
Houve um tempo em que o centro da cidade simplesmente acabava.
Depois da última esquina, começava o silêncio.
Não era abandono. Era começo.
Ali, fora do mapa oficial do município, quando ainda se chamava Vila General Rondon, surgiu a casinha de madeira — dois quartos pequenos, sala, cozinha, varanda simples e a patente afastada no fundo do terreno, respeitando o vento e a vergonha das madrugadas frias.
Na frente, terra vermelha batida pelos passos de quem ainda acreditava no amanhã.
Ao redor, espaço suficiente para o futuro respirar.
A cidade ainda estava nascendo.
Carroças levantavam poeira na rua principal. Colonos chegavam vindos do Sul, trazendo sotaques diferentes, sementes guardadas em latas e sonhos maiores que as malas.
Lá no centro, o Moinho Fronteira trabalhava sem descanso.
O barulho das engrenagens misturava-se ao cheiro de trigo moído, marcando o ritmo da comunidade. Quem passava por ali sabia: enquanto o moinho girasse, a vila cresceria.
Do outro lado da estrada, árvores nativas resistiam entre roçados recém-abertos. Milho em filas pacientes, mandioca agarrada à terra, abóboras espalhadas como pequenos sóis esquecidos no chão.
Cada família plantava o que podia —
e aprendia, acima de tudo, a esperar.
Esperar chuva.
Esperar colheita.
Esperar dias melhores.
À noite, os vaga-lumes acendiam o campo, o pasto virava o céu.
Sapos dominavam o jardim. O escuro não assustava ninguém. Quem começa uma vida nova entende cedo que a natureza não ameaça — acompanha.
Carros quase não passavam.
Bicicletas eram raras.
A gaiota era tudo.
Empurrada devagar, rangendo nas rodas gastas, levava milho, quirela e farelo para os animais. Voltava carregada de mantimentos, notícias e promessas.
Ia lenta, mas nunca retornava vazia.
Era esperança movida pelas próprias mãos.
A casa não tinha energia elétrica.
Todas as noites, a luz precisava ser inventada. Lampião sobre a mesa, lamparinas nos cantos, o assoalho encerado com cera Canário devolvendo um brilho manso à escuridão.
Ali dentro, Ivo e Laura conversavam baixo.
Planejavam a vida como quem constrói sem planta arquitetônica — apenas com fé.
Antes do amanhecer, Ivo caminhava até o centro para trabalhar como carpinteiro. Ajudava a levantar casas, armazéns e galpões da jovem vila sem perceber que também ajudava a construir o destino da futura cidade.
Laura cuidava do quintal vivo: galinhas ciscando, quatro porcos no chiqueiro, roupas dançando no varal, crianças crescendo entre cheiro de lenha, café passado e terra úmida.
O leite vinha da chácara no fim da rua.
Quem carneava repartia.
A banha era dividida em potes reaproveitados.
Sobre a mesa nunca faltavam coisas simples e sagradas:
pão caseiro ainda quente,
banha branca espalhada com faca larga,
torresmo moído para passar no pão,
linguiça defumada pendurada na cozinha,
cuca doce para o café da tarde.
O chimarrão circulava de mão em mão sem pressa.
Ninguém chamava aquilo de solidariedade.
Era apenas o modo correto de viver.
E havia o bolicho.
Lugar de conversa, fiado anotado e notícias do mundo.
O maior agrado que um pai podia oferecer ao filho não era brinquedo.
Era chegar em casa tirando do bolso alguns caramelos comprados no balcão.
Os olhos das crianças brilhavam como se o mundo inteiro coubesse dentro daquele doce.
E sobre tudo — a casa, o quintal, os sonhos — existia o mogno.
Alto. Antigo. Silencioso.
Sua sombra atravessava as estações como um relógio natural. Protegia o telhado do sol forte, segurava o vento das madrugadas frias e guardava a família como um sentinela plantado antes mesmo da vila existir.
As crianças cresceram sob aquela copa.
Brincaram ali. Choraram ali. Aprenderam o tamanho do mundo medindo o alcance da sombra.
Os domingos passavam devagar.
Até que a cidade começou a chegar.
Primeiro uma casa nova.
Depois outra.
Ruas abertas rasgaram o potreiro.
Vieram postes, fios, motores.
A antiga Vila General Rondon começava a ganhar forma de cidade.
O estradão virou avenida.
A televisão de tela cinza apareceu na sala, sustentada por uma antena apontada para o céu, como se pedisse notícias do futuro.
A energia elétrica trouxe noites claras e sonhos maiores.
Sem perceber, aconteceu:
a primeira periferia deixou de existir.
A cidade caminhou até eles.
Onde havia pasto nasceu a escola.
Onde existia mata ergueu-se o hospital.
A praça ganhou árvores plantadas por mãos humanas.
A igreja levantou seu telhado simples sem disputar o horizonte.
Mas o mogno permaneceu.
Imóvel.
Como se soubesse algo que ninguém mais percebia.
Até o dia.
A motosserra roncou cedo.
Homens falando alto ocuparam o terreno. Cordas foram esticadas. Passos firmes marcaram a terra antiga.
Laura parou à janela.
O filho pequeno segurou sua saia e perguntou:
— Mãe… por que derrubam as árvores?
Ela demorou a responder.
Talvez porque algumas respostas nunca cabem em palavras.
Veio o primeiro corte.
Depois outro.
O som metálico atravessou a rua recém-patrolada.
O mogno pareceu respirar pela última vez.
Então o estalo.
Seco. Enorme. Irreversível.
O chão tremeu.
As janelas vibraram.
A casa inteira pareceu prender a respiração.
O mogno tombou.
A poeira subiu lentamente na luz da manhã, como se o próprio tempo tivesse sido arrancado pela raiz.
Naquele instante terminou algo que ninguém soube explicar.
Não a vida.
Não a cidade.
Mas o começo.
Vieram o asfalto, o movimento constante, os carros apressados. A gaiota virou lembrança. O rádio trouxe vozes distantes. O mundo finalmente encontrou aquela rua.
Os filhos cresceram.
Os netos nasceram.
A casa permaneceu.
E Marechal Cândido Rondon seguiu adiante.
Hoje estou sentado na rodoviária.
O tempo correu comigo até hoje... 1980.
Um viajante cansado amanheceu deitado sobre a mala.
Cheiro de pastel fritando atravessa o salão, o café passado mistura-se com o cheiro dos grãos torrados vindo do alto da Rua Santa Catarina. O frio corta o ar sem pedir licença, empurrando a garoa sobre o ônibus estacionado. O Jornaleiro organiza exemplares ainda úmidos de tinta. Engraxates conversam alto enrolados em seus ponchos, enquanto passageiros passam carregando destinos que antes pareciam longe demais para existir.
Ônibus chegam e partem sem pedir licença ao tempo.
Do banco onde espero, penso na sombra do mogno.
E parto com o ônibus buscando outras sombras para contemplar.
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