Quem narrava aquela história era o Elenor. Contava sempre do mesmo jeito, como se ainda sentisse o cheiro da maravalha úmida misturado ao perfume forte do salão.
Dizia que era tempo dos bicos incandescentes, luz amarelada pendurada no teto, deixando tudo com ar antigo. Quem dava cor mesmo eram os Musical Montanari, firmes no palco, e o salão lotado.
Era noite de kerb. Durante o dia, churrasco, cuca e cerveja. À noite, sapato riscando farinha de milho espalhada na pista. Quando a chuva apertava, jogava-se ceragem da serraria na entrada da copa. O cheiro de madeira molhada misturava com cerveja, suor e expectativa.
Segundo Elenor, já passava da meia-noite quando o compasso quebrou.
Dois tiros secos no assoalho.
Nada de briga generalizada, nada de correria grande. Apenas o silêncio pesado que se instala quando a festa é interrompida pelo exagero de alguém. No centro do salão estava Mixaria - homem pequeno, reação grande demais.
Tudo por causa de um olhar.
A mulher que lhe despertava interesse desviara os olhos para outro que passava. Não houve escândalo, não houve provocação pública. Mas, para Mixaria, aquilo bastou para transformar música em pólvora.
A orquestra calou antes do final da canção. A farinha no chão já não tinha utilidade. O baile terminou antes do horário marcado.
Elenor dizia que, naquela noite, balearam a festa...
Logo, o fato virou música nas vozes dos Montanari. Virou história repetida nas mesas de bar e nos bancos de praça. Mixaria deixou de ser ameaça e virou personagem.
E, como toda boa história de interior, ficou a lembrança de que salão aguenta chuva, luz fraca e cerveja morna.
O que ele não aguenta é um baixinho com dois revólveres...
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