
À noite, no interior, os grilos iniciam um concerto invisível que só a memória escuta.
Sapos respondem dos brejos e, ao longe, algum rio segue correndo no escuro, levando consigo histórias que só o tempo sabe guardar.
Algumas dessas histórias ficaram comigo.
Uma delas nasceu no verão de 1979. Eu ainda era pequeno demais para entender o mundo - mas grande o suficiente para começar a guardá-lo na memória.
Morávamos na Rua Rio Grande do Norte, em Marechal Cândido Rondon.
Hoje aquela rua está praticamente no centro da cidade, cheia de casas, carros e gente apressada. Naquele tempo tudo parecia mais distante. Para atravessar a cidade era preciso caminhar, como quem atravessa um território maior do que realmente era.
Era um dia de verão.
A chuva vinha e ia, dessas chuvas rápidas que molham a terra e depois desaparecem, deixando no ar o perfume doce do chão recém-molhado.
Seguimos até a antiga rodoviária, na Rua Santa Catarina, esquina com a Avenida Maripá.
O ônibus já estava lá.
Naquele tempo parecia moderno. Hoje percebo que era um daqueles ônibus que pertencem mais à memória do que à estrada. Os bancos eram de couro marrom e, quando alguém se sentava, o couro rangia de leve, como se também estivesse participando da viagem. O cheiro de diesel misturava-se ao calor do banco aquecido pelo sol da manhã.
Entramos.
O motor roncou pesado e a cidade começou a ficar para trás pelas janelas.
Eu levava na boca uma bala de hortelã, dessas que parecem refrescar o mundo inteiro. Pela janela a paisagem deslizava devagar. As árvores caminhavam ao lado do ônibus e, depois das curvas, surgiu um arco-íris tímido no horizonte - sinal de que a chuva já tinha passado.
Descemos na parada da Linha Apepu, onde meu avô - o vô Otto, pai da minha mãe - tinha um sítio.
Meus pés tocaram a estrada de chão, levantando uma poeira fina que parecia anunciar nossa chegada. Seguimos por um caminho cercado de mato e árvores altas. A luz do sol caía em pedaços entre as folhas.
Antes mesmo de enxergar a casa, ouvimos os sons da mata trabalhando - como se o sítio respirasse antes de nos receber.
O golpe ritmado dos machados.
O rasgar lento das serras na madeira.
E o ronco forte de uma motosserra abrindo caminho entre os troncos.
Eram meu pai e meu tio derrubando uma árvore para fazer cerca.
Já era quase meio-dia de um sábado de verão. Sábados do interior tinham um gosto próprio - gosto de estrada, de vento morno e de infância sem relógio.
Chegamos ao sítio do vô Otto.
A casa era simples, cheia de vida. Havia um cheiro que misturava madeira, comida fresca e querosene. A energia elétrica ainda não tinha chegado naquele pedaço de mundo. À noite, lamparinas e lampiões iluminavam os cômodos, e mesmo durante o dia permanecia no ar aquele perfume leve de querosene que hoje quase desapareceu da vida moderna.
O almoço era coisa do interior.
Frango caipira, arroz, feijão - tudo preparado na banha, como mandava a tradição.
Depois vinha o momento mais esperado.
Sagu.
A vó fazia de vários jeitos: sagu de vinho, sagu de leite, às vezes com frutas. Cada colher parecia carregar um pedaço de felicidade que só existe quando a infância ainda está inteira.
A casa também guardava costumes antigos. O banheiro tinha dois espaços separados: um para o banho e outro para o sanitário. Nada parecido com os banheiros de hoje, onde tudo cabe num mesmo ambiente.
Naquela época as coisas eram diferentes.
Mais simples.
Mais espalhadas.
A tarde caiu quente sobre o sítio.
Meu pai e minha mãe decidiram caminhar até o rio Apepu. Minha mãe queria lavar algumas roupas, e no rio aquilo era mais fácil do que nas bacias de casa.
Seguimos pela trilha.
Capins altos balançavam devagar com o vento.
O rio corria tranquilo entre os barrancos.
Meu pai entrou na água para tomar banho. Minha mãe ficou na margem esfregando roupas sobre um tronco, enquanto o som da correnteza misturava-se aos ruídos da natureza.
Ao redor, o mundo parecia vivo.
Grilos cantavam escondidos no capim.
Sapos coaxavam perto da água.
Insetos riscavam o ar quente da tarde como pequenas faíscas vivas.
E eu ali, sentado no barranco, observando aquele mundo.
Pelas minhas costas, o perigo.
Algumas vacas vinham caminhando devagar pelo pasto.
Meu pai, com aquele espírito brincalhão, falou:
- Olha! A vaca vai te pegar!
Para ele era brincadeira.
Para mim, perigo de verdade.
Sem saber nadar, sem entender a profundidade da água e obedecendo apenas ao susto que mora dentro das crianças, fiz a única coisa que meu pequeno mundo sabia fazer.
Pulei no rio.
Lembro das bolhas brancas subindo ao meu redor.
Da água fechando o silêncio.
E logo senti as mãos fortes do meu pai me agarrando pelas pernas e me puxando de volta para o ar quente daquela tarde.
Ele parecia dividido entre o riso e o susto - como se tivesse descoberto, naquele instante, que certas brincadeiras às vezes atravessam a fronteira do medo.
Talvez naquele dia eu tenha mostrado a ele uma coisa:
que dentro das crianças mora uma coragem meio louca, dessas que não perguntam primeiro se é seguro.
Hoje, quando penso naquele tempo, não lembro primeiro do susto.
Lembro do som dos grilos nas noites quentes.
Dos sapos conversando nos brejos.
E do rio Apepu correndo silencioso entre os barrancos, levando consigo as horas da infância.
Lembranças nunca se perdem.
Elas voltam no canto dos grilos, florescem no cheiro da terra molhada e seguem nas águas dos rios que atravessam o interior.
Às vezes ainda vejo aquele menino sentado no barranco.
Um menino que não sabia nadar.
Naquele verão de 79 comecei a descobrir que a memória também é um rio - e que, depois de entrar nele, passamos a vida inteira aprendendo a nadar.