
Um estudo desenvolvido pelo Laboratório de Farmacologia da Dor Orofacial da Universidade Federal do Paraná (UFPR) sugere que a combinação entre consumo elevado de cafeína e privação de sono pode aumentar a predisposição à enxaqueca. A pesquisa, publicada na revista científica Headache, foi realizada em ratos e aponta que esses fatores de estilo de vida podem deixar o sistema nervoso mais sensível à dor.
Embora os resultados ainda não possam ser transferidos diretamente para seres humanos, por se tratar de um estudo experimental com animais, os achados ajudam a compreender como hábitos comuns da rotina moderna - como dormir pouco e usar café ou outros estimulantes para compensar o cansaço - podem influenciar a vulnerabilidade a crises de enxaqueca.
A pesquisa também observou diferença entre os sexos biológicos. No modelo experimental, as fêmeas foram mais sensíveis à combinação de cafeína e restrição de sono, resultado compatível com dados já conhecidos pela ciência, segundo os quais a enxaqueca é mais frequente em mulheres do que em homens.
A enxaqueca é uma síndrome neurológica incapacitante, que pode envolver dor de cabeça de intensidade moderada a severa, náuseas, sensibilidade à luz e ao som, além de outros sintomas. A condição afeta cerca de 15% da população mundial e compromete atividades profissionais, sociais e familiares durante as crises.
A professora Juliana Geremias Chichorro, do Departamento de Farmacologia da UFPR e uma das autoras do estudo, destaca que a enxaqueca não deve ser tratada como uma dor comum. Segundo ela, trata-se de uma síndrome neurológica com forte impacto sobre a qualidade de vida.
O estudo reforça a necessidade de olhar para a enxaqueca de forma mais ampla, considerando não apenas fatores biológicos, mas também hábitos de vida, sono, alimentação, rotina e uso de substâncias estimulantes.
Café, sono e sensibilidade à dorNa pesquisa, os cientistas simularam o consumo de cafeína durante um período de restrição parcial de sono. Os ratos foram submetidos a três dias consecutivos de sono reduzido, com bloqueio de fases importantes do descanso, especialmente o sono profundo e o sono REM.
Depois, parte dos animais recebeu dose oral de cafeína. Em seguida, os pesquisadores aplicaram substâncias capazes de desencadear respostas semelhantes à enxaqueca em humanos. As doses utilizadas normalmente não seriam suficientes para provocar dor, mas em animais privados de sono e expostos à cafeína houve maior sensibilização.
O resultado sugere que a cafeína não atuou necessariamente como causa direta da enxaqueca, mas contribuiu para deixar o sistema trigeminal mais sensível. Esse sistema envolve nervos e vasos sanguíneos da cabeça e está diretamente relacionado aos mecanismos de dor da enxaqueca.
Um dos pontos centrais do estudo foi a diferença observada entre fêmeas e machos. Nas fêmeas, a privação de sono ou o uso isolado de cafeína já foram suficientes para aumentar a resposta dolorosa diante dos estímulos aplicados pelos pesquisadores.
Nos machos, a dor apareceu principalmente quando houve a combinação de todos os fatores avaliados. Além disso, as fêmeas apresentaram uma sensibilização mais persistente, com reativação da dor após exposição à luz intensa, característica associada à fotofobia, sintoma frequente em pessoas com enxaqueca.
Para os pesquisadores, essa diferença reforça a importância de incluir machos e fêmeas em estudos experimentais e homens e mulheres em pesquisas clínicas, já que o sexo biológico pode influenciar tanto os mecanismos da dor quanto a resposta a tratamentos.
A relação entre cafeína e enxaqueca é considerada complexa. A substância está presente em café, chás, energéticos e também em alguns analgésicos utilizados para dor de cabeça. Em determinadas situações, pode ajudar no efeito de medicamentos. Em outras, especialmente em consumo elevado, abstinência abrupta ou associação com privação de sono, pode contribuir para crises em pessoas suscetíveis.
O estudo da UFPR segue essa linha de interpretação: o efeito da cafeína depende do contexto em que o organismo se encontra. Quando o corpo já está fragilizado pela falta de sono, o uso de cafeína pode reduzir a proteção natural contra a dor e facilitar a instalação de uma crise.
A recomendação geral para a população adulta é não ultrapassar 400 miligramas de cafeína por dia, quantidade equivalente a cerca de quatro ou cinco xícaras de café, embora a tolerância varie de pessoa para pessoa. Para indivíduos com enxaqueca ou distúrbios do sono, a orientação deve ser individualizada por profissional de saúde.
Uma das explicações apontadas pelos pesquisadores envolve a adenosina, substância que se acumula no cérebro ao longo do dia e ajuda a sinalizar cansaço, favorecendo o sono.
Quando há privação de sono, a adenosina tende a aumentar. Ela ajuda o organismo a perceber a necessidade de descanso e também pode exercer papel protetor contra o estresse. A cafeína, porém, bloqueia receptores de adenosina, reduzindo a sensação de cansaço, mas também interferindo em mecanismos que poderiam ajudar a modular a dor.
Com isso, em um cérebro cansado, a cafeína pode manter o estado de alerta, mas ao mesmo tempo favorecer maior suscetibilidade a estímulos dolorosos em pessoas predispostas à enxaqueca.
Por ter sido realizado em ratos, o estudo não permite concluir que o mesmo efeito ocorrerá exatamente da mesma forma em seres humanos. Ainda assim, os resultados oferecem pistas importantes para novas pesquisas clínicas.
Os dados reforçam a necessidade de investigar como sono insuficiente, consumo de cafeína, sexo biológico, hormônios e predisposição individual interagem no desencadeamento da enxaqueca.
Na prática, a pesquisa aponta para uma mensagem de cautela: em pessoas que já sofrem com enxaqueca, especialmente quando há noites mal dormidas, o uso excessivo de café ou outros estimulantes pode não ser uma solução inofensiva para enfrentar o cansaço.
Manter uma rotina de sono adequada, observar gatilhos individuais e buscar orientação médica em casos recorrentes seguem sendo medidas importantes para quem convive com crises de enxaqueca.