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O orelhão

Quando uma ficha e uma voz encurtavam a saudade

Gelsiney Schell
Por: Gelsiney Schell
05/06/2026 às 08h16 Atualizada em 05/06/2026 às 08h40

— Alô...

— Tá me ouvindo?

— Fala mais alto... a ligação vai cair!

Antes da voz, vinha o som.

Clinc.

A ficha metálica descia pelo interior do orelhão como um pequeno anúncio de esperança. Quem estava por perto reconhecia na hora. Alguém tentava encurtar a saudade.

Nos anos 70, Marechal Cândido Rondon ainda tinha cheiro de colônia recém-assentada. A terra vermelha grudava no solado da Conga. Caminhões carregados de soja levantavam poeira nas ruas sem asfalto. Bicicletas cruzavam a cidade devagar, e o sino da igreja marcava o tempo melhor do que qualquer relógio.

As notícias não chegavam.

Vinham.

Vinham pelo rádio de pilha, pela visita inesperada, pelo caminhoneiro que trazia recados, pela carta dobrada dentro de um envelope guardado como tesouro.

Até que surgiu ele.

Uma espécie de orelha gigante plantada na calçada.

Amarela.

Brilhante.

Moderna demais para aquele pedaço de mundo.

O povo rodeava desconfiado.

Uns tocavam com cuidado, como quem encosta numa máquina estrangeira. Outros observavam de longe, mãos cruzadas atrás das costas, tentando entender como alguém podia conversar com uma pessoa que não estava ali.

Telefone, naquele tempo, era coisa de banco, prefeitura ou gente muito importante.

O orelhão democratizou o milagre.

Pela primeira vez, o colono podia ouvir a voz de um filho distante sem esperar meses por uma visita. Uma mãe podia saber que estava tudo bem. Um namorado podia matar a saudade sem depender do correio.

O orelhão virou ponte onde antes existia apenas distância.

Comprava-se a ficha no bolicho — junto com bala Soft, cigarro Hollywood, uma gasosa gelada e alguns metros de prosa — e ela era guardada no bolso como se fosse uma relíquia.

Chegava-se ao aparelho quase em silêncio.

Tirava-se o fone devagar.

Inseria-se a ficha.

Girava-se o disco com paciência, número por número.

Então o mundo respondia.

— Alô?

E a cidade descobria que não terminava na última rua de chão.

A piazada foi quem primeiro compreendeu o poder da novidade.

Vieram os trotes.

Três guris espremidos dentro do orelhão: um cuidando da rua, outro segurando o riso e o terceiro perguntando coisas sem sentido para algum desconhecido.

— A senhora trabalha com roupa?

Quando percebiam alguém vindo pela calçada, disparavam para fora do abrigo amarelo como se tivessem acabado de cometer o maior crime da cidade.

Depois era só correria e gargalhada.

O progresso também servia para bagunça.

E quem tinha um orelhão na frente de casa muitas vezes virava anotador oficial de recados.

Era o telefone tocar e dona Teresa aparecer correndo da cozinha, secando as mãos no pano de prato. Numa mão vinha a caneta. Na outra, o caderno dos recados.

— Seu Alfredo! Ligação do Mato Grosso!

Minutos depois alguém surgia quase sem fôlego para receber a notícia.

Outras vezes era engano.

Alguém discava errado.

E dona Teresa acabava conversando com um desconhecido de Cascavel, Toledo ou Curitiba sem entender muito bem como tinha ido parar naquela conversa.

Nas tardes de sábado, o movimento aumentava.

Às vezes a ligação durava apenas dois minutos.

Mas o assunto rendia conversa para a semana inteira.

Havia os inimigos das ligações.

Bastava alguém iniciar uma conversa importante que surgia um caminhão carregado de grãos ou um Passat com o escapamento estourado.

BRRRAAAAMMMM...

— O quê?

— Fala mais alto!

— Não ouvi!

E lá se ia metade da ficha.

Pior ainda quando passava o carro de som anunciando promoção no mercado, baile no clube, campanha da cooperativa ou algum circo recém-chegado à cidade.

A voz do locutor tomava conta da rua.

Quem estava do outro lado da linha desaparecia no meio do barulho.

E ninguém devolvia a ficha perdida.

De vez em quando acontecia um pequeno milagre.

Alguém encontrava uma ficha esquecida no compartimento do aparelho.

Era como achar dinheiro.

Havia quem encontrasse também documentos, carteiras e bilhetes amassados que pareciam ter ficado presos entre uma ligação e outra.

