
Na mitologia grega antiga, uma história ficou conhecida principalmente pelo seu fim. Dédalo era um arquiteto que, preso em uma ilha, pensou em fugir da sentença imposta a ele e a seu filho. Assim, construiu dois pares de asas: um para si e outro para Ícaro. Criou as asas com penas de pássaros e cera de vela que tinha consigo.
Antes de decolar, explicou os planos e estratégias ao estimado filho e o advertiu sobre a importância de voar com prevenção e cautela. Se voasse em direção ao sol, a cera derreteria e ele cairia no mar. Ícaro, no começo, concordou, e os dois alçaram voo. Enquanto o jovem sobrevoava o mar, percebeu o encanto de sua liberdade e logo perdeu o bom senso dos avisos do pai. Muito insensato, seguia cada vez mais alto em direção ao sol. Perto demais, a cera derreteu, e Ícaro caiu no mar e se afogou. Seu pai nada pôde fazer para salvá-lo de seu trágico fim.
Esta metáfora simples muitas vezes é utilizada para dar significado aos pensamentos limitantes e suas consequências na vida cotidiana, sobretudo para alinhamentos cognitivos polarizados que não seguem os bons conselhos para uma vida saudável. O equilíbrio emocional representa um importante aspecto da vida em sociedade, estabelecido pela capacidade de aprendizagem entre o livre-arbítrio e o desejo de lidar com os desafios existenciais do dia a dia. A imprudência do filho diante dos conselhos dados por Dédalo mostra como muitos continuam perdendo a noção da realidade e ilustra o foco que devemos estabelecer no ser humano, com suas transgressões e, muitas vezes, pelo excesso de incongruências.
A necessidade de compreender que cada indivíduo tem uma imensa capacidade de criar condições favoráveis para viver melhor e superar suas adversidades emocionais é muito evidente. Muitos ainda usam medicações para estabilizar traumas emocionais inconscientes e são reféns de seus próprios conceitos, pela obscura falta de aprofundamento e harmonização afetiva. Às vezes é fundamental fazer uma interiorização, compreender melhor os fatos e poder ressignificar crenças pesadas e passadas na mente de muitas pessoas.
Devemos olhar para a história pessoal, seus arquétipos emocionais, resgatando sua paz, e não apenas para as predisposições genéticas ou uma frenética dependência química contínua. Saúde mental, portanto, é prevenção; o seu contrário, a doença, segue um sentido de tratamento, validado a priori pelo bem-estar emocional e pela qualidade de vida, tão importante para muitos em todas as classes sociais.
Atualmente, é irônico afirmar que produzimos tantos alimentos que são negociados e trocados no mundo por medicamentos, um ciclo que mantemos interessante em nosso país por ideologias e outras organizações da sociedade atual.
O foco não é exógeno, e sim humanamente endógeno, para um novo tempo de indivíduos e famílias estruturadas, interagindo de dentro para fora em profunda harmonia com o sentido de vida e a felicidade autêntica, reconhecendo a verdadeira capacidade de viver com saúde e valores abundantes no íntimo da mente. Não é o ter, porque todos têm capacidade, e sim o usar essas capacidades para melhor viver e agir com mais resiliência.
A palavra “EU”, no entanto, possui uma etimologia esclarecedora e interessante. O “U” significa universalidade, presente em muitos termos, associado à letra “E”, que representa uma conjunção com este universo. Universo que somos de potencialidades e possibilidades evidentes pela sabedoria de olhar mais o mundo com psicologia positiva e inteligência emocional.
A polarização, para líderes corporativos e muitas pessoas, é ruim. Representa as crenças, as concepções e as estratégias da vida, indicando os caminhos para os resultados atribuídos. O neuropsiquiatra Viktor Frankl (1905-1997), em campos de concentração, já afirmava: “Estamos transformando o humano em ALGO e menos em um SER”. Convivendo em um ambiente profundamente adverso, comentava: “Nós que vivemos numa situação de profundo desespero, podemos lembrar de homens que andavam pelos alojamentos confortando os outros. Dando seu último pedaço de pão para aqueles que não tinham, oferecendo prova suficiente do sentido de sua existência e o propósito da liberdade humana” - Livro: “Em busca de sentido”, Editora Vozes.
Somos, por natureza, positivos, e nossa mente deseja o melhor, não o pior. A questão é simples e, ao mesmo tempo, profunda, pois, para viver em equilíbrio psíquico, devemos olhar particularmente para soluções emocionais, sendo que os fatos vividos devem ser aceitos e compreendidos, mas não modificados. Os acontecimentos ao longo do tempo fazem parte da história pessoal de cada indivíduo. Não se apaga a história e não se subtraem os acontecimentos por qualquer método psicoterapêutico.
Viver livremente é apenas viver em paz com suas emoções, um sentido que é possível, e muitos especialistas hoje sabem disso, tanto que seguem um plano de “dessensibilização afetiva”, com métodos e processos contemporâneos para tratamento e auxílio na resolução de transtornos de humor e de ansiedade, muito prevalentes em organizações e na sociedade.
Em 1958, Joseph Wolpe desenvolveu técnicas de abordagem do inconsciente para ajudar nas altas taxas de transtornos emocionais. Muitas teorias, como a do psiquiatra Milton Erickson, considerado o pai da psicoterapia contemporânea e uma autoridade em recuperação de casos severos, construíram no trabalho clínico modelos efetivos de transformação e desenvolvimento do potencial psíquico interno. A principal premissa é resultante da interação e do olhar para as pessoas, com esforços para potencializar os indivíduos de dentro para fora e capacitar seus recursos necessários para a superação existencial.
Portanto, a leitura dos fatos nos faz olhar para o ser humano, compreendendo sua imensa potencialidade interior e sabendo que a vida é, na realidade, uma “passagem de consciência”, na qual somos responsáveis pelas gerações vindouras e pela sociedade que desejamos. Se precisamos mudar a bússola e o rumo da vida, este é um importante passo de flexibilidade e de grande valor na construção da humanidade, onde o principal ainda é o SER HUMANO.
Dr. Roberto de Oliveira
Especialista em Psiquiatria Clínica e Saúde Mental - FAMART/MG
Consultoria em Riscos Psicossociais - UNISINOS/RS
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