Enquanto o colchão contra inadimplência avançou 12,4%, a carteira dos três bancos cresceu 9,4%, alcançando R$ 3,37 trilhões.
O presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy, afirmou, em teleconferência com analistas citada pela Folha de S.Paulo, que o ciclo do crédito será desafiador e que o mercado concedeu crédito em excesso.
“Eu acho que o ciclo do crédito vai ser desafiador”, disse Maluhy, conforme publicado pela Folha de S.Paulo. Ele também afirmou que o banco prefere abrir mão de crescimento e participação de mercado a assumir risco maior de inadimplência no futuro.
O Bradesco também sinalizou postura mais conservadora. Segundo a reportagem da Folha de S.Paulo, o presidente do banco, Marcelo Noronha, afirmou a jornalistas que a instituição está reduzindo crédito pessoal e priorizando operações com garantia.
A tendência indica maior seletividade dos bancos, especialmente em linhas voltadas a consumidores de menor renda e operações sem colateral. A preferência passa a ser por crédito consignado CLT, financiamento imobiliário, financiamento de veículos com garantia e linhas apoiadas por fundos garantidores, como FGI e FGO.
A inadimplência geral do sistema financeiro atingiu em maio o maior patamar da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011. Naquele mês, 4,74% de todo o crédito concedido estava em atraso há mais de 90 dias.
Em junho, após o início do Desenrola 2.0, o índice recuou levemente para 4,68%, mas ainda permaneceu bem acima da média histórica de 3,29%.
O quadro é agravado pelo comprometimento da renda das famílias. Segundo os dados citados pela Folha, o endividamento familiar com os bancos em relação à renda acumulada dos últimos 12 meses chegou a 49,93% em janeiro, maior nível da série do Banco Central iniciada em 2005, mantendo-se próximo desse patamar até maio.
A taxa básica de juros, a Selic, está em 14% ao ano, após corte de 0,25 ponto percentual pelo Banco Central. Mesmo com redução recente, o custo do dinheiro permanece elevado e limita tanto o acesso das famílias ao crédito quanto a capacidade de financiamento das empresas.
O pesquisador Flávio Ataliba, do FGV IBRE, afirmou à Folha de S.Paulo que a inadimplência reflete não apenas a Selic elevada, mas também a precificação de juros futuros altos, influenciada pela percepção de risco fiscal.
Ataliba também alertou para o impacto da inflação dos alimentos sobre famílias de menor renda. Segundo ele, em fala publicada pela Folha de S.Paulo, os alimentos comprometem mais de 23% do orçamento das famílias que ganham até um salário mínimo.
A avaliação de especialistas é que a transmissão dos juros para a economia ocorre de forma lenta. Por isso, a inadimplência pode piorar ou, no mínimo, permanecer elevada no segundo semestre.
O aperto no crédito não se limita aos bancos privados. Em outra reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, foi informado que a TLP, taxa de longo prazo usada como referência em financiamentos do BNDES, ultrapassou 8% ao ano mais inflação pela primeira vez.
Para contratos assinados em agosto de 2026, a TLP ficou em 8,21% ao ano, a maior desde o início da série, em janeiro de 2018.
A TLP é formada pela soma da inflação medida pelo IPCA com uma taxa real prefixada baseada no rendimento de títulos públicos federais atrelados à inflação. Sua elevação tende a encarecer financiamentos de longo prazo para empresas e pode reduzir a disposição para novos investimentos.
A alta da TLP é atribuída à pressão no mercado de títulos públicos indexados à inflação e às incertezas fiscais no Brasil. Fatores externos também contribuem para a volatilidade, ampliando o prêmio exigido pelos investidores.
A economista Juliana Inhasz, do Insper, afirmou à Folha de S.Paulo que a TLP acompanha mais de perto o custo de captação do BNDES. Segundo ela, quando a inflação ou os juros reais de longo prazo sobem, a taxa também aumenta.
“Hoje o mercado enxerga uma situação fiscal muito deteriorada, com endividamento elevado. O mercado exige o que a gente chama de prêmio de risco maior, ou seja, para o investidor comprar o título público, ele vai querer que o título pague mais”, afirmou Juliana Inhasz, conforme publicado pela Folha de S.Paulo.
O efeito prático é o encarecimento do financiamento produtivo, com impacto potencial sobre investimentos, geração de empregos e expansão da capacidade produtiva.
Mesmo com diferenças entre os balanços, Itaú, Bradesco e Santander aumentaram as proteções contra calotes no segundo trimestre.
Segundo a Folha, Itaú e Bradesco informaram que a provisão contra devedores duvidosos acompanhou o crescimento da carteira de crédito. O Santander, por sua vez, citou o cenário macroeconômico como fator relevante.
O Itaú mantém o menor índice de inadimplência entre os pares, em 1,9% há seis trimestres, mas também registrou sinais de deterioração. O Bradesco ampliou a participação de créditos com garantia em sua carteira, de 58,5% para 61%, mas ainda enfrenta preocupação com empréstimos ao varejo.