
Pesquisa inédita divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) revela um contraste importante no comportamento dos brasileiros diante da economia circular. Embora 72% da população veja de forma positiva empresas que investem em sustentabilidade, 43% dos entrevistados afirmam resistir à compra de produtos reciclados, independentemente do valor.
O levantamento foi realizado pela Nexus, a pedido da CNI, com 2.019 entrevistas presenciais em todas as regiões do país, entre os dias 11 e 13 de fevereiro. Os dados foram apresentados nesta segunda-feira, dia 1º, durante o evento “Liderança Empresarial pelo Futuro do Clima | COP31”, realizado na sede da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN).
A pesquisa aponta que, apesar do avanço do debate sobre sustentabilidade, ainda existe distância entre a intenção de consumo e a adoção de práticas circulares no cotidiano dos brasileiros.
Entre os consumidores que resistem à compra de produtos reciclados, os principais motivos apontados são a preferência por produtos novos, mencionada por 34% dos entrevistados, e dúvidas sobre a durabilidade dos itens reciclados, citadas por 30%.
Para a CNI, os dados mostram que a transição para uma economia circular depende não apenas da oferta de soluções sustentáveis, mas também do fortalecimento da confiança do consumidor.
O superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, Davi Bomtempo, avalia que ainda há barreiras relacionadas à informação, à percepção de qualidade e ao acesso.
“Existe interesse da sociedade por práticas mais sustentáveis, mas ainda há barreiras relacionadas à informação, percepção de qualidade e acesso. Isso reforça a necessidade de ampliarmos o debate sobre economia circular e criarmos condições para que escolhas mais sustentáveis façam parte do cotidiano dos brasileiros”, afirma.
A pesquisa também mostra que apenas 13% dos brasileiros afirmam conhecer profundamente o conceito de economia circular. O dado indica que, apesar da valorização de empresas sustentáveis, o entendimento sobre circularidade ainda é restrito.
Outro ponto de atenção é que 56% da população não percebe relação direta entre seus hábitos de consumo e as emissões de gases de efeito estufa.
Esse cenário reforça a necessidade de ações de educação, comunicação e políticas públicas voltadas à ampliação do conhecimento sobre os impactos do consumo, do descarte e da reutilização de materiais.
O levantamento aponta que 84% dos brasileiros não costumam devolver itens aos pontos de origem, prática conhecida como logística reversa. Entre esses produtos estão pilhas, baterias e eletrônicos.
Entre os principais obstáculos apontados estão a falta de informação, citada por 33% dos entrevistados, e a distância dos pontos de coleta, mencionada por 24%.
A baixa adesão à logística reversa demonstra que a economia circular depende também de infraestrutura acessível, comunicação clara e participação de empresas, consumidores e poder público.
Apesar das dificuldades, a pesquisa identifica práticas sustentáveis já presentes no cotidiano de parte da população.
Cerca de 58% dos brasileiros afirmam consertar produtos antes de substituí-los. Entre eles, metade aponta a economia financeira como principal motivação. Apenas 10% relacionam essa escolha diretamente à preocupação ambiental.
Para a CNI, esse dado mostra que práticas circulares podem ganhar escala quando combinam benefício econômico, facilidade de acesso e maior consciência ambiental.
“Temos espaço para ampliar a conscientização da sociedade sobre circularidade e fortalecer políticas públicas capazes de incentivar modelos mais sustentáveis de produção e consumo. A economia circular depende de uma transformação sistêmica, que envolve informação, infraestrutura, ambiente regulatório e engajamento de toda a cadeia produtiva”, destaca Davi Bomtempo.
Segundo a CNI, os resultados da pesquisa reforçam a importância da aprovação do Projeto de Lei 1874/2022, que cria a Política Nacional de Economia Circular (PNEC).
Para a entidade, a proposta pode estimular investimentos, ampliar a competitividade da indústria brasileira e incentivar práticas sustentáveis de produção e consumo.
A economia circular busca substituir o modelo linear de produção, baseado em extrair, produzir, consumir e descartar, por uma lógica que prioriza reaproveitamento, reciclagem, durabilidade, reparo, redução de desperdícios e reinserção de materiais na cadeia produtiva.
A divulgação da pesquisa ocorreu durante o evento “Liderança Empresarial pelo Futuro do Clima | COP31”, promovido pela CNI no Rio de Janeiro.
A iniciativa integra a programação da Rio Nature and Climate Week e reúne representantes da indústria, do governo e do setor financeiro para discutir prioridades e propostas do setor privado para a 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, marcada para novembro, na Turquia.
Durante o encontro, também serão apresentados os resultados e direcionadores estratégicos da Sustainable Business COP (SB COP) para o próximo triênio.
A iniciativa da CNI busca acelerar o alcance das metas climáticas e fortalecer a participação das empresas nas negociações globais. Em um ano, a mobilização alcançou mais de 40 milhões de empresas em 60 países e reuniu mais de 600 casos de sucesso ligados a soluções sustentáveis desenvolvidas pelo setor privado.
O levantamento da CNI evidencia que empresas sustentáveis são valorizadas pela população, mas a transformação dos hábitos de consumo ainda depende de confiança, informação, infraestrutura e acesso.
A economia circular aparece como uma agenda estratégica para a indústria, o consumidor e o país, especialmente em um cenário de transição climática, busca por competitividade e necessidade de reduzir desperdícios.