
O mecânico mandou acelerar.
E o pai acelerou.
Depois ele até podia ter reclamado do que aconteceu. Mas a verdade é que não podia reclamar muito… afinal, tinha sido ele mesmo quem mandou acelerar.
Mas, para entender essa história, preciso voltar um pouco no tempo.
Era mais ou menos 1984 quando meu pai resolveu jogar na loto, uma loteria que pagava um prêmio razoável naquele tempo. Não lembro quantos números ele acertou, mas sei que ganhou um dinheiro bom.
E, algum tempo depois, apareceu com uma novidade em casa.
Um carro.
Era um Volkswagen 1600 quatro portas, provavelmente do ano de 1968. Na cidade o pessoal chamava aquele modelo de Zé do Caixão. Já no interior o apelido era outro: Fuca quatro portas.
Diziam que o nome vinha do formato do carro, mais comprido e quadrado que o Fusca comum, lembrando um caixão andando pela rua. O apelido também ficou famoso por causa do personagem Zé do Caixão, criado pelo cineasta José Mojica Marins.
Mas, para nós, aquilo era quase um carro de luxo.
Era um sedã bonito, de motor traseiro, com quatro portas largas. Os pneus eram grandes e davam ao carro um ar forte e respeitável. Por dentro, os bancos eram de couro, bem esticados, engomadinhos, gostosos de sentar.
O volante era daquele modelo antigo, estilo cálice, parecendo uma taça. O painel tinha acabamento amadeirado. Não sei se era madeira de verdade ou apenas imitação, mas, para nós, aquilo parecia coisa de carro fino.
Naquele tempo, ter um carro desses chamava atenção na vila.
Num dia desses, o pai disse:
- Vamos para Rondon.
Saímos de Porto Mendes numa sexta-feira e fomos até Marechal Cândido Rondon. O pai resolveu o que precisava resolver na cidade e, no sábado de manhã, pegamos a estrada de volta.
A viagem seguia tranquila até pouco antes de chegar ao distrito de Bom Jardim.
De repente, o carro começou a falhar.
Podia ser bobina, platinado, vela suja. Naquele tempo, carro carburado tinha dessas manhas. Encostamos então na frente de uma pequena mecânica em Bom Jardim.
O mecânico apareceu para ajudar.
Era um sujeito conhecido ali pela região. Diziam que era bravo, desses homens que conversam pouco e apertam parafuso com a mesma cara que outros usam para discutir briga.
Abriu o capô traseiro - onde ficava o motor - e começou a mexer nas velas.
Meu pai olhou para mim e falou baixinho:
- Será que ele sabe que, se eu acelerar, aumenta a corrente nas velas e ele pode levar um choque?
Pensou um pouco e completou:
- Mas ele é mecânico… deve saber o que está fazendo.
O mecânico então se posicionou atrás do carro e gritou:
- Pode acelerar!
Meu pai acelerou.
O motor roncou forte, levantando a poeira seca do chão da beira da estrada.
E foi tudo muito rápido.
Eu só vi, pelo canto da porta, o mecânico voando para trás.
Ele caiu uns bons metros longe do carro, direto na terra empoeirada. A poeira levantou ao redor dele como uma pequena nuvem.
Quando levantou, veio caminhando para a frente do carro todo coberto de poeira.
Parou ao lado da porta do motorista, sacudiu a camisa, limpou o rosto com a mão e resmungou:
- Mas que barbaridade, tchê… Ari, vou te contar… Esse fuca quase me mata do coração…
Meu pai olhava aquela cena tentando manter a compostura. Mas os olhos dele já estavam cheios de água de tanto segurar o riso.
E precisava segurar mesmo.
O homem tinha fama de bravo.
O mecânico então voltou para o motor e continuou mexendo como se aquilo fosse apenas mais um detalhe da profissão.
Logo identificou o defeito.
Arrumou o carro.
E nós seguimos viagem para casa.
Mas até hoje, quando lembro daquele velho Fuca quatro portas, sempre me vem à cabeça aquele sábado em Bom Jardim.
Foi assim que Bom Jardim ganhou seu primeiro voo motorizado.
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