Sábado, 16 de Maio de 2026
17°C 20°C
Marechal Cândido Rondon, PR
Publicidade

Endividamento de R$ 10,8 bilhões acende alerta para o agro paranaense

Sistema FAEP afirma que o volume de dívidas problemáticas pode já ter ultrapassado R$ 20 bilhões e defende medidas urgentes de renegociação para manter a produção no campo

Por: João Livi Fonte: FAEP
16/05/2026 às 07h45
Endividamento de R$ 10,8 bilhões acende alerta para o agro paranaense
Endividamento rural avança no Paraná em função das frustrações de safra, dos juros altos e do aumento dos custos de produção. (Foto: Magnific)

O endividamento rural do Paraná chegou a R$ 10,8 bilhões em janeiro de 2026, segundo levantamento do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema FAEP. O valor corresponde ao chamado saldo problemático, que reúne dívidas em atraso de até 90 dias, operações inadimplentes com atraso superior a 90 dias e contratos prorrogados ou renegociados.

O número representa 11% do total de aproximadamente R$ 99 bilhões em empréstimos rurais mantidos por produtores paranaenses junto a instituições financeiras que operam crédito rural. Para o setor, historicamente marcado por baixa inadimplência, o índice é considerado elevado e acende alerta sobre a capacidade de continuidade das atividades no campo.

Segundo o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, o cenário pode ser ainda mais grave no momento atual. “Os índices de janeiro são preocupantes por si só, mas estimamos que o número atual de endividamento já possa estar alcançando o dobro desse valor, ultrapassando os R$ 20 bilhões”, afirma.

Pressão sobre o produtor

O quadro de endividamento é resultado de uma combinação de fatores que atingem diretamente a rentabilidade das propriedades rurais. Entre eles estão sucessivas quebras de safra provocadas por adversidades climáticas, juros elevados, aumento dos custos de produção, queda nos preços das commodities e dificuldade de acesso ao seguro rural.

A elevação de insumos como fertilizantes e diesel também contribuiu para reduzir a margem do produtor. Sem fôlego financeiro, muitos agricultores e pecuaristas encontram dificuldade para quitar empréstimos, acessar novas linhas de crédito e manter os investimentos necessários para a próxima safra.

O Sistema FAEP alerta que, sem crédito, o produtor fica impedido de custear a atividade, o que pode comprometer a produção de alimentos, reduzir a oferta no mercado e gerar reflexos sobre os preços ao consumidor.

Continua após a publicidade
Anúncio

Inadimplência recorde

O cenário paranaense acompanha uma tendência nacional de agravamento das dívidas no campo. Em janeiro, o Brasil somava cerca de R$ 881 bilhões em empréstimos rurais, com saldo problemático de aproximadamente R$ 153,6 bilhões, o equivalente a 17,4% do total.

Conforme dados das Estatísticas Monetárias e de Crédito divulgadas pelo Banco Central, a inadimplência entre produtores rurais foi recorde em 2025. O índice de operações vencidas há mais de 90 dias chegou a 6,5% no ano passado.

O percentual representa forte alta em comparação com os anos anteriores. Em 2024, a inadimplência havia sido de 2,3%. Em 2023, o índice foi de 1,1%.

Custos crescentes na avicultura

A situação também afeta produtores integrados. O avicultor Luiz Flamengo, de Paranacity, no Noroeste do Paraná, acumula dívida de cerca de R$ 450 mil. Ele atua no manejo de frango de postura em regime de integração.

“Na avicultura, os custos operacionais crescem em uma ascendência vertiginosa”, afirma.

Segundo o produtor, houve aumento na tarifa de energia elétrica e nos insumos de manutenção e manejo avícola, como cal virgem, peças de manutenção de equipamentos, lenha para aquecimento e mão de obra terceirizada para manutenção mecânica e elétrica. Ao mesmo tempo, a remuneração por ave segue apenas o reajuste inflacionário, sem acompanhar a elevação real dos custos.

Margem reduzida

Com a margem de lucro pressionada, Flamengo relata que chegou a vender um veículo para quitar uma dívida anterior. A situação, segundo ele, prejudica a capacidade de honrar compromissos com fornecedores e agentes financeiros.

“O endividamento nos impede de honrar os compromissos financeiros assumidos com fornecedores e agentes financeiros”, diz o produtor.

