O valor do café continua subindo e deve permanecer assim pelos próximos meses, conforme indicam as previsões da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic). A tendência de alta se deve a um conjunto de fatores, incluindo condições climáticas adversas, aumento da demanda global e especulação no mercado financeiro.
Atualmente, o Brasil responde por cerca de 40% da produção mundial de café, sendo seguido pelo Vietnã e Colômbia. Contudo, a instabilidade na oferta tem elevado os preços da commodity nas bolsas internacionais. Na Bolsa de Nova York, os contratos de café arábica atingiram valores recordes, ultrapassando US$ 3,97 por libra-peso.
Nos últimos anos, a produção de café sofreu sequências de eventos climáticos extremos. Em 2021, geadas severas afetaram cerca de 20% das lavouras de café arábica. Nos anos seguintes, o fenômeno El Niño provocou estiagens prolongadas e altas temperaturas, enquanto em 2024 o La Niña trouxe chuvas excessivas, dificultando a recuperação das lavouras.
“Esse acúmulo de quatro anos de problemas climáticos e o crescimento da demanda global explicam a escalada de preços do café”, afirmou Pavel Cardoso, presidente da Abic.
Com a produção afetada, os custos de cultivo também aumentaram significativamente. Os produtores precisaram investir mais para manter as lavouras produtivas, elevando o preço da matéria-prima. Como resultado, a indústria sofreu aumentos superiores a 200%, repassando parte desse custo ao consumidor final.
A colheita de 2025, que começa entre abril e maio, deve trazer uma leve estabilização nos preços, segundo projeções do setor. No entanto, uma redução significativa nos valores só é esperada a partir da safra de 2026, que pode superar o recorde de 2020.
“Com relação à matéria-prima, devemos ter alguma volatilidade até a chegada da próxima safra. Depois disso, esperamos uma certa estabilidade e uma redução gradual nos preços”, pontuou Cardoso.
O consumo de café segue em crescimento. Entre novembro de 2023 e outubro de 2024, a demanda no Brasil aumentou 1,11%, consolidando o país como o segundo maior consumidor mundial, atrás apenas dos Estados Unidos. Em 2024, os brasileiros consumiram aproximadamente 21,9 milhões de sacas de café, o equivalente a 1.430 xícaras por pessoa ao ano.
Com isso, o faturamento da indústria de café torrado no mercado interno atingiu R$ 36,82 bilhões, um aumento de 60,85% em relação a 2023. O aumento de preço afetou todas as categorias, com os cafés tradicionais registrando uma alta de 39,36%, os especiais subindo 9,80% e os gourmet alcançando um acréscimo de 16,17%.
Os consumidores já sentiram o peso dessa escalada. Nos últimos quatro anos, o valor da matéria-prima aumentou 224%, enquanto o preço do café no varejo subiu 110%. Em 2024, o reajuste da bebida foi de 37,4%, superando a inflação da cesta básica, que ficou em 2,7%.
Os especialistas do setor cafeeiro prevêem que a volatilidade de preços ainda será sentida pelos consumidores até que a nova safra seja plenamente integrada ao mercado. Enquanto isso, os custos elevados continuam a impactar os varejistas e a indústria.
A expectativa é de que os próximos meses sejam de incerteza para produtores e consumidores, com possíveis novos reajustes nos preços antes de uma estabilização definitiva. No entanto, se as projeções para 2026 se concretizarem, o setor pode ter um respiro e proporcionar um alívio para o bolso do consumidor.