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Lixões persistem no Brasil e expõem falhas em política nacional de resíduos

Mesmo após prazo para extinção, milhares de municípios ainda utilizam descarte irregular e geração de lixo cresce acima da população

Por: João Livi Fonte: UFPR
31/03/2026 às 13h45
Lixões persistem no Brasil e expõem falhas em política nacional de resíduos
Lixões ainda são realidade em centenas de municípios brasileiros, mesmo após prazo para extinção. (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

No Dia do Lixo Zero, dados recentes escancaram um problema que persiste no Brasil: lixões continuam ativos em milhares de municípios, mesmo após o prazo estabelecido pelo Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Planares) para sua eliminação.

Criado em 2022 com meta emergencial de extinguir os lixões até 2024, o plano não atingiu o objetivo. Levantamento do Ministério das Cidades indica que o país iniciou 2025 com 1.492 municípios ainda utilizando vazadouros a céu aberto, o equivalente a quase 27% do total.

Política falha e impacto crescente

A situação evidencia a baixa efetividade do plano, que, segundo análise da professora Andréa Ryba Lenzi, da Universidade Federal do Paraná, prioriza o tratamento do lixo após a geração, em vez de investir na prevenção.

De acordo com a pesquisadora, essa abordagem tem provocado custos ambientais, sociais e econômicos elevados, incluindo contaminação do solo e da água, além de impactos diretos na saúde pública.

O cenário também aponta para uso ineficiente de recursos públicos, com gastos direcionados à manutenção de passivos ambientais e contratos considerados onerosos, sem avanços estruturais na gestão de resíduos.

Geração de lixo cresce mais que a população

Outro dado alarmante é o aumento da produção de lixo em ritmo superior ao crescimento populacional.

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Entre 2019 e 2020, enquanto a população cresceu 0,76%, a quantidade de resíduos coletados aumentou 2,3%, indicando que cada brasileiro passou a gerar mais lixo.

Segundo Andréa Lenzi, o fenômeno está diretamente ligado ao aumento do consumo e ao uso crescente de produtos descartáveis.

Falta de políticas de redução agrava cenário

A ausência de políticas públicas eficazes voltadas à redução do lixo na origem é apontada como uma das principais fragilidades do sistema.

“O próprio plano não estabelece metas claras para a redução, o que dificulta a cobrança e o monitoramento”, destaca a pesquisadora.

Na prática, a política nacional segue concentrada em remediar o problema, sem avançar de forma consistente na prevenção.

Catadores seguem na informalidade

O modelo atual também impacta diretamente os trabalhadores da reciclagem.

Segundo o estudo, cerca de 56% dos catadores são mulheres, muitas delas ainda em situação de informalidade, sem direitos trabalhistas ou estabilidade financeira.

A ausência de contratos formais com o poder público mantém a atividade precarizada e limita o avanço da coleta seletiva.

Lixões continuam oferecendo riscos

Os lixões representam uma das formas mais críticas de destinação de resíduos, por não possuírem qualquer tipo de tratamento ou proteção ambiental.

Além da poluição do solo e da água, esses locais oferecem riscos à saúde e à segurança da população, incluindo desmoronamentos e contaminação de áreas de preservação.

Mesmo estruturas consideradas intermediárias, como os aterros controlados, ainda apresentam falhas graves, como ausência de impermeabilização e tratamento de gases.

Desigualdade regional agrava problema

O problema é mais intenso nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde há maior dependência de estruturas inadequadas.

Já o Sul apresenta índices menores, embora nenhuma região do país tenha eliminado completamente os lixões.

Segundo a pesquisadora, a desigualdade regional dificulta a aplicação uniforme das políticas públicas.

Dados ainda são desafio

A qualidade das informações também é apontada como um obstáculo para o avanço das políticas.

O levantamento nacional depende de dados fornecidos pelos próprios municípios, o que pode comprometer a precisão das informações.

Em 2024, cerca de 87,1% das cidades participaram da coleta de dados, avanço em relação a anos anteriores, mas ainda insuficiente para garantir um diagnóstico completo.

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