
O Brasil perdeu, após 19 anos, a condição de credor internacional líquido. O crescimento da dívida externa em ritmo superior ao das reservas internacionais fez com que o endividamento do país com o exterior alcançasse US$ 407,1 bilhões, superando os US$ 402 bilhões contabilizados em reservas e créditos brasileiros no exterior. A diferença de US$ 5,1 bilhões recolocou a dívida externa líquida em terreno positivo, conforme dados do Banco Central referentes a junho de 2026.
O movimento interrompe uma trajetória iniciada em 2007, quando o Brasil passou a registrar ativos externos superiores às suas obrigações. Segundo levantamento do Estadão/Broadcast, publicado nesta quarta-feira (21), a dívida externa cresceu 27,4% durante o atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto as reservas avançaram 15,8%.
Apesar da mudança, os indicadores ainda não apontam risco imediato de crise nas contas externas. O cenário, entretanto, exige acompanhamento diante da possibilidade de ampliação do déficit em transações correntes e de eventuais saídas expressivas de recursos estrangeiros.
Os US$ 407,1 bilhões de dívida externa representam o maior valor registrado em 40 anos de estatísticas. O montante inclui compromissos do setor público, de instituições financeiras e de empresas privadas.
A diferença entre dívida e ativos externos ainda é relativamente pequena diante do tamanho da economia brasileira. A dívida externa líquida equivale a menos de 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto as reservas disponíveis são suficientes para cobrir mais de três vezes os vencimentos de curto prazo.
Conforme o levantamento do Estadão/Broadcast, economistas consideram improvável que a dívida externa líquida volte aos patamares superiores a US$ 70 bilhões registrados há aproximadamente duas décadas. Entretanto, existe a possibilidade de aproximação dos US$ 30 bilhões nos próximos dois anos, caso persista a deterioração dos indicadores.
Outro indicador acompanhado é o déficit em transações correntes, que reúne operações comerciais, serviços e transferências de renda entre o Brasil e o exterior.
Em 2025, o saldo negativo chegou a US$ 67,4 bilhões, mais que o dobro dos US$ 27 bilhões registrados em 2023. Entre os fatores associados ao crescimento estão maiores despesas com serviços internacionais, investimentos em criptoativos e pagamentos a credores estrangeiros.
O investimento estrangeiro direto continua financiando esse desequilíbrio, mas a margem de segurança diminuiu. Em 2023, os investimentos superaram o déficit externo em mais de US$ 38 bilhões. Em 2025, essa diferença caiu para US$ 17,6 bilhões. Em 2024, havia ficado abaixo de US$ 9 bilhões.
Apesar do crescimento do endividamento externo, aproximadamente 73% do total corresponde a compromissos de bancos e empresas privadas, reduzindo a exposição direta do governo federal.
Parte dessas empresas possui receitas em moeda estrangeira, principalmente provenientes de exportações, o que contribui para compensar os efeitos de eventuais oscilações cambiais.
A dívida pública federal emitida em moeda estrangeira soma R$ 348 bilhões e representa menos de 4% do estoque total. Por esse critério, o governo brasileiro continua sendo considerado credor externo líquido, pois suas reservas superam a dívida pública com o exterior.
As agências internacionais de classificação de risco Fitch Ratings e Moody’s continuam considerando a posição externa brasileira relativamente confortável, apesar da mudança no saldo da dívida externa líquida.
Entre os fatores considerados estão o volume das reservas internacionais, a baixa dependência de financiamento público em moeda estrangeira, o regime de câmbio flutuante e a diversificação das exportações.
O principal foco de preocupação permanece relacionado às contas públicas. O desequilíbrio fiscal, associado à manutenção de juros elevados, aumenta o custo da dívida governamental e limita a capacidade de reação diante de situações econômicas adversas.
Atualmente, a Moody’s classifica o Brasil a um nível do grau de investimento, enquanto Fitch e S&P Global mantêm o país a dois níveis dessa classificação. As três agências atribuem perspectiva estável às notas brasileiras.
O Tesouro Nacional trabalha com a possibilidade de ampliar gradualmente a participação de títulos emitidos em moeda estrangeira na composição da dívida pública federal.
A meta prevista no Plano Anual de Financiamento é elevar essa participação para 7%, ante o percentual atual inferior a 4%. A estratégia contempla novas captações em dólar, operações no mercado europeu e o acompanhamento das condições para uma eventual emissão em yuan, moeda chinesa.
O Tesouro considera confortável a posição externa do governo, destacando que a diferença entre as reservas internacionais e a dívida externa do setor público equivale a aproximadamente 6% do PIB.
Dessa forma, embora o Brasil tenha voltado à condição de devedor externo líquido quando considerados os compromissos públicos e privados, a posição financeira do governo perante credores internacionais permanece positiva. A evolução desse quadro dependerá do comportamento das reservas, dos investimentos estrangeiros, do déficit em transações correntes e das condições de financiamento internacional.