
O uso crescente e sem acompanhamento médico das chamadas canetas emagrecedoras tem gerado preocupação entre profissionais da saúde. Medicamentos inicialmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes passaram a ser utilizados também em processos de emagrecimento, muitas vezes sem avaliação clínica, exames prévios ou orientação adequada.
Em entrevista ao portal da Revista Especiais, o médico Manuel Lindo alertou para os riscos do uso desenfreado desses produtos. Segundo ele, o principal problema não está necessariamente no medicamento em si, mas na forma como muitas pessoas têm utilizado as canetas, especialmente quando fazem a compra por conta própria, sem receita e sem acompanhamento profissional.
Dr. Manuel explica que as canetas fazem parte de uma nova geração de substâncias associadas aos peptídeos, modificadas e patenteadas como medicamentos. O uso, no entanto, exige critério, investigação do organismo e monitoramento para reduzir riscos.
Medicamentos surgiram para tratar diabetes
De acordo com o médico, as primeiras canetas foram desenvolvidas com foco no tratamento do diabetes. Com o passar dos anos, novos medicamentos passaram a ser utilizados também pela capacidade de reduzir o apetite, aumentar a saciedade e favorecer a perda de peso.
Entre os produtos mais conhecidos estão medicamentos à base de substâncias como semaglutida e tirzepatida. O médico observa que a procura aumentou fortemente nos últimos anos, inclusive com aquisição em farmácias no Paraguai, onde o acesso ocorre de forma mais facilitada.
Para Dr. Manuel, a facilidade de compra ampliou o uso sem controle. “O perigo está na forma indevida como as pessoas estão fazendo uso. Não é algo simples do ponto de vista da saúde. É um risco muito grande”, afirmou.
Falta de acompanhamento aumenta riscos
O médico relata que, inicialmente, não era favorável ao uso das canetas emagrecedoras, mas passou a estudar o tema porque muitos pacientes chegavam ao consultório já utilizando os produtos por conta própria. A partir disso, buscou compreender os benefícios, os limites e os riscos envolvidos.
Segundo ele, o uso sem receita, sem avaliação metabólica e por tempo prolongado pode trazer consequências importantes. Um dos pontos mais preocupantes é a redução da alimentação sem planejamento nutricional adequado.
Dr. Manuel destaca que, mesmo quando a pessoa deixa de comer, o corpo continua precisando de energia. Se não houver controle, o organismo passa a utilizar reservas internas, o que pode comprometer massa muscular e massa óssea.
Perda muscular é uma das principais preocupações
Entre os riscos citados pelo médico estão a sarcopenia, que é a perda de massa muscular, e a osteopenia, associada à redução da massa óssea. Para ele, esse é um dos efeitos mais relevantes quando há emagrecimento rápido e sem acompanhamento.
Dr. Manuel afirma que estudos recentes indicam perda significativa de peso com determinadas substâncias, mas parte desse peso pode corresponder à massa muscular. Segundo ele, isso exige atenção, porque a musculatura tem relação direta com força, autonomia, metabolismo e longevidade.
“A coisa mais valiosa que nós temos para a longevidade é a massa muscular. Quando começa a perder músculo, a pessoa entra em rota de colisão”, alertou.
Tempo de uso precisa ser avaliado
O médico defende que o uso das canetas, quando indicado, deve ser por período limitado e com acompanhamento. Ele afirma orientar seus pacientes a reduzir quantidade e tempo de uso, evitando tratamentos prolongados sem reavaliação.
Segundo Dr. Manuel, há casos de pessoas que utilizaram canetas por mais de um ano e chegaram ao consultório com sinais de perda muscular e redução de massa óssea. Ele também chama atenção para a percepção distorcida que alguns pacientes passam a ter do próprio corpo, acreditando que ainda precisam emagrecer mesmo quando já apresentam prejuízos à composição corporal.
“Mesmo que a pessoa não tenha alcançado o peso desejado, é preciso dar um tempo para o corpo e reavaliar a saúde”, afirmou.
Corpo deve ser investigado antes do tratamento
Para o médico, antes de iniciar qualquer tratamento com canetas emagrecedoras, é necessário avaliar o organismo. Ele cita a importância de exames hormonais, análise de vitaminas e minerais, marcadores inflamatórios, função hepática e composição corporal.
