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A Sombra do Mogno

Entre lampiões, gaiotas, bolichos e o avanço das ruas, a narrativa resgata a memória afetiva de uma família e de uma cidade que cresceu sobre suas primeiras raízes

Gelsiney Schell
Por: Gelsiney Schell
15/05/2026 às 17h10
A Sombra do Mogno
Gelsiney Schell é o autor da crônica publicada.

Houve um tempo em que o centro da cidade simplesmente acabava.

 

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Depois da última esquina, começava o silêncio.

 

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Não era abandono. Era começo.

 

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Ali, fora do mapa oficial do município, quando ainda se chamava Vila General Rondon, surgiu a casinha de madeira — dois quartos pequenos, sala, cozinha, varanda simples e a patente afastada no fundo do terreno, respeitando o vento e a vergonha das madrugadas frias.

 

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Na frente, terra vermelha batida pelos passos de quem ainda acreditava no amanhã.

Ao redor, espaço suficiente para o futuro respirar.

 

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A cidade ainda estava nascendo.

 

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Carroças levantavam poeira na rua principal. Colonos chegavam vindos do Sul, trazendo sotaques diferentes, sementes guardadas em latas e sonhos maiores que as malas.

 

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Lá no centro, o Moinho Fronteira trabalhava sem descanso.

 

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O barulho das engrenagens misturava-se ao cheiro de trigo moído, marcando o ritmo da comunidade. Quem passava por ali sabia: enquanto o moinho girasse, a vila cresceria.

 

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Do outro lado da estrada, árvores nativas resistiam entre roçados recém-abertos. Milho em filas pacientes, mandioca agarrada à terra, abóboras espalhadas como pequenos sóis esquecidos no chão.

 

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Cada família plantava o que podia —

e aprendia, acima de tudo, a esperar.

 

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Esperar chuva.

Esperar colheita.

Esperar dias melhores.

 

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À noite, os vaga-lumes acendiam o campo, o pasto virava o céu.

 

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Sapos dominavam o jardim. O escuro não assustava ninguém. Quem começa uma vida nova entende cedo que a natureza não ameaça — acompanha.

 

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Carros quase não passavam.

 

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Bicicletas eram raras.

 

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A gaiota era tudo.

 

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Empurrada devagar, rangendo nas rodas gastas, levava milho, quirela e farelo para os animais. Voltava carregada de mantimentos, notícias e promessas.

 

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Ia lenta, mas nunca retornava vazia.

 

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Era esperança movida pelas próprias mãos.

 

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A casa não tinha energia elétrica.

 

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Todas as noites, a luz precisava ser inventada. Lampião sobre a mesa, lamparinas nos cantos, o assoalho encerado com cera Canário devolvendo um brilho manso à escuridão.

 

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Ali dentro, Ivo e Laura conversavam baixo.

 

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Planejavam a vida como quem constrói sem planta arquitetônica — apenas com fé.

 

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Antes do amanhecer, Ivo caminhava até o centro para trabalhar como carpinteiro. Ajudava a levantar casas, armazéns e galpões da jovem vila sem perceber que também ajudava a construir o destino da futura cidade.

 

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Laura cuidava do quintal vivo: galinhas ciscando, quatro porcos no chiqueiro, roupas dançando no varal, crianças crescendo entre cheiro de lenha, café passado e terra úmida.

 

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O leite vinha da chácara no fim da rua.

 

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Quem carneava repartia.

 

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A banha era dividida em potes reaproveitados.

 

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Sobre a mesa nunca faltavam coisas simples e sagradas:

 

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pão caseiro ainda quente,

banha branca espalhada com faca larga,

torresmo moído para passar no pão,

linguiça defumada pendurada na cozinha,

cuca doce para o café da tarde.

 

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O chimarrão circulava de mão em mão sem pressa.

 

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Ninguém chamava aquilo de solidariedade.

 

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Era apenas o modo correto de viver.

 

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E havia o bolicho.

 

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Lugar de conversa, fiado anotado e notícias do mundo.

