A longevidade e a busca por autonomia têm impulsionado um movimento expressivo no Paraná: o crescimento do empreendedorismo entre pessoas com mais de 60 anos. De acordo com um levantamento do Sebrae/PR, baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) - Terceiro Trimestre de 2024, do IBGE, cerca de 13% dos empreendedores do estado pertencem a essa faixa etária. Ao todo, são 213 mil negócios, um aumento de 9,2% em relação a 2016, quando eram 195 mil.
Dentre os setores de atuação, o de serviços lidera com 30% dos empreendimentos, seguido por comércio (24%) e agronegócio (23%). Os dados também revelam um desequilíbrio de gênero: 72% dos empreendedores sêniores são homens e 28% mulheres. Em média, o rendimento mensal desses negócios é de R$ 4.076.
A história de Maria José Soares Hobold (Maria das Massas), de 67 anos, moradora de Marechal Cândido Rondon, é um exemplo do potencial do empreendedorismo sênior. Após 20 anos trabalhando como cuidadora de idosos, ela decidiu transformar sua paixão por culinária em um negócio. Com o incentivo do filho, buscou o Sebrae/PR para entender como formalizar a produção de massas caseiras e, há quatro anos, tornou-se microempreendedora individual (MEI).
"No início foi difícil, mas percebi que não era impossível. O que não dava era para ficar parada. Sabia do meu potencial e do que poderia oferecer", afirma Maria. Hoje, ela administra o próprio negócio e atende uma clientela fiel na região.
Apesar do crescimento, a informalidade ainda é um desafio entre os empreendedores sêniores. O levantamento indica que 33,8% dos negócios são formalizados, enquanto 66,2% seguem na informalidade. Os dados também mostram que aqueles que regularizam suas empresas alcançam um rendimento médio mensal de R$ 7.655, valor 71% maior do que o dos informais, que ganham em torno de R$ 2.246.
Letícia Monteiro Pimentel, coordenadora de Relacionamento com Clientes do Sebrae/PR, destaca que o envelhecimento populacional não significa inatividade. "Muito pelo contrário, é uma fase produtiva e inovadora. O trabalho e o propósito caminham juntos, agregando experiência, resiliência e gestão estruturada", explica. "Nosso compromisso é fortalecer esse ecossistema por meio de capacitação e suporte".
Aos 68 anos, a professora universitária aposentada Aneli Dekker também encontrou no empreendedorismo uma nova jornada. Com uma carreira de três décadas na Universidade Estadual de Londrina (UEL), ela decidiu transformar sua experiência acadêmica em um negócio inovador: uma linha de cosméticos à base de Beta-Glucana, substância com propriedades rejuvenescedoras.
Em 2020, fundou a Beta-Glucan Biotecnologia, instalada na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), em Londrina. A marca já comercializa produtos em farmácias locais e está em expansão. "Nunca me imaginei como empresária, mas vi no empreendedorismo uma forma de levar minha pesquisa para mais pessoas", conta Aneli.
Os dados da Receita Federal indicam que 83% dos empreendimentos liderados por pessoas acima de 60 anos no Paraná são micro e pequenos negócios. Desse total, 25% são microempreendedores individuais (MEIs), 48% são microempresas e 10% pertencem a empresas de pequeno porte.
Para Lori de Paula, empreendedora do setor de assistência técnica em Curitiba, a maior barreira foi a gestão financeira. Com 67 anos e mais de duas décadas de experiência, ela percebeu que precisava modernizar a administração do negócio para crescer.
"Sempre trabalhei no vermelho, até que percebi a necessidade de aprender sobre gestão. Busquei o Sebrae/PR e, com orientação, passei a planejar melhor as atividades. Agora, espero um crescimento de 20 a 25% para 2025", afirma Lori.
Com previsões indicando que, até 2030, haverá mais idosos do que crianças no Brasil, o empreendedorismo sênior deve ganhar ainda mais relevância. Fernanda Robes, consultora do Sebrae/PR, destaca que 91,5% dos negócios liderados por pessoas com mais de 60 anos no estado já estão ativos há mais de dois anos.
"O empreendedorismo na terceira idade já é uma realidade consolidada no Paraná. No entanto, a informalidade ainda é um obstáculo, afetando o acesso a crédito e novos mercados", alerta Fernanda. E complementa: "Com mais conscientização e suporte, esse público pode fortalecer ainda mais a economia paranaense".