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O cheiro doce dos dias de chuva

Entre a farinha sobre a mesa, o forno a lenha e a casa cheia, a crônica resgata o tempo em que a chuva anunciava bolacha caseira, encontro de família e lembranças que ainda perfumam a memória

Gelsiney Schell
Por: Gelsiney Schell
10/07/2026 às 08h19
O cheiro doce dos dias de chuva

Em Marechal Cândido Rondon, houve um tempo em que a gente sabia que a chuva ou a Páscoa estavam chegando pelo cheiro.

Não era pelo calendário. Nem pelas vitrines. Era pelo ar.

Bastava o céu fechar, o vento mudar e o terreiro anunciar a chuva para a vó dizer:

- Vilma! Hoje de tarde vamos fazer bolacha.

E a notícia corria ligeiro.

Quando se via, já tinha tia chegando, vizinha aparecendo, a avó organizando a mesa e a mãe separando os ingredientes. Sem convite. Sem combinação. Era assim que acontecia.

A cozinha mudava de ritmo.

A farinha cobria a mesa. Os ovos estalavam nas bacias. A manteiga, ainda fria, era cortada em pedaços pesados sobre a tábua. O açúcar e o sal completavam o cenário. E havia também a música daquele trabalho: a colher raspando a tigela, a cadeira arrastando no assoalho, as conversas cruzadas e as risadas que escapavam no meio do serviço.

As mais velhas comandavam tudo com a segurança de quem repetira aquele ritual a vida inteira. As mais novas observavam, aprendiam e, sem perceber, herdavam um saber que nunca precisou ser escrito. A piazada ficava por perto. Ajudava pouco, é verdade, mas não perdia um instante sequer. Havia algo no calor daquela cozinha que fazia qualquer criança entender que alguma coisa boa estava para nascer.

A avó passava a mão na massa e decretava:

- Ainda falta farinha.

A massa grudava de leve nos dedos.

Mais um punhado, mais algumas voltas.

Então ela sorria de canto:

- Agora está no ponto.

E ninguém discutia.

Quando a massa ficava pronta, começava a parte mais bonita da tarde.

A mesa enfarinhada se enchia de mãos em movimento. A massa macia se abria sob o rolo, esticando devagar, com o som seco da madeira deslizando sobre ela. Uma cortava as bolachas com um copo virado. Em algumas casas apareciam moldes de estrela, flor ou coração. Em outras, o velho aparelho preso à mesa soltava fileiras perfeitas, todas alinhadas como se já soubessem o caminho até o forno.

Enquanto isso, o fogo exigia atenção.

Lenha seca. Brasa firme. Forno no ponto certo.

O calor subia forte e batia no rosto quando a portinha era aberta. Não havia termômetro nem qualquer marcação além do olhar experiente de quem conhecia o forno como conhece as próprias mãos.

Um gesto na brasa. Alguns segundos observando o calor subir.

E quase sempre acertavam.

As primeiras fornadas saíam douradas, estalando de leve ao serem tocadas. Bastava abrir o forno para que aquele perfume doce invadisse a casa, atravessasse as portas, cruzasse o quintal e chegasse à rua antes mesmo de qualquer palavra.

De repente, um "ai!" escapava da frente do forno.

Lá estava a Vilma outra vez, com o dedo queimado na forma quente.

A piazada já esperava por esse momento.

As bolachas quebradas, as mais escurinhas ou as que passavam um pouco do ponto jamais chegavam à lata. Eram devoradas ainda mornas, com o açúcar derretendo na boca e um copo de leite gelado cortando o calor da fornada recém-saída.

No fim da tarde vinha outra etapa aguardada por todos: pintar as bolachas.

Uma a uma, recebiam a cobertura branca de açúcar confeiteiro e, por cima, os confeitos coloridos. Aos poucos, a cozinha deixava de ser apenas um lugar de trabalho para se transformar em encontro.

Mas fazer bolacha nunca foi apenas fazer bolacha.

Era reunir gerações em volta da mesma mesa. Era conversar com as mãos ocupadas. Era aprender sem que ninguém precisasse ensinar. Era misturar o cheiro da massa assando com o café recém-passado. Era transformar uma tarde comum numa lembrança que nunca envelhece.

Felizmente, ainda há famílias que preservam esse costume.

Mas quem viveu aqueles tempos sabe que havia algo diferente naqueles dias de chuva.

A casa ficava cheia.

O forno permanecia aceso.

O cheiro das bolachas recém-assadas tomava conta de tudo.

E, por algumas horas, o resto do mundo ficava do lado de fora.

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