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Os píás do Arroio Fundo

Um arroio de todas as “tribos”...

Gelsiney Schell
Por: Gelsiney Schell
20/03/2026 às 08h38
Os píás do Arroio Fundo
Gelsiney Schell é o autor da crônica publicada.

Aquele verão foi um dos mais quentes de que me lembro. Talvez o calor estivesse mesmo no ar. Ou talvez estivesse preso dentro da nossa pequena sala de aula.

O teto era de forro de madeira envernizada, iluminado por lâmpadas fluorescentes - novidade naquele tempo. No centro girava um ventilador antigo, rangendo pesado, trabalhando mais por teimosia do que por eficiência. A disputa entre nós era conseguir uma carteira perto dele, onde o vento batia primeiro.

A sala tinha duas janelas de um lado e outras mais altas do outro. Todas abertas, na esperança de puxar algum sopro de ar para dentro.

Do lado de fora, o sol caía pesado sobre o pátio de terra.

Era final de novembro, começo de dezembro. Na porta, a professora já havia pendurado uma guirlanda de Natal.

O ano estava terminando.

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E o verão, lá fora, parecia chamar por alguma aventura.

Naquele dia combinamos tudo em silêncio. Cada um levaria apenas um caderno na mochila, para que ela ficasse leve e não atrapalhasse a fuga.

Não era que estivéssemos numa prisão. Era apenas escola.
Mas o mundo lá fora parecia grande demais para ser ignorado.

Terminou a primeira aula e o sinal chamou a turma para a educação física.

Enquanto os outros alunos seguiam para a quadra, eu, o gordo, o alemão e o Buiu desviamos para o fundo da escola.

Ali o muro era baixo.

Pulamos um depois do outro.

Assim que nossos pés tocaram o chão do lado de fora, saímos correndo com o coração disparado, como se tivéssemos acabado de abrir uma porta secreta do mundo.

Corremos duas quadras até a casa do gordo.

Escondemos os cadernos debaixo da cama e fomos buscar as bicicletas.

A minha era uma velha Berlineta.
O gordo tinha uma Monareta.
O Buiu e o alemão pedalavam bicicletas com aquele jeito aventureiro de cross.

O gordo saiu tropeçando na própria pressa, puxando as calças que insistiam em cair enquanto tentava montar na bicicleta. Ele sempre foi meio estabanado - desses que tropeçam, levantam rindo e continuam correndo como se a vida fosse apenas mais uma brincadeira.

Descemos a rua feito loucos até alcançar o estradão.

Para nossa sorte, uma patrola havia passado pouco antes. A estrada estava lisa, quase um tapete de terra vermelha, ainda marcada pelos sulcos largos das rodas.

Seguimos pedalando em direção ao Roda d’Água.

Enquanto descíamos o estradão, ouvíamos ao longe os tratores trabalhando nas roças.

Perto da cidade, um grupo de trabalhadores arrancava mandioca.

No ar havia o cheiro seco da soja madura - um cheiro morno que misturava poeira, planta e sol.

Às vezes o vento levantava pequenas nuvens de terra vermelha que grudavam nas pernas suadas.

O interior vivia naquele ritmo antigo de trabalho e esperança.

E nós atravessávamos tudo aquilo como quatro pequenos aventureiros.

O Buiu pedalava quieto, sempre um pouco atrás. Era magrinho, baixinho, e quase sempre aparecia na escola com a mesma bermuda e os mesmos sapatos gastos.

Morava longe, lá para os lados da Vila Gaúcha.

E no cabelo dele sempre havia um leve cheiro de fumaça - cheiro de fogão a lenha que parecia vir grudado de casa.

Pedalamos até o fim do estradão e seguimos pelas ruas de chão, fazendo zigue-zague até descer a baixada que levava ao Arroio Fundo.

Perto dali havia um potreiro cheio de árvores de fruta de verão.

Pulamos a cerca como pequenos ladrões de pomar.

Colhemos o que cabia nas mãos: laranjas maduras, ainda mornas do sol.

Depois seguimos até a ponte do arroio.

A água estava limpa. Tão limpa que dava para ver pequenos peixes nadando entre as pedras.

Quando tocamos os pés na água veio o choque.

Um frio rápido que subiu pelas pernas e arrepiou o corpo inteiro.

Entramos devagar.

O alemão tirou a camisa. Nas costas magras apareceram algumas marcas antigas de cinta - marcas que ele nunca comentava, mas que todos nós sabíamos de onde vinham.

Na escola ele andava quieto, meio acuado.

Mas ali, no arroio, parecia outro menino.

Gostava de natureza como ninguém. Pescar, andar nas roças, catar fruta no mato, ouvir cigarras.

A água corria entre as pedras fazendo um barulho manso, como se contasse uma história antiga.

Nadamos, mergulhamos, rimos.

Por algum tempo o mundo inteiro parecia caber dentro daquele pedaço de água correndo entre as pedras.

Depois nos sentamos no barranco.

Cada um com uma laranja na mão.

Descascamos a fruta devagar, enquanto o cheiro doce da casca se espalhava pelo ar quente da tarde.

Borboletas cruzavam o campo.

Ao longe as cigarras cantavam no mato.

E o Arroio Fundo, naquele instante, parecia um pequeno paraíso escondido no interior do mundo.

Quando o sol começou a amarelar o céu, subimos a estrada empurrando as bicicletas.

Estávamos cansados.

Mas era o tipo de cansaço que só a alegria provoca.

No caminho vieram as confissões de infância.

Eu contei que, quando tinha sete anos, roubei uma garrafa de cerveja da geladeira do meu pai e tomei escondido.

O Buiu confessou que, aos oito, roubou um cigarro do pai para experimentar.

O gordo disse que certa vez roubou um pacote de torresmo e comeu tudo sozinho.

O alemão ouviu mais do que falou.

Mas ria.

Como se, naquele pedaço de estrada e naquele fim de tarde, nada no mundo pudesse alcançar a gente.

Hoje, quando passo perto do Arroio Fundo, às vezes paro o carro e fico olhando a água correr.

A estrada já não é a mesma. A ponte mudou. A vida levou cada um de nós para um canto diferente.

Mas quando o vento sopra naquele barranco, trazendo o cheiro das plantas e da terra quente, ainda parece possível ouvir.

Quatro bicicletas descendo a estrada.

Quatro guris rindo.

E o rangido distante de um ventilador antigo girando dentro de uma sala de aula quente de verão.

"Talvez seja por isso que algumas lembranças nunca aprendem a ir embora”.


As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e 
não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial da Revista Especiais.

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