
Marechal Cândido Rondon (Oeste do PR) contará com mais um morador centenário. João Giacobbo, nascido em 1926, em uma localidade então pertencente ao município de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, completa em 19 de julho 100 anos de vida e carrega na memória parte importante da história de ocupação e desenvolvimento da região.
Gaúcho de origem, ele chegou pela primeira vez a General Rondon em 1952, quando o atual município ainda estava em fase inicial de colonização. A viagem foi feita de avião até Toledo e, depois, por estrada até a região onde hoje estão comunidades do interior rondonense.
Em entrevista ao portal da Revista Especiais, João Giacobbo relembrou passagens da juventude, a chegada ao Oeste do Paraná, o trabalho na lavoura, a vida em Margarida, a família, os desafios enfrentados e o segredo que, segundo ele, o ajudou a alcançar os 100 anos: fé, esperança e disposição para lutar.
João nasceu em uma localidade distante cerca de 100 quilômetros da cidade de Passo Fundo. Anos depois, em 1952, veio conhecer General Rondon acompanhado de um cunhado. A viagem até Toledo foi feita de avião, e de lá ele seguiu para a região por outros meios de transporte.
Ao chegar ao interior, percorreu longas distâncias a pé em busca de conhecidos e familiares. Ele recorda caminhadas de muitos quilômetros em estradas abertas no meio do mato, em uma época em que a região ainda era tomada por floresta e os caminhos eram utilizados principalmente por caminhões que transportavam madeira.
Entre as lembranças desse período, João cita o medo de cobras, especialmente por não conhecer bem os animais da região. “Mato bonito, mas medo de cobra, pelo Deus”, recordou.
Depois de conhecer a região, João retornou ao Rio Grande do Sul e, anos mais tarde, estabeleceu-se definitivamente no Oeste do Paraná. Em Marechal Cândido Rondon, viveu por muitos anos na região de Margarida, onde iniciou a vida na agricultura.
Quando chegou à propriedade, encontrou terra coberta por mata. O trabalho começou com a derrubada manual e, depois, com apoio de trator de esteira. A atividade no campo envolvia esforço diário, produção agrícola e superação de dificuldades típicas do período de colonização.
João também recorda que enfrentou problemas com falta de água em determinada área, o que o levou a buscar outra propriedade. A nova terra não era, segundo ele, tão bonita quanto a anterior, mas tinha o que era essencial para a sobrevivência da família: água.
Ao longo da vida, João formou família e teve filhos, todos nascidos no Rio Grande do Sul. Entre os filhos citados estão Vitor e Flávio, além das filhas que seguiram diferentes caminhos e residem em outras cidades.
A trajetória também foi marcada por uma perda familiar profunda. Durante a entrevista, João relembrou a morte de uma filha por afogamento, episódio que trouxe sofrimento à família e levou sua esposa a precisar de internação hospitalar.
Mesmo diante das dificuldades, ele afirma que seguiu em frente. A palavra mais repetida ao falar da vida é “luta”. Para o centenário, a existência foi construída com trabalho, persistência e fé.
Após décadas no interior, João comprou uma casa na cidade de Marechal Cândido Rondon. O imóvel, segundo ele, foi indicado por um dos filhos, que estudava na área urbana. Na época, a casa era menor e não tinha as ampliações existentes atualmente.
Mesmo morando na cidade, João continuou vinculado ao campo por muitos anos. Ele trabalhou na lavoura até aproximadamente os 80 anos, quando decidiu deixar as atividades mais pesadas para os filhos.
“Chega. Deixa que os filhos trabalhem agora”, comentou, ao lembrar a decisão de parar com o trabalho rural.
Ao ser questionado sobre o segredo para chegar aos 100 anos com disposição, João respondeu de forma direta: fé. Para ele, a esperança e a confiança em Deus foram fundamentais para atravessar os momentos difíceis.
“Ter fé. Esperança. Esperança que Deus ajude. Deus sempre me ajudou”, afirmou.
Outro aspecto que chama atenção é o fato de João praticamente não fazer uso contínuo de medicamentos. Mesmo com episódios de reumatismo e problemas de saúde ao longo da vida, ele afirma que sempre buscou enfrentar as limitações e seguir adiante.
Além da agricultura, João trabalhou em diferentes atividades ao longo da vida. Ele recorda serviços no mato, transporte de madeira para serrarias e também a montagem de tafonas, estruturas usadas para beneficiamento de mandioca e produção de farinha.
Segundo ele, as tafonas eram preparadas em casa, em um galpão, e depois montadas nos locais de funcionamento. Em um ano, chegou a montar três estruturas, em parceria com um cunhado.
As lembranças revelam um período em que a sobrevivência dependia da capacidade de adaptação, do trabalho manual e da disposição para aprender diferentes ofícios.
Aos 100 anos, João Giacobbo mantém viva a memória de pessoas, caminhos, famílias e situações que fizeram parte do cotidiano da antiga General Rondon. Durante a entrevista, relembrou histórias da infância de moradores locais, causos envolvendo estradas, caminhonetes, animais, lavoura e viagens.
Também recordou experiências da juventude, como laçadas, trabalho com bois e cavalos, e episódios vividos durante o período em que serviu no Exército.
Com bom humor, João afirmou que sua próxima meta é chegar aos 110 anos. A comemoração dos 100 anos teve festa organizada pelos filhos e contou com música, dança e a presença de familiares e amigos.
Ao deixar uma mensagem para as pessoas, especialmente para quem deseja envelhecer com saúde e qualidade de vida, João afirmou que deseja que todos possam chegar a uma idade avançada. Para ele, porém, a vida segue o tempo determinado por Deus.
“Eu faço voto que todos poderiam chegar. Mas Deus deu prazo”, afirmou.
Centenário, João Giacobbo representa uma geração que enfrentou o mato, a distância, a falta de estrutura, a dureza da lavoura e as dificuldades da colonização. Sua história se mistura à trajetória de Marechal Cândido Rondon e permanece como testemunho de trabalho, fé e resistência.