 

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O maior agrado que um pai podia oferecer ao filho não era brinquedo.

 

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Era chegar em casa tirando do bolso alguns caramelos comprados no balcão.

 

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Os olhos das crianças brilhavam como se o mundo inteiro coubesse dentro daquele doce.

 

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E sobre tudo — a casa, o quintal, os sonhos — existia o mogno.

 

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Alto. Antigo. Silencioso.

 

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Sua sombra atravessava as estações como um relógio natural. Protegia o telhado do sol forte, segurava o vento das madrugadas frias e guardava a família como um sentinela plantado antes mesmo da vila existir.

 

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As crianças cresceram sob aquela copa.

 

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Brincaram ali. Choraram ali. Aprenderam o tamanho do mundo medindo o alcance da sombra.

 

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Os domingos passavam devagar.

 

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Até que a cidade começou a chegar.

 

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Primeiro uma casa nova.

Depois outra.

 

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Ruas abertas rasgaram o potreiro.

 

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Vieram postes, fios, motores.

 

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A antiga Vila General Rondon começava a ganhar forma de cidade.

 

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O estradão virou avenida.

 

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A televisão de tela cinza apareceu na sala, sustentada por uma antena apontada para o céu, como se pedisse notícias do futuro.

 

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A energia elétrica trouxe noites claras e sonhos maiores.

 

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Sem perceber, aconteceu:

 

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a primeira periferia deixou de existir.

 

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A cidade caminhou até eles.

 

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Onde havia pasto nasceu a escola.

Onde existia mata ergueu-se o hospital.

A praça ganhou árvores plantadas por mãos humanas.

A igreja levantou seu telhado simples sem disputar o horizonte.

 

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Mas o mogno permaneceu.

 

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Imóvel.

 

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Como se soubesse algo que ninguém mais percebia.

 

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Até o dia.

 

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A motosserra roncou cedo.

 

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Homens falando alto ocuparam o terreno. Cordas foram esticadas. Passos firmes marcaram a terra antiga.

 

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Laura parou à janela.

 

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O filho pequeno segurou sua saia e perguntou:

 

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— Mãe… por que derrubam as árvores?

 

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Ela demorou a responder.

 

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Talvez porque algumas respostas nunca cabem em palavras.

 

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Veio o primeiro corte.

 

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Depois outro.

 

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O som metálico atravessou a rua recém-patrolada.

 

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O mogno pareceu respirar pela última vez.

 

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Então o estalo.

 

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Seco. Enorme. Irreversível.

 

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O chão tremeu.

As janelas vibraram.

A casa inteira pareceu prender a respiração.

 

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O mogno tombou.

 

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A poeira subiu lentamente na luz da manhã, como se o próprio tempo tivesse sido arrancado pela raiz.

 

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Naquele instante terminou algo que ninguém soube explicar.

 

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Não a vida.

Não a cidade.

 

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Mas o começo.

 

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Vieram o asfalto, o movimento constante, os carros apressados. A gaiota virou lembrança. O rádio trouxe vozes distantes. O mundo finalmente encontrou aquela rua.

 

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Os filhos cresceram.

Os netos nasceram.

A casa permaneceu.

 

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E Marechal Cândido Rondon seguiu adiante.

 

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Hoje estou sentado na rodoviária.

 

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O tempo correu comigo até hoje... 1980.

 

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Um viajante cansado amanheceu deitado sobre a mala.

Cheiro de pastel fritando atravessa o salão, o café passado mistura-se com o cheiro dos grãos torrados vindo do alto da Rua Santa Catarina. O frio corta o ar sem pedir licença, empurrando a garoa sobre o ônibus estacionado. O Jornaleiro organiza exemplares ainda úmidos de tinta. Engraxates conversam alto enrolados em seus ponchos, enquanto passageiros passam carregando destinos que antes pareciam longe demais para existir.

 

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Ônibus chegam e partem sem pedir licença ao tempo.

 

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Do banco onde espero, penso na sombra do mogno.

 

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E parto com o ônibus buscando outras sombras para contemplar.


As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial da Revista Especiais.

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