Quarta, 21 de Outubro de 2026
18°C 24°C
Marechal Cândido Rondon, PR
Publicidade

Brasil volta a ser devedor externo após 19 anos

Dívida externa cresceu 27,4% no atual governo e ultrapassou as reservas internacionais; dados do Banco Central indicam redução da margem de proteção financeira do país, embora indicadores ainda não apontem risco imediato de crise

Por: João Livi
21/10/2026 às 18h07
Brasil volta a ser devedor externo após 19 anos
Dados do Banco Central indicam que a dívida externa brasileira alcançou US$ 407,1 bilhões, superando os US$ 402 bilhões em reservas e créditos no exterior. (Foto: Agência Brasil)

O Brasil perdeu, após 19 anos, a condição de credor internacional líquido. O crescimento da dívida externa em ritmo superior ao das reservas internacionais fez com que o endividamento do país com o exterior alcançasse US$ 407,1 bilhões, superando os US$ 402 bilhões contabilizados em reservas e créditos brasileiros no exterior. A diferença de US$ 5,1 bilhões recolocou a dívida externa líquida em terreno positivo, conforme dados do Banco Central referentes a junho de 2026.

O movimento interrompe uma trajetória iniciada em 2007, quando o Brasil passou a registrar ativos externos superiores às suas obrigações. Segundo levantamento do Estadão/Broadcast, publicado nesta quarta-feira (21), a dívida externa cresceu 27,4% durante o atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto as reservas avançaram 15,8%.

Apesar da mudança, os indicadores ainda não apontam risco imediato de crise nas contas externas. O cenário, entretanto, exige acompanhamento diante da possibilidade de ampliação do déficit em transações correntes e de eventuais saídas expressivas de recursos estrangeiros.

Endividamento atinge maior nível em quatro décadas

Os US$ 407,1 bilhões de dívida externa representam o maior valor registrado em 40 anos de estatísticas. O montante inclui compromissos do setor público, de instituições financeiras e de empresas privadas.

A diferença entre dívida e ativos externos ainda é relativamente pequena diante do tamanho da economia brasileira. A dívida externa líquida equivale a menos de 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto as reservas disponíveis são suficientes para cobrir mais de três vezes os vencimentos de curto prazo.

Conforme o levantamento do Estadão/Broadcast, economistas consideram improvável que a dívida externa líquida volte aos patamares superiores a US$ 70 bilhões registrados há aproximadamente duas décadas. Entretanto, existe a possibilidade de aproximação dos US$ 30 bilhões nos próximos dois anos, caso persista a deterioração dos indicadores.

Déficit externo amplia pressão sobre as contas

Outro indicador acompanhado é o déficit em transações correntes, que reúne operações comerciais, serviços e transferências de renda entre o Brasil e o exterior.

Em 2025, o saldo negativo chegou a US$ 67,4 bilhões, mais que o dobro dos US$ 27 bilhões registrados em 2023. Entre os fatores associados ao crescimento estão maiores despesas com serviços internacionais, investimentos em criptoativos e pagamentos a credores estrangeiros.

O investimento estrangeiro direto continua financiando esse desequilíbrio, mas a margem de segurança diminuiu. Em 2023, os investimentos superaram o déficit externo em mais de US$ 38 bilhões. Em 2025, essa diferença caiu para US$ 17,6 bilhões. Em 2024, havia ficado abaixo de US$ 9 bilhões.

Setor privado concentra maior parte da dívida

Apesar do crescimento do endividamento externo, aproximadamente 73% do total corresponde a compromissos de bancos e empresas privadas, reduzindo a exposição direta do governo federal.

Parte dessas empresas possui receitas em moeda estrangeira, principalmente provenientes de exportações, o que contribui para compensar os efeitos de eventuais oscilações cambiais.

A dívida pública federal emitida em moeda estrangeira soma R$ 348 bilhões e representa menos de 4% do estoque total. Por esse critério, o governo brasileiro continua sendo considerado credor externo líquido, pois suas reservas superam a dívida pública com o exterior.

Agências apontam contas públicas como principal risco

As agências internacionais de classificação de risco Fitch Ratings e Moody’s continuam considerando a posição externa brasileira relativamente confortável, apesar da mudança no saldo da dívida externa líquida.

Entre os fatores considerados estão o volume das reservas internacionais, a baixa dependência de financiamento público em moeda estrangeira, o regime de câmbio flutuante e a diversificação das exportações.

O principal foco de preocupação permanece relacionado às contas públicas. O desequilíbrio fiscal, associado à manutenção de juros elevados, aumenta o custo da dívida governamental e limita a capacidade de reação diante de situações econômicas adversas.

Atualmente, a Moody’s classifica o Brasil a um nível do grau de investimento, enquanto Fitch e S&P Global mantêm o país a dois níveis dessa classificação. As três agências atribuem perspectiva estável às notas brasileiras.

Tesouro pretende ampliar captações internacionais

O Tesouro Nacional trabalha com a possibilidade de ampliar gradualmente a participação de títulos emitidos em moeda estrangeira na composição da dívida pública federal.

A meta prevista no Plano Anual de Financiamento é elevar essa participação para 7%, ante o percentual atual inferior a 4%. A estratégia contempla novas captações em dólar, operações no mercado europeu e o acompanhamento das condições para uma eventual emissão em yuan, moeda chinesa.

O Tesouro considera confortável a posição externa do governo, destacando que a diferença entre as reservas internacionais e a dívida externa do setor público equivale a aproximadamente 6% do PIB.

Dessa forma, embora o Brasil tenha voltado à condição de devedor externo líquido quando considerados os compromissos públicos e privados, a posição financeira do governo perante credores internacionais permanece positiva. A evolução desse quadro dependerá do comportamento das reservas, dos investimentos estrangeiros, do déficit em transações correntes e das condições de financiamento internacional.

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários