Na casa do Antônio, gritos eram comuns entre a piazada. Em dia de jogo, porém, eram parte da casa.
Havia a mesa de fórmica, as cadeiras de palha cansadas, o copo de vidro grosso, a toalha com desenhos de frutas já meio desbotada cobrindo parte da mesa, com cheiro de gente e de tarde de jogo.
E os piás eram bons de grito — grito que atravessava a janela e se espalhava pela rua como aviso: hoje o Brasil joga aqui em casa.
A janela da sala estava escancarada para o mundo. Quatro piás se penduravam do lado de fora, espremidos entre parede e esperança, montados em um cavalete de obra, tentando arrancar de uma televisão P/B de 14 polegadas um pedaço do destino. A imagem vinha chuviscada, trêmula, como se os jogadores corressem dentro de um sonho mal ajustado. Em cima da TV, um pedaço de Bombril na antena sustentava mais do que o sinal. Sustentava o país.
Volta e meia alguém mexia nele, como se o mundo pudesse ser alinhado no braço.
O Brasil começou sem aviso.
1 a 0 aos 17 minutos.
A sala levantou inteira.
Copos, mãos, vozes, cadeira raspando no chão. Os piás quase caíram da janela. A alegria não cabia. E por isso transbordava.
Só o Seu Antônio não seguia o movimento.
Sentado no canto, caipirinha na mão, observava como quem já viu esse tipo de luz apagar. Não comemorava. Não antecipava nada. O jogo, para ele, era sempre uma coisa que podia mudar de humor sem pedir licença.
Aos 40 do primeiro tempo, Platini empatou.
O ar passou pelas cortinas da porta do quarto.
Não houve reação imediata. Só um intervalo no corpo da sala, como se algo tivesse sido deslocado sem aviso.
No intervalo, a casa seguiu.
Q-Suco. Cuca. Bergamota aberta na unha. Talheres batendo no vidro. A porta do banheiro abrindo e fechando. A antena sendo ajustada de novo, sem convicção. A imagem continuava instável, como se também hesitasse.
Voltaram.
Segundo tempo.
Pênalti.
Branco caiu. O juiz apontou.
Alguém disse:
— Vai, Zico.
Mas já não era ordem.
Era tentativa.
Zico bateu.
Errou.
O nome de Zico ficou no meio da sala. O locutor lamentou o desperdício.
Depois disso, nada se organizou de novo. As vozes baixaram. Os objetos perderam função. O açúcar do suco grudou no fundo do copo. O tempo ficou sem borda.
Prorrogação.
O jogo continuava.
E então vieram os pênaltis.
Sócrates.
Errou.
Júlio César.
Errou.
A França eliminou o Brasil.
O som acabou antes da imagem.
A televisão ficou acesa, sem destino.
Os piás desceram da janela sem pressa. Sentaram no chão, afastados. Sem olhar uns para os outros. A infância perdeu uma medida que não sabia que tinha.
O Seu Antônio levantou.
Colocou o copo na pia.
Pegou os apetrechos de pesca.
A bicicleta o esperava como sempre esperam as coisas que não perguntam.
Saiu.
Sem explicação.
Rua abaixo, devagar.
Ficou a casa.
A janela aberta.
A televisão ainda acesa.
Os piás no chão.
Eu fiquei sob a bergamoteira.
O vento passava sem esforço. A grama seguia igual. Mas algo havia saído do lugar sem fazer barulho suficiente para ser ouvido.
Na sala da pequena casa, pela janela aberta, ainda se via o Bombril preso à antena, como se sustentasse sozinho o resto daquela tarde.