Dr. Manuel utiliza como referência a necessidade de verificar processos de metilação, oxidação, glicação e inflamação, para compreender como o corpo está funcionando antes de submetê-lo a um tratamento de emagrecimento.
Ele também recomenda avaliar o percentual de gordura, a massa muscular e a massa óssea, em vez de considerar apenas o peso na balança ou o Índice de Massa Corporal (IMC).
Compra no exterior exige atenção adicional
Outro ponto abordado pelo médico é a compra de medicamentos no Paraguai. Segundo ele, o preço mais baixo e a dispensa de receita têm levado muitos brasileiros a adquirir canetas emagrecedoras em grande quantidade.
Dr. Manuel afirma que o risco aumenta quando o produto é comprado sem orientação, transportado de forma inadequada ou utilizado sem controle. Ele ressalta que muitos desses medicamentos precisam de refrigeração para manter a eficácia.
O médico também alerta para dúvidas relacionadas à procedência, armazenamento e composição de produtos adquiridos fora do sistema regulatório brasileiro. Para ele, o consumidor deve entender que se trata de medicamento, e não de suplemento ou vitamina.
Saúde pública pode sentir reflexos
Na avaliação de Dr. Manuel, o uso sem critério pode gerar reflexos futuros na saúde pública. Ele afirma que profissionais já observam pacientes com deficiências nutricionais, perda de massa muscular e alterações metabólicas relacionadas a emagrecimentos rápidos e sem planejamento.
O médico também cita um fenômeno observado no mercado estético: pessoas que emagrecem rapidamente e, em seguida, buscam procedimentos de preenchimento para lidar com flacidez e perda de volume corporal.
Para ele, o problema é que parte das consequências não aparece imediatamente, mas em médio e longo prazo. “Enquanto temos saúde, nem sempre percebemos o quanto ela é importante. Quando começamos a perder, queremos recuperar, e às vezes é tarde”, afirmou.
Peso não deve ser único parâmetro
Dr. Manuel ressalta que excesso de peso deve ser avaliado dentro de um contexto mais amplo. Segundo ele, o mais importante não é apenas o número na balança, mas a qualidade da composição corporal, especialmente a quantidade de massa muscular e de gordura visceral.
O médico explica que diferentes tipos de gordura têm impactos distintos no organismo. Por isso, antes de buscar emagrecimento rápido, é preciso analisar alimentação, hábitos, metabolismo, hormônios e marcadores de inflamação.
Ele recomenda atenção ao consumo excessivo de carboidratos, bebidas açucaradas, refrigerantes e álcool, além da necessidade de corrigir deficiências de vitaminas e minerais.
Uso desenfreado pode trazer risco à vida
Questionado se o uso sem controle das canetas emagrecedoras pode representar risco de vida, Dr. Manuel afirmou que sim. Segundo ele, o perigo é maior quando a pessoa apresenta alterações pré-existentes, não investigadas, ou quando há perda de peso acelerada.
O médico cita a importância de avaliar fígado, inflamação, níveis hormonais, vitaminas, minerais e outros marcadores antes de iniciar qualquer tratamento. Para ele, a ausência de exames transforma o uso em uma aposta arriscada.
“Até aspirina pode ser perigosa. Imagine um produto que chegou fazendo a pessoa emagrecer muito rápido. Tem que ter cuidado”, afirmou.
Orientação é buscar avaliação médica
Ao final da entrevista, Manuel Lindo reforçou que o objetivo não é proibir o uso das canetas emagrecedoras, mas orientar para que o tratamento seja feito de forma correta. Segundo ele, pessoas interessadas em utilizar esse tipo de medicamento devem procurar acompanhamento médico, realizar exames e avaliar se realmente há indicação.
O médico afirma que emagrecer com segurança exige investigação, planejamento, suplementação quando necessária, alimentação adequada e monitoramento da composição corporal.
“A saúde precisa estar em primeiro lugar. Quer emagrecer? Faça com cuidado, faça direito, não de forma atordoada”, concluiu.