
Era início dos anos 70. Marechal Cândido Rondon ainda tinha cheiro de terra vermelha, barulho de carroça nas madrugadas frias, conversa boa nos bolichos e bailes animados nos salões de madeira. A cidade era feita de colonos, agricultores, famílias simples, gente que acordava cedo, trabalhava duro e buscava no domingo um pouco de festa, música conhecida e alegria sem complicação.
Foi nesse cenário que um quase desconhecido Raul Seixas resolveu aparecer por aqui.
Chegou com roupas estranhas, cabelo desalinhado, olhar inquieto e um jeito que não combinava muito com o chapéu de feltro, o vestido rodado, a música alemã, a gaita, a vaneira e o sertanejo raiz. Seu som vinha carregado de filosofia, contestação, poesia torta e provocações. Era outro mundo.
Nos bolichos, o assunto correu solto.
— Quem é esse sujeito?
— Que tipo de música é essa?
— Isso não é pra nós…
No salão, o público, acostumado aos ritmos tradicionais, estranhou. Houve conversa alta, dispersão, certo desconforto. Não por maldade, mas por incompreensão. Aquele artista parecia falar uma língua diferente. Era um choque entre o Brasil urbano em ebulição e a tranquilidade da vida interiorana.
Raul sentiu.
Na manhã seguinte, descia silencioso pela Rua Santa Catarina quando, em frente ao prédio da Rádio Difusora — que funcionava na antiga rodoviária —, encontrou o cantor Walter Basso. O olhar cansado denunciava frustração. Walter, com sua educação simples e acolhedora, fez o convite:
— Entra, Raul… vamos conversar um pouco.
Entre microfones, café quente e palavras gentis, veio o alento. Conversaram sobre música, estrada, sonhos, dificuldades. Walter ouviu mais do que falou. E naquele gesto simples, típico do interior, conseguiu tranquilizar o artista inquieto.
Raul seguiu viagem. Levou consigo talvez a lembrança de uma cidade que ainda não estava pronta para compreendê-lo.
Pouco tempo depois, o Brasil inteiro cantava Gita, Maluco Beleza, Ouro de Tolo e tantas outras canções que se tornaram eternas. O quase desconhecido transformou-se em lenda. E Marechal ficou guardada, discretamente, em uma das páginas menos conhecidas dessa história.
Hoje, quando alguém comenta sobre aquela passagem, é impossível não sorrir. Porque, sem saber, nossa cidade recebeu um gênio antes que o mundo o reconhecesse.
Foi assim que, certa vez, um maluco beleza caminhou pelas ruas tranquilas de Marechal Cândido Rondon — entre bolichos, salões e silêncios — deixando uma história que o tempo não apagou.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, o posicionamento editorial da Revista Especiais.