
O comprometimento da renda das famílias brasileiras com dívidas alcançou o maior patamar das últimas duas décadas, acendendo um sinal de alerta no sistema financeiro, no comércio e também no ambiente político. Dados recentes indicam que, desde o final de 2025, cerca de 29% da renda das famílias está direcionada ao pagamento de compromissos financeiros. Desse total, mais de 10% corresponde apenas aos juros, enquanto o restante é destinado à quitação do valor principal das dívidas.
Inadimplência cresce e pressiona orçamento
O aumento do endividamento vem acompanhado de um avanço significativo na inadimplência. O percentual de consumidores com atrasos superiores a 90 dias chegou a 6,9%, o maior índice registrado desde 2012.
O cenário reflete um orçamento cada vez mais apertado, especialmente para as famílias de menor renda, que têm recorrido com maior frequência a linhas de crédito mais caras. Entre as modalidades com maior índice de atraso estão o rotativo do cartão de crédito, o cheque especial e o parcelamento da fatura - justamente as opções com juros mais elevados e maior facilidade de acesso.
Crédito caro pesa mais para baixa renda
Especialistas apontam que o crescimento do endividamento está diretamente ligado ao aumento do uso de crédito de maior risco, principalmente entre consumidores com renda mais baixa. Esse grupo, por ter menor capacidade de poupança e maior vulnerabilidade a imprevistos, acaba sendo mais impactado pelas altas taxas de juros. Em muitos casos, a renda adicional obtida não se traduz em melhoria do consumo, mas sim no pagamento de dívidas acumuladas.
Nos últimos anos, a ampliação do acesso ao sistema financeiro também contribuiu para esse cenário, permitindo que mais brasileiros passassem a utilizar crédito - o que, embora positivo do ponto de vista da inclusão, traz riscos quando não há controle.
Impactos no varejo e na economia
O nível elevado de endividamento já começa a influenciar o comportamento do consumo. Empresas do varejo têm adotado uma postura mais cautelosa na concessão de crédito, diante do risco de inadimplência. A expectativa do setor é que o consumo, especialmente das famílias de menor renda, sinta os efeitos desse comprometimento financeiro ao longo do ano.
Além disso, o cenário pode impactar diretamente a percepção da população sobre a economia, mesmo em um contexto de desemprego baixo e renda em crescimento.
Reflexos no cenário político
Em ano eleitoral, o aumento do endividamento também passa a ter repercussões políticas. Pesquisas recentes apontam piora na percepção dos brasileiros sobre a situação econômica do país e também sobre suas próprias condições financeiras.
Analistas avaliam que, quando a renda é direcionada majoritariamente para o pagamento de dívidas, a sensação de bem-estar econômico não acompanha os indicadores positivos, como geração de emprego ou aumento salarial.
A perspectiva para os próximos meses é de possível redução gradual da inadimplência, impulsionada por programas de renegociação de dívidas e pela migração para linhas de crédito com juros mais baixos. No entanto, especialistas alertam que o cenário ainda exige cautela. A combinação de juros elevados, crédito caro e instabilidade econômica segue como um desafio para milhões de brasileiros.