
Duas ripas fortes, com os rolamentos presos nas pontas.
Quatro rolamentos e uma tábua em cima.
Estava pronto o carrinho de rolimã.
A gambiarra não tinha freio.
Era pura coragem.
E reuníamos a piazada da rua na baixada do Botafogo.
Ali era área de risco.
Mas ninguém tinha colocado placa.
Lá foram Teco e Dirceu, os dois na prancha.
O carrinho começou a descer.
Primeiro devagar.
Depois ganhou velocidade.
E logo estavam descendo a milhão, morro abaixo.
Sem freio.
Sem proteção.
O rolimã assobiava no asfalto.
Até que apareceu uma pedrinha no caminho.
O carrinho deu um cavalo de pau.
Teco e Dirceu se esparramaram no asfalto.
Dirceu, o gordinho, caiu de paleta no asfalto quente.
A camisa branca rasgou, abrindo uma listra no couro das costas.
Teco caiu de joelhos, abrindo um corte profundo em cada um.
Uma tragédia.
Que durou dois minutos.
Depois dos arranhões, do sangue e de alguma choradeira, lá estavam eles na fila, esperando a próxima descida.
Sem freio.
Sem proteção.
E quase sem medo.
Sangue, joelho ralado, camisa rasgada.
E uma preocupação maior que a dor:
não deixar a mãe ver.
Mas, no meio da piazada, sempre tinha um que ameaçava:
— Eu vou contar pra tua mãe!
Aí vinha a reação.
— Não conta!
— Se contar, eu te pego!
No Botafogo, criança até chorava.
Mas chorava escondido.
O rolimã assobiava outra vez no asfalto.
Joelho ardendo.
Costas raladas.
Sangue secando.
Mas ninguém queria ir para casa.
A pior parte não era cair.
Era perder a vez na próxima descida.
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