
Veja a entrevista completa no canal da Revista Especiais no YouTube
Criado em 2004 pelo Governo Federal, o programa Farmácia Popular ampliou o acesso da população a medicamentos essenciais por meio da parceria com farmácias privadas. No entanto, após mais de duas décadas de funcionamento, o modelo começa a enfrentar um movimento de retração: farmácias de diferentes regiões do país estão optando pelo descredenciamento do programa, alegando inviabilidade econômica.
Em Marechal Cândido Rondon e municípios vizinhos, o processo já está em curso desde o fim de 2025. Uma das unidades que decidiu deixar o programa foi a Cooperfarma Medilar. Segundo a proprietária, Gissele Marçal Lamberty, a decisão foi tomada após anos sem reajuste nos valores pagos pelo governo e diante de novos cortes anunciados para 2026.
De acordo com ela, a farmácia permaneceu credenciada por cerca de 12 anos, período em que os repasses federais não acompanharam os reajustes anuais da indústria farmacêutica. “Os medicamentos sobem todos os anos, especialmente a partir de abril, mas o valor pago pelo governo ficou congelado e, em alguns casos, foi reduzido”, explica.
A situação se agravou, segundo a empresária, com mudanças ocorridas ao longo de 2024 e 2025. Medicamentos que antes tinham copagamento - como a simvastatina e o dapagliflozina (Forxiga) - passaram a ser totalmente subsidiados, mas sem recomposição adequada do valor repassado às farmácias.
No caso das fraldas geriátricas, o cenário se tornou ainda mais crítico. A partir de fevereiro de 2026, o repasse federal será reduzido para cerca de R$ 13 por pacote, enquanto o custo de aquisição, considerando impostos, gira em torno de R$ 14,50. “Isso significa prejuízo direto. Em volumes altos, o impacto no caixa é insustentável”, afirma Gissele.
Diante desse cenário, a Cooperfarma Medilar optou por não renovar o credenciamento, cujo prazo expirou em outubro de 2025. A farmácia comunicou os clientes ainda em novembro e, desde dezembro, deixou de dispensar medicamentos pelo programa.
Com o descredenciamento de farmácias privadas, a orientação aos usuários é buscar as unidades básicas de saúde. Segundo a empresária, a maioria dos medicamentos contemplados pelo Farmácia Popular já está disponível nas farmácias públicas municipais, sob gestão das secretarias de saúde.
“O direito do cidadão permanece garantido pelo SUS. O que muda é o local de retirada”, pontua.
O movimento de saída do programa também expõe um desafio estrutural para farmácias independentes, especialmente no interior. Com margens cada vez mais estreitas e concorrência de grandes redes nacionais, a sustentabilidade do negócio exige novos modelos de gestão.
Gissele destaca que a permanência no mercado tem sido possível graças à atuação em rede associativista, como a Rede Cooper Farm, que oferece suporte em negociação, gestão e capacitação. “Sozinha, a farmácia independente encontra cada vez mais dificuldade para competir”, avalia.
Apesar da saída do programa federal, a empresária afirma que a decisão permitirá ampliar o atendimento personalizado aos clientes, diversificar o mix de produtos e investir em ações promocionais. “A farmácia segue sendo um espaço de cuidado, orientação e acolhimento. Com mais tempo e equilíbrio financeiro, conseguimos melhorar ainda mais esse serviço”.
Veja a entrevista completa no canal da Revista Especiais no YouTube