Minha melhor lembrança de infância não é um brinquedo, nem um presente de aniversário. É um circo. Um circo que chegou a Porto Mendes em 1985 e que eu assisti sem ter um centavo no bolso... Entrei de gaiato...
Mas minha história com o circo começa antes mesmo de ele chegar.
Eu estudava na “primeira série”, em Porto Mendes. Um dia, um colega apareceu com uma maçaroca de linha de pesca nas mãos. Era linha dessas usadas para pescar lambari no porto. Na ponta havia um pequeno anzol. Coisa de criança acontece rápido. Puxei a linha e o anzol fisgou no dedo dele.
O menino começou a chorar e eu, assustado, saí correndo pelo pátio da escola gritando que tinha pescado um lambari.
No outro dia ele contou bravo para a professora Reni que eu tinha chamado ele de lambari. Mas o apelido já estava lançado. Era verão de 1985 e dali em diante quase ninguém lembraria o nome verdadeiro dele. Para todos nós ele virou apenas Lambari.
Alguns meses depois, já no outono, começaram a aparecer caminhões diferentes em Porto Mendes. Caminhões velhos, pintados com cores fortes, carregando ferragens, mastros, pedaços de madeira e grandes rolos de lona. Logo vieram também carretas com jaulas. Dentro delas dava para ver animais se mexendo. As crianças começaram a correr atrás dos caminhões pelas ruas poeirentas da vila. Alguém gritou que era circo. E quando uma palavra dessas surgia, ela corria mais rápido que o vento.
O campo do Clube Sempre Verde virou um verdadeiro canteiro de montagem. Homens subiam em torres de ferro, puxavam cordas grossas e erguiam a grande lona colorida que aos poucos tomava forma. Para nós, parecia um castelo surgindo no meio do campo.
No dia seguinte apareceu o carro de som. Era um fusca com alto-falante no teto rodando devagar pelas ruas. Uma voz animada anunciava o espetáculo, prometendo elefantes, macacos, trapezistas voadores, palhaços, malabaristas e o famoso globo da morte. Enquanto o carro passava, tocavam marchinhas circenses com trompetes e tambores. As crianças corriam atrás do carro, imaginando tudo o que poderia existir lá dentro daquela lona.
Em casa a realidade naqueles dias era outra. Meu pai lutava para colocar comida na mesa e dinheiro para ingresso de circo simplesmente não existia naqueles doas. Eu sabia que provavelmente ficaria só olhando de longe, e para mim não tinha problema algum.
Num sábado de manhã encontrei o Lambari na rua. Sem muita coisa para fazer, fomos até o campo do Clube Sempre Verde ver o circo de perto. Quando chegamos lá, o lugar parecia outro mundo. O cheiro de pipoca, amendoim torrado e algodão doce se espalhava pelo ar. Crianças andavam com balões coloridos e se ouvia música vindo de dentro da lona.
Foi então que vimos uma pequena abertura na lona lateral do circo.
Perto dali estava o Vitamina, uma figura conhecida de Porto Mendes. Ele nos olhou, olhou para aquela emenda na lona e deu uma risada. Pegou o Lambari, que era menor, levantou no colo e jogou ele para dentro do circo. Depois virou para mim e perguntou se eu também queria entrar.
Eu disse que sim.
Ele me puxou pelo braço, ergueu no ombro e me empurrou circo adentro... entrei bem embaixo da arquibancada.
Quando meus pés tocaram o chão lá dentro, parecia que eu tinha entrado em outro mundo. O picadeiro era grande, cheio de luzes e bandeiras coloridas. Lá no alto os trapezistas voavam de um lado para o outro, agarrando as barras no ar. Os palhaços corriam pelo picadeiro fazendo a plateia rir sem parar.
Num dos números entrou um carro velho e torto. De dentro dele começaram a sair palhaços. Um, dois, três, quatro. Parecia que não terminava nunca. Quando todo mundo achou que tinha acabado, o carro começou a se desmontar. As portas caíram, o capô abriu e as rodas quase se soltaram, enquanto os palhaços continuavam dançando no meio da bagunça. As crianças gritavam de tanto rir.
Depois vieram os animais. Macacos andando de bicicleta, cavalos brancos fazendo passos de dança e um grande elefante levantando a tromba enquanto a plateia batia palmas... e o mais incrível... um leão sendo domado...
No final veio o número mais impressionante. Um grande globo de ferro foi colocado no picadeiro. Uma moto entrou, depois outra, e logo estavam girando em alta velocidade dentro daquela esfera, cruzando uma pela outra enquanto o barulho dos motores ecoava pela lona inteira.
Lá atrás alguém comentou que, já que não tínhamos pago ingresso, podíamos ao menos tomar um refrigerante.
E foi assim que eu e o Lambari acabamos tomando refrigerante, comendo pipoca e assistindo ao espetáculo inteiro sem gastar um centavo.
Muitos anos se passaram desde aquele dia, mas algumas lembranças ficam guardadas com uma clareza impressionante. Para mim, uma das maiores é aquela manhã de um sábado em 1985, quando dois meninos curiosos entraram escondidos em um circo montado no campo do Clube Sempre Verde.
Talvez porque naquele dia eu tenha aprendido uma coisa simples.
Às vezes a infância inteira cabe dentro de uma lona colorida montada no meio de um campo de futebol.