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Parceria desenvolve bateria nacional para sistemas de armazenamento de energia

Projeto do ISI Eletroquímica e da AXIA Energia cria célula prismática LFP com matéria-prima nacional e prepara caminho para megafactory no Brasil

Por: João Livi Fonte: SENAI/PR
02/06/2026 às 08h42
Parceria desenvolve bateria nacional para sistemas de armazenamento de energia
Legenda da foto: Parceria entre ISI Eletroquímica e AXIA Energia desenvolveu célula prismática LFP produzida no Brasil com matéria-prima nacional. (Foto: Divulgação)

O Brasil avançou em uma área estratégica para a transição energética e para a soberania tecnológica. O Instituto Senai de Inovação em Eletroquímica (ISI Eletroquímica), em parceria com a AXIA Energia, desenvolveu a primeira célula prismática de íons-lítio com química LFP - lítio-ferro-fosfato - produzida no país com matéria-prima nacional.

O projeto integra a iniciativa “Desenvolvimento de Protótipos de Bateria de Íons-Lítio com Alto Grau de Nacionalização para Sistema de Armazenamento de Energia em Baterias (BESS)” e é considerado um marco para a indústria brasileira.

A tecnologia abre caminho para ampliar a participação nacional em uma cadeia produtiva altamente estratégica, ligada ao armazenamento de energia, à expansão das fontes renováveis e à redução da dependência externa em componentes essenciais para o setor elétrico.

Escolha estratégica

A escolha da química LFP não ocorreu por acaso. De acordo com Heverson Renan de Freitas, coordenador e pesquisador em Smart Energy no Instituto Senai de Inovação em Eletroquímica, esse tipo de bateria apresenta vantagens importantes para o contexto brasileiro.

Segundo ele, a composição LFP é mais econômica e estável quando comparada a outras tecnologias, como as baterias à base de níquel, manganês e cobalto.

“Ela não utiliza metais mais caros, como níquel e cobalto, e é mais viável de ser produzida no Brasil, já que temos acesso a insumos disponíveis no país”, explica.

O diferencial do projeto está justamente no desenvolvimento de uma célula prismática brasileira produzida com material ativo nacional, o que representa um avanço importante na construção de uma cadeia local de baterias.

Do laboratório à produção piloto

O desenvolvimento da tecnologia exigiu superar desafios técnicos relevantes. Ao sair da escala laboratorial e avançar para a produção piloto, a equipe precisou lidar com maior rigor nos parâmetros de fabricação, controle de estabilidade e repetibilidade do processo.

“Levamos meses para produzir uma única unidade”, afirma Heverson.

O tamanho da célula, relativamente grande, e a complexidade do escalonamento exigiram infraestrutura especializada e controle refinado em cada etapa da produção.

Mesmo diante das dificuldades, o resultado posiciona o Brasil em um novo patamar tecnológico. A célula desenvolvida teve como referência modelos importados, buscando desempenho compatível para aplicações estacionárias de grande escala.

Armazenamento para energia renovável

O avanço ocorre em um momento decisivo para o setor energético. Com a expansão de fontes renováveis, especialmente a energia solar, cresce a necessidade de sistemas de armazenamento capazes de equilibrar geração e consumo.

“A energia solar gera mais ao meio-dia, mas o maior consumo acontece no início da noite. Para equilibrar isso, precisamos de baterias”, ressalta Heverson.

Esse tipo de solução é fundamental para os sistemas BESS, sigla em inglês para sistemas de armazenamento de energia em baterias. Eles permitem armazenar energia gerada em determinados períodos e disponibilizá-la quando há maior demanda.

Na prática, a tecnologia contribui para maior segurança energética, melhor aproveitamento das fontes renováveis e redução de perdas no sistema elétrico.

Interesse do setor energético

Para a AXIA Energia, o projeto está alinhado às estratégias de expansão da companhia. A engenheira de desenvolvimento de projetos de geração da empresa, Tatiana Araújo Sousa Martins, afirma que há grande interesse em aplicações de BESS, especialmente diante dos próximos leilões do setor.

A empresa possui um portfólio de aproximadamente 2 gigawatts, volume que, segundo ela, seria suficiente para atender sozinha à demanda prevista em um dos certames.

“Estamos bastante confiantes e otimistas quanto às oportunidades que podem surgir”, afirma.

Tatiana também destaca que os resultados do projeto vão além da célula desenvolvida. A implantação de uma planta estruturante, prevista para iniciar a produção de células no próximo ano, é vista como uma consequência direta da iniciativa.

Outro avanço considerado estratégico é o movimento em direção à certificação nacional, ainda inexistente no Brasil para esse segmento.

“São vários movimentos pioneiros surgindo a partir de um mesmo projeto”, observa.

Modelo de fomento

O financiamento do projeto também chama atenção pelo modelo adotado. Segundo Marcos Berton, pesquisador-chefe no ISI Eletroquímica, a iniciativa é um exemplo de fomento híbrido, combinando recursos obrigatórios de pesquisa e desenvolvimento regulados pela Aneel com aportes da Embrapii.

Esse arranjo permite ampliar o investimento em inovação, aumentar o escopo técnico e reduzir riscos.

Na prática, conforme Berton, a concessionária consegue duplicar o valor destinado à inovação, ampliando a profundidade tecnológica do projeto.

O modelo exige gestão rigorosa, pois cada fonte possui regras próprias. Mesmo assim, ao compartilhar investimentos, incluindo contrapartida econômica do próprio Senai, o projeto conseguiu acelerar resultados.

Ao longo de 40 meses, foi possível consolidar uma tecnologia nacional voltada a sistemas de armazenamento em larga escala.

Caminho para uma megafactory

Paralelamente ao desenvolvimento da célula prismática, o Senai já trabalha na implantação de uma megafactory com processos industriais completos.

A meta é reduzir drasticamente o tempo de produção de uma célula equivalente. O que hoje levou meses para ser produzido em escala piloto poderá, em uma estrutura industrial, ser fabricado em cerca de 15 minutos.

Se concretizado em escala, o projeto pode reposicionar o Brasil no mapa global das baterias, fortalecendo a cadeia produtiva nacional, estimulando novos investimentos e ampliando a competitividade do setor energético.

Indústria nacional e transição limpa

O desenvolvimento da célula LFP nacional representa um avanço para a indústria brasileira em uma área diretamente ligada ao futuro da energia.

Ao combinar matéria-prima nacional, pesquisa aplicada, parceria entre instituto de inovação e empresa do setor elétrico, além de um modelo de financiamento voltado à inovação, o projeto demonstra o potencial do Brasil para atuar em cadeias tecnológicas de maior valor agregado.

Em um cenário global cada vez mais orientado pela transição limpa, sistemas de armazenamento de energia serão fundamentais para ampliar a segurança, a flexibilidade e a eficiência das fontes renováveis.

Com a tecnologia desenvolvida pelo ISI Eletroquímica e pela AXIA Energia, o Brasil dá um passo importante para reduzir dependências externas e construir uma base industrial própria em baterias para grandes sistemas de armazenamento.

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