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Um Ninja da Rua Ceará

Em tom de causo urbano, Gersiney Schell revive uma cena improvável dos anos 90 na Rua Ceará, em Marechal Cândido Rondon, onde frio, garoa, bicicleta, Chevette e um personagem inesquecível se encontraram numa história que parece mentira, mas ficou na memória da cidade

Gelsiney Schell
Por: Gelsiney Schell
08/05/2026 às 08h40
Um Ninja da Rua Ceará
Gelsiney Schell é o autor da crônica publicada.

Essa história não está em ata de reunião, não saiu no jornal e muito menos recebeu carimbo da prefeitura.

Mas vive  - firme e teimosa  - na memória coletiva de quem atravessou os anos 90 em Marechal Cândido Rondon.

 

Era inverno daqueles de respeito. Frio úmido, garoa fina e insistente, capaz de entrar pela manga da camisa e morar nos ossos até o amanhecer. O asfalto da Rua Ceará brilhava escuro, traiçoeiro, como se tivesse sido encerado pela própria madrugada.

 

Em frente ao Ginásio Ney Braga, um Chevette repousava estacionado. Quieto. Honesto. Cumprindo seu destino de carro de trabalhador que aguardava o dono sair de algum jogo, reunião ou campeonato.

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O ginásio sempre foi assim: ponto de encontro, palco de vitórias, derrotas e conversas que começavam no esporte e terminavam na vida.

 

Naquela noite, porém, o espetáculo seria do lado de fora.

 

Nós estávamos no Bolicho do Del Nono, aquecendo a alma com um vinho especial  - daqueles que não curam o frio, mas fazem a gente esquecer que ele existe.

 

Foi quando apareceu o vulto.

 

Lá de cima da rua, algo descia em velocidade absurda. Primeiro veio o som do vento cortado. Depois o barulho metálico da bicicleta tremendo inteira.

 

Não era moto.

Não era carro.

 

Era Miravan.

 

Miravan possuía um dom raro: passava dias invisível, silencioso como poste de esquina… até reaparecer calibrado de coragem líquida, pronto para protagonizar acontecimentos históricos que jamais seriam oficialmente reconhecidos.

 

Naquela noite, ele era o protagonista absoluto.

 

Descia a Rua Ceará como se disputasse a etapa final do Tour de France Rondonense. A garoa cegava. O freio certamente já havia pedido aposentadoria antecipada. E o juízo… bem, esse nunca acompanhava Miravan em suas viagens.

 

O impacto veio seco.

 

A bicicleta beijou com violência a traseira do Chevette.

 

O som ecoou na frente do ginásio.

 

E então aconteceu o impossível.

 

Miravan não caiu.

 

Ele voou.

 

Subiu sobre o carro numa pirueta improvável, elegante até demais para quem vinha embalado pelo vinho e pela física desfavorável. Passou quase flutuando sobre o teto do Chevette, como se tivesse ensaiado a manobra durante semanas em algum dojo secreto da Vila Gaúcha.

 

Por um segundo, o tempo parou.

 

E então…

 

Caiu de pé.

 

Salto cravado.

Equilíbrio perfeito.

Inteiro.

 

A bicicleta permaneceu pendurada no para-choque, exibida como troféu de guerra urbana.

 

Dentro do carro, o motorista segurava o volante sem piscar, tentando decidir se havia sofrido um acidente ou assistido a uma apresentação circense patrocinada pela sorte.

 

Miravan ajeitou a camisa com dignidade surpreendente, caminhou até a janela e perguntou com absoluta serenidade:

 

— O senhor se machucou?

 

Silêncio.

 

O homem ainda tentava voltar para a realidade.

 

Miravan então completou:

 

— Fica tranquilo… eu tô bem. A sorte é que eu sou ninja.

 

Ninja.

 

Na Rua Ceará.

 

Sob a garoa rondonense.

 

Desde aquele dia, passei a acreditar que Deus realmente protege duas categorias especiais: bêbado e pedreiro. Pedreiro eu conto outro dia. Mas bêbado… esse parece ter convênio vitalício lá em cima.

 

E se anos depois apareceu um quebra-mola ali perto do ginásio, eu não afirmo nada.

 

Mas também não nego.

 

Porque Marechal vive dessas histórias.

 

E algumas são tão absurdas…

que só podem ser verdade.

 

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial da Revista Especiais.

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