
A combinação de juros elevados e aumento do endividamento corporativo tem levado grandes empresas brasileiras a renegociar dívidas e vender ativos para preservar caixa. Após os pedidos de recuperação extrajudicial do Grupo Pão de Açúcar e da Raízen, o cenário financeiro de grandes companhias voltou ao centro das preocupações do mercado.
Um levantamento da consultoria RK Partners aponta que 24% das empresas abertas brasileiras já não conseguem gerar caixa suficiente para pagar os juros de suas dívidas. O estudo analisou 282 companhias listadas na bolsa.
Além disso, 23% das empresas apresentam alavancagem entre três e seis vezes a relação dívida líquida/Ebitda, enquanto 24% têm alavancagem acima de seis vezes, patamar considerado elevado pelos analistas.
A principal explicação apontada por especialistas é o nível da taxa básica de juros. Atualmente, a Selic está em 15% ao ano, um dos maiores patamares das últimas duas décadas.
“Vemos que algumas empresas ficaram com uma alavancagem elevada diante de uma taxa Selic muito alta. Até 2022, tínhamos em média 25 empresas de grande porte pedindo recuperação judicial e extrajudicial por trimestre. Agora, estamos com um patamar de 50 empresas”, afirmou Ricardo Knoepfelmacher, sócio da RK Partners, em declaração ao Estadão.
Segundo ele, enquanto os juros permanecerem elevados, a tendência é que mais empresas precisem reestruturar suas dívidas.
“Essa é uma tendência enquanto a Selic tiver alta. As empresas estão com o balanço muito machucado. Vão ter de fazer um esforço para reestruturar o capital”, acrescentou.
Um exemplo recente da pressão financeira sobre grandes companhias é a situação da CSN, controlada pelo empresário Benjamin Steinbruch.
A empresa viu sua dívida líquida atingir R$ 41,2 bilhões no final de 2025, com alavancagem de 3,47 vezes a relação dívida líquida/Ebitda, acima do limite considerado confortável pelo mercado.
Quatro anos antes, em 2021, o cenário era completamente diferente. Naquele ano, a companhia registrou receita líquida de R$ 48 bilhões, Ebitda de R$ 22 bilhões e lucro líquido de R$ 13,6 bilhões, com alavancagem financeira de apenas 0,76 vez.
No entanto, o resultado mais recente mostrou deterioração financeira. A empresa encerrou 2025 com prejuízo de R$ 1,5 bilhão e fluxo de caixa livre negativo.
Diante do aumento do endividamento, a CSN iniciou um plano de venda de ativos para reduzir sua dívida líquida.
O objetivo é levantar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões, principalmente com a venda do controle da CSN Cimentos e de participações em ativos de infraestrutura.
“Continuamos compromissados com o processo de desalavancagem da CSN. Lançamos o plano em janeiro para vender a CSN Cimentos e uma participação minoritária na área de infraestrutura, e na busca de um parceiro para a nossa área de siderurgia. E temos outras alternativas”, afirmou Steinbruch ao Estadão.
Entre as movimentações recentes, a companhia vendeu 11% da participação na CSN Mineração para a trading japonesa Itochu por R$ 4,4 bilhões e transferiu 13% da participação na ferrovia MRS por R$ 3,35 bilhões.
A deterioração financeira da empresa também está ligada a uma estratégia agressiva de expansão nos últimos anos.
Entre 2021 e 2024, a CSN investiu bilhões em aquisições nos setores de cimento, energia e logística, incluindo a compra dos ativos da LafargeHolcim no Brasil por US$ 1,025 bilhão.
O problema é que esse movimento ocorreu justamente quando os juros começaram a subir.
Desde 2021, a Selic saiu de 2% ao ano para os atuais 15%, o que elevou drasticamente o custo da dívida corporativa. Apenas em 2025, a CSN pagou cerca de R$ 7 bilhões em juros, consumindo grande parte da geração de caixa.
Analistas observam que o caso da CSN reforça o alerta sobre o endividamento das grandes empresas brasileiras.
Após a divulgação dos resultados de 2025, as ações da companhia caíram mais de 14%, refletindo a preocupação dos investidores com a alavancagem financeira.
Relatório da XP Investimentos destacou que o nível de dívida da empresa continua sendo uma das principais preocupações do mercado.
Já analistas do Citi afirmaram que a situação financeira da companhia se tornou “ainda mais delicada”, exigindo medidas rápidas para melhorar sua estrutura de capital.
O ambiente de crédito mais restritivo também se reflete na inadimplência das empresas brasileiras.
Dados da Serasa Experian mostram que 2025 terminou com 8,9 milhões de empresas inadimplentes, o maior número da série histórica da instituição.
As dívidas negativadas somavam R$ 213 bilhões, aumento expressivo em relação aos 6,9 milhões de empresas inadimplentes registrados em 2024.
Especialistas alertam que a permanência de juros elevados pode criar um grupo crescente de empresas com dificuldade estrutural de pagar suas obrigações financeiras.
“O juro alto brasileiro está criando uma safra de empresas zumbis”, afirmou Haroldo da Silva, presidente do Corecon-SP, em declaração ao Estadão.