Os namorados conheciam bem aquele abrigo amarelo.

Muitos esperavam a noite chegar.

Falavam baixinho.

Olhavam para os lados.

E gastavam duas ou três fichas para dizer algo que uma carta levaria semanas para entregar.

— Tô com saudade.

Poucas palavras.

Muito sentimento.

Havia também as meninas que ocupavam o orelhão por alguns minutos a mais.

Ligavam para a rádio.

Pediam uma música.

Mandavam um recadinho.

Depois passavam o resto da tarde esperando o locutor anunciar seu nome pelo alto-falante do mundo.

Mas havia dias diferentes.

Dias em que ninguém ria.

Formavam-se filas silenciosas.

Pessoas seguravam papéis dobrados com números anotados à caneta.

Um agricultor tirava o chapéu antes de discar, como se estivesse entrando numa conversa importante demais para começar de qualquer jeito.

Uma moça ensaiava frases baixinho.

Quem esperava acabava ouvindo pedaços da vida dos outros, fingindo não ouvir.

— Cheguei bem.

— A colheita foi boa.

— Manda notícia da mãe.

— Reza por nós.

A cidade inteira escutava sem olhar.

E havia momentos em que aquele pequeno abrigo amarelo deixava de ser apenas um telefone.

Transformava-se em confidente.

Em testemunha.

Em companheiro silencioso das alegrias e das dores de uma comunidade inteira.

Ouviu-se mais de uma vez o choro contido de mães que recebiam notícias de filhos distantes.

Havia quem partisse para Curitiba, São Paulo, Mato Grosso ou Rondônia em busca de trabalho.

Meses podiam passar sem uma visita.

A saudade crescia silenciosa entre uma carta e outra.

Então chegava o dia da ligação.

A fila esperava em respeito.

Ninguém interrompia.

Ninguém comentava.

Do outro lado da linha vinha apenas uma frase:

— Mãe, estou bem.

E aquilo bastava.

Por alguns minutos, estradas, fronteiras e milhares de quilômetros desapareciam.

Restavam apenas duas vozes tentando se abraçar através dos fios.

Mas o velho orelhão também ouviu notícias que ninguém queria receber.

Acidentes.

Doenças.

Falecimentos.

Houve dias em que alguém entrou sorrindo e saiu em silêncio.

Dias em que as palavras pesavam mais do que sacos de soja.

O aparelho amarelo conheceu alegrias e tristezas na mesma proporção.

Quando a ligação era interurbana, o coração batia diferente.

Às vezes era preciso pedir ajuda à telefonista.

Sua voz surgia antes da ligação completar.

Ela orientava, transferia chamadas, ajudava nas ligações a cobrar e, às vezes, parecia conhecer metade das histórias que cruzavam aqueles fios.

O tempo corria caro.

Talvez por isso ninguém falasse bobagem.

Cada palavra precisava valer a ficha.

Onde tinha bolicho, tinha orelhão.

Onde tinha orelhão, tinha encontro.

Gente chegava carregando saudade e saía carregando alívio.

Ou preocupação.

Talvez o orelhão tenha sido a última tecnologia que obrigava as pessoas a desacelerar.

Não existia ligação instantânea.

Não existia mensagem digitada às pressas.

Era preciso sair de casa.

Caminhar.

Esperar.

Ter algo importante para dizer.

Depois vieram os telefones residenciais.

Vieram os cartões telefônicos.

Vieram os celulares.

As filas desapareceram.

E junto delas, algo difícil de explicar.

Hoje falamos o tempo inteiro.

Mandamos mensagens antes mesmo de sentir saudade.

A voz atravessa continentes em segundos.

Mas raramente caminhamos até alguém para conversar.

Os orelhões foram retirados sem despedida.

Ficaram apenas manchas no cimento e histórias espalhadas pelas esquinas da memória.

Mas quem viveu sabe.

Dentro deles ficaram guardados nascimentos, pedidos de perdão, promessas de retorno, declarações de amor, notícias de colheitas, despedidas que nunca se repetiram e lágrimas que ninguém viu cair.

Porque naquele tempo falar exigia mais do que vontade.

Exigia sair de casa.

Exigia caminhar.

Exigia esperar.

Exigia coragem.

Às vezes penso que o último orelhão não desapareceu.

Talvez ainda exista em alguma esquina da memória.

Amarelo.

Silencioso.

Esperando que alguém coloque uma velha ficha metálica no coração do tempo.

Clinc.

— Alô...

E do outro lado da linha, uma cidade inteira responda:

— Estamos aqui.

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