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A Páscoa e o homem

Entre fé, teatro e um susto inesquecível, uma lembrança de Páscoa que revela a força genuína do olhar infantil diante do mistério

Gelsiney Schell
Por: Gelsiney Schell
04/04/2026 às 07h41
A Páscoa e o homem
Gelsiney Schell é o autor da crônica publicada.

Toda comunidade religiosa deveria pensar melhor antes de colocar crianças na primeira fila.

Especialmente quando há teatro envolvido.

Era Páscoa e o grupo de jovens apresentaria a tradicional encenação da Paixão de Cristo na Igreja Luterana de Novo Três Passos. Igreja pequena, calor respeitável e uma fé coletiva sustentada por bancos de madeira que rangiam discretamente a cada movimento mais entusiasmado.

Chegamos cedo.

O figurino era simples, porém ambicioso. Cada personagem carregava mais simbolismo do que orçamento. Eu havia sido escalado para representar o mal, o que até hoje considero uma escolha artística discutível, embora provavelmente coerente com minha capacidade dramática da época.

Vestia uma capa preta com forro vermelho, capuz sobre a cabeça e uma maquiagem escura cuja intenção era transmitir ameaça, mas que, sob quarenta graus internos, começava lentamente a transmitir derretimento.

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As crianças foram acomodadas bem na frente.

Sempre há alguém que acredita que crianças pequenas apreciam profundidade teológica e conflitos metafísicos se estiverem suficientemente próximas do palco.

O espetáculo começou.

Milagrosamente, ninguém esqueceu as falas. O anjo surgiu leve, sereno, celestial. Eu aguardava minha entrada tentando não suar sobre o próprio simbolismo do mal.

Então veio a cena.

O anjo aproximou-se e perguntou:

- Quem é você?

Era o momento decisivo. A revelação. A grande tensão dramática.

Virei-me lentamente para o público.

Ali estavam elas: quinze crianças absolutamente concentradas, olhando para mim como quem espera uma resposta definitiva sobre o universo.

Respirei fundo.

Projetei a voz como haviam ensinado nos ensaios.

E declarei, com toda intensidade possível:

- EU SOU O HOMEM!

O efeito foi imediato.

Não espiritual.

Biológico.

Instinto puro de sobrevivência infantil.

O silêncio virou grito.
A contemplação virou fuga estratégica.
Uma criança tentou desaparecer atrás do banco. Outra passou a reconsiderar seriamente sua relação com a religião organizada.

A igreja inteira começou a rir.

Não era um riso de deboche. Era aquele riso comunitário que nasce quando todos percebem, ao mesmo tempo, que algo saiu magnificamente do controle.

O anjo manteve a compostura com admirável profissionalismo. Eu permaneci imóvel, porque o mal não pode pedir desculpas em cena.

As professoras tranquilizavam as crianças:

- É só teatro… é só teatro…

O que, naquele momento, parecia exatamente o tipo de coisa que alguém diria quando claramente não é só teatro.

A peça continuou.

Cristo ressuscitou.

A mensagem foi entregue.

E as crianças, aos poucos, aceitaram que o mal não frequentava regularmente a igreja - apenas participava de eventos especiais de Páscoa.

Anos depois, percebi que talvez aquele tenha sido o momento mais honesto da apresentação.

Porque o teatro religioso tenta explicar o mistério da vida, mas quem realmente entende o drama são as crianças. Elas não analisam símbolos. Elas acreditam.

E quando o mal grita diante delas, a reação correta não é reflexão teológica.

É correr.

Desde então, aprendi duas coisas importantes:

  • primeiro, nunca subestime o poder de uma capa preta em ambiente fechado;
  • segundo, toda Páscoa deveria incluir um pouco de riso.

Afinal, se a Ressurreição venceu a morte, certamente também perdoa um ator amador que assustou metade da congregação tentando apenas dizer sua fala corretamente.


As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e 
não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial da Revista Especiais.

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