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A Parede e Meia

Na casa 121, duas famílias separadas por uma parede viveram uma infância feita de sons, cheiros, afetos e memórias que ainda ecoam no tempo

Gelsiney Schell
Por: Gelsiney Schell
12/06/2026 às 08h22

As paredes não têm ouvidos,
mas nós temos - e memória também.

E memória escuta tudo.

Na baixada da rua Rio Grande do Norte, a casa número 121 respirava em duas metades. Não era apenas uma divisão de madeira e pregos; era uma fronteira invisível feita de risadas, segredos e passos cuidadosos.

De um lado, os Schell's.
Do outro lado… os Pothin's, ou simplesmente, os Pudin's.

A escada da varanda rangia como quem anunciava cada chegada. Quem subia precisava aceitar o som - ali ninguém entrava escondido. A madeira guardava histórias nos veios, cheirando a chuva, sol de verão e poeira boa de quintal vivido.

A sala era pequena, mas suficiente para o mundo inteiro caber ali dentro. O sofá de corvim amarelo carregava marcas de tardes quentes, visitas demoradas e cochilos depois do almoço. A televisão de caixa de madeira, apoiada num móvel baixo, reunia olhos atentos como se fosse uma janela mágica aberta para outro mundo.

O corredor estreito conduzia aos quartos como um túnel do tempo. Portas entreabertas. Cheiro de talco e Rinso, roupa passada, anil e sabão em pedra, café recém-coado e pão quente escapando da cozinha.

No fundo, a lavanderia era território das bacias de alumínio, da esponja de metro pendurada no prego e da espuma branca escorrendo pelas mãos. Ali nasciam conversas baixas entre mães que sabiam tudo sem perguntar nada.

Ao lado, o banheiro simples -frio no inverno, abafado no verão -guardava ecos de pressas matinais e banhos demorados depois das brincadeiras de rua.

Mas era a convivência que realmente construía aquela casa.

Se tinha pinhão de um lado, do outro surgia o quentão.
Se a pipoca estourava nos Schell's, logo saía mate doce fumegando nos Pudin's.
Polenta com leite de cá.
Sopa quente de lá.

Os aromas atravessavam a parede sem pedir licença.

Tudo se misturava: cheiros, vozes, costumes, afetos.

Às vezes uma chinelada educava de um lado,
enquanto do outro uma varinha resolvia a travessura.

E ninguém achava estranho.
Era o jeito antigo de ensinar o mundo.

O cheiro das cozinhas dominava o ar: alho fritando, leite fervendo, pão assando, madeira aquecida pelo fogão a lenha. A casa inteira parecia uma só família dividida apenas por tábuas e carinho.

Na sala dos Pudin's morava o soberano do tempo.

O relógio cuco.

Não apenas um relógio - uma autoridade compartilhada.

A cada hora, o cuco surgia.
Pontual. Orgulhoso.
Como se anunciasse para duas casas ao mesmo tempo:

- A vida está passando.

E quando batia suas horas cheias, o som atravessava as paredes finas como um trovão doméstico. Nenhum segredo sobrevivia ao seu chamado.

O cuco dos Pudin's era, na verdade, das duas casas.

As conversas precisavam ser suaves.
As risadas, medidas.
Discussões? Jamais altas demais.

Porque ali, entre uma tábua e outra, o mundo vazava.

Escutava-se o rádio do vizinho antes mesmo de ligar o nosso. Sabia-se quem chegava cansado, quem estava doente, quem ria alto demais ou quem chorava escondido.

As paredes não tinham ouvidos.

Mas todos tinham.

E escutavam.

As meninas alinhavam bonecas na varanda, criando famílias perfeitas que nunca brigavam. Vestidinhos improvisados, panelinhas de plástico, futuros inventados em voz fina.

Os meninos dividiam carrinhos, bolinhas de gude e segredos, sem perceber que estavam dividindo algo maior: a própria infância.

Não havia dono definitivo.

Tudo era emprestado.
Tudo era junto.

Domingo era dia sagrado.

Os Trapalhões passavam numa sala…
e na outra também.

Risadas atravessavam a parede como vento leve. Didi, Dedé, Mussum e Zacarias eram visitas fixas da casa 121 inteira.

Na rua de terra, o sol descia lento, pintando tudo de laranja queimado. Bicicletas riscavam o chão vermelho. O cheiro do jantar escapava pelas janelas abertas, misturando alho, cebola, fumaça de lenha e esperança.

As mães chamavam pelos nomes completos - sentença definitiva do fim da brincadeira.

E o cuco confirmava.

Uma hora.
Outra hora.
Mais um pedaço da infância indo embora sem avisar.

À noite, o silêncio não era ausência de som.

Era vida descansando.

O rádio baixo do outro lado sintonizado na Turma da Maré Mansa.
Uma panela sendo guardada.
A torneira pingando.
Passos leves cruzando o corredor.

E nós, deitados, escutando tudo.

Sem saber que estávamos ouvindo aquilo que um dia chamaríamos de saudade.

Porque crescer é isso:

descobrir que as casas eram pequenas,
as paredes finas,
os móveis simples,
o chão rangendo…

mas a felicidade ocupava todos os cômodos.

E hoje, quando o tempo corre apressado demais, ainda parece possível ouvir, bem longe, o velho relógio cuco anunciando uma hora que nunca volta.

As paredes não tinham ouvidos.

Mas nós tínhamos infância.

E ela ouviu tudo.

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