
O mercado de trabalho brasileiro vive um paradoxo. De um lado, o país acumulou aproximadamente 9 milhões de novos empregos com carteira assinada desde 2020. De outro, eliminou 322 mil postos de gerência e diretoria no mesmo período, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
A discrepância evidencia uma mudança estrutural no perfil das contratações e na organização das empresas.
Somente em 2025, o saldo de admissões para cargos de liderança ficou negativo em 112,3 mil postos. A tendência de queda vem se intensificando desde 2023, quando foram eliminadas 89,6 mil vagas de gerência e diretoria. Em 2024, o corte foi ainda maior: 98,3 mil posições extintas.
Enquanto isso, o mercado formal como um todo seguiu gerando empregos, com 1,2 milhão de vagas líquidas criadas apenas em 2025.
Os 9 milhões de empregos acumulados no período representam saldo líquido, ou seja, a diferença entre admissões e desligamentos. O volume total de movimentações é significativamente maior.
O Brasil possui historicamente alta taxa de rotatividade. Milhões de trabalhadores mudam de emprego todos os anos, especialmente em setores como serviços e comércio. Assim, parte das admissões ocorre por substituição e troca de vínculo empregatício.
Mesmo com essa dinâmica intensa, o saldo positivo indica que o estoque total de empregos formais cresceu. Porém, a estrutura das vagas está se transformando.
A redução de cargos gerenciais está associada ao avanço da digitalização e à reorganização interna das empresas.
Modelos mais horizontais diminuem níveis hierárquicos e ampliam a autonomia das equipes. Sistemas de gestão integrados, indicadores de desempenho em tempo real e automação permitem que menos gestores supervisionem mais colaboradores.
Esse movimento, que já era observado na década passada, ganhou força com a transformação digital acelerada nos últimos anos.
Empresas também buscam enxugar estruturas para reduzir despesas administrativas. Cargos intermediários passaram a ser reavaliados, e parte das funções de supervisão foi absorvida por tecnologias ou redistribuída entre equipes.
O resultado é um mercado que cresce em número total de empregos, mas encolhe em posições de liderança tradicional.
O fenômeno não é exclusivo do Brasil e acompanha tendências globais. Organizações cada vez mais orientadas por dados, eficiência operacional e modelos ágeis tendem a operar com menos camadas hierárquicas.
O cenário aponta para uma reconfiguração do perfil profissional exigido pelas empresas. Em vez de estruturas rígidas de comando, o mercado caminha para equipes multifuncionais, lideranças mais estratégicas e maior integração tecnológica.
O desafio, diante desse novo desenho, passa pela requalificação profissional e adaptação às exigências de um ambiente corporativo mais enxuto, digital e competitivo.