O exemplo reflete uma dificuldade enfrentada por diferentes segmentos do agro, especialmente em atividades que dependem de investimento contínuo, energia, manutenção de equipamentos, mão de obra e insumos.

Pedido de renegociação

O Sistema FAEP, o Instituto Pensar Agro (IPA), a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) defendem medidas urgentes para enfrentar o endividamento rural.

Para as entidades, a situação ameaça a atividade no campo, a segurança alimentar e o desenvolvimento econômico do Paraná. O principal pedido é a criação de um programa de renegociação de dívidas, com abertura de novas linhas de crédito para os produtores.

“Com margem reduzida e dívidas em atraso, o produtor não tem acesso ao crédito rural e, consequentemente, não tem recursos para investir no cultivo de uma nova safra. Isso afeta a produção de alimentos, gerando uma redução na oferta de produtos no mercado, o que inevitavelmente pressiona os preços para cima e compromete a segurança alimentar da população”, afirma Meneguette.

Projeto no Senado

Na próxima terça-feira, deve ser votado no Senado o Projeto de Lei 5.122/23, que permite a renegociação de dívidas rurais por meio de financiamento com recursos do Fundo Social do Pré-Sal.

Desde o início da tramitação da proposta, o Sistema FAEP afirma que tem dialogado com parlamentares, apresentando informações sobre os desafios enfrentados pelos produtores e defendendo medidas para conter o avanço do endividamento.

A votação é considerada estratégica pelo setor produtivo. A expectativa é que uma solução de renegociação possa aliviar o caixa dos produtores, restabelecer o acesso ao crédito rural e garantir condições para a continuidade das atividades agropecuárias no Paraná e no país.

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Copel e Crea-PR firmaram parceria durante o 1º Fórum Copel Agro, realizado em Curitiba. (Foto: JP Gomes/Copel)
Energia no campo Há 3 dias

Copel e Crea-PR firmam parceria para reforçar segurança energética no meio rural

Termo de cooperação foi assinado durante o 1º Fórum Copel Agro e prevê orientação técnica a produtores rurais na contratação de serviços para instalações elétricas nas propriedades

Dia de Campo Milho Safrinha da Copagril apresentará 37 híbridos conduzidos em condições reais de campo na Estação Experimental. (Foto: Divulgação)
Dia de campo Há 4 dias

Híbridos de milho serão testados em vitrine técnica sob desafios reais do campo

Dia de Campo da Copagril será realizado em 21 de maio, na Estação Experimental, com avaliação de 37 híbridos, manejo nutricional e demonstração de culturas de cobertura para apoiar decisões da próxima safrinha

Sicredi e Embio promovem em Marechal Cândido Rondon a palestra “O que o agro tem, eu quero também”, com Sérgio Mendes e Rose Machado, em comemoração aos 10 anos da Embio. (Imagem: Divulgação)
O que o agro tem Há 1 semana

Embio e Sicredi promovem evento sobre conexão com o campo, com Sérgio Mendes e Rose Machado do Ric Rural

Evento gratuito em comemoração aos 10 anos da Embio reunirá agricultores, lideranças e comunidade regional com palestra dos apresentadores Sérgio Mendes e Rose Machado, da RIC TV Rural

Gerente executivo da Copel na região Oeste-Sudoeste, André Rodrigues Janiaski, explicou a operação de poda e roçada para reduzir riscos de falta de energia. (Foto: João Livi)
Energia rural Há 1 semana

Copel amplia poda e roçada para reduzir riscos de falta de energia no Oeste

Ação em Marechal Cândido Rondon, Quatro Pontes, Bom Jardim e outros pontos estratégicos busca afastar a vegetação da rede elétrica e dar mais estabilidade ao fornecimento, especialmente no campo

Copel iniciou operação intensiva de poda de árvores próximas à rede de alta tensão em Marechal Cândido Rondon, com apoio de entidades rurais e do município. (Fotos: João Livi)
Energia rural Há 1 semana

Copel inicia mutirão de poda e reforça ações para melhorar energia no interior de Marechal Rondon

Operação intensiva começou nesta quinta-feira, seguirá até sábado e integra uma série de medidas cobradas por entidades rurais para reduzir quedas e melhorar a qualidade do fornecimento de energia