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Milho sagrado volta às aldeias Avá Guarani no Oeste

Parceria entre comunidades, Unioeste, Embrapa e Capa recupera variedades tradicionais e amplia a multiplicação de sementes em Guaíra e Terra Roxa

Por: João Livi Fonte: Assessoria
16/10/2026 às 17h09
Milho sagrado volta às aldeias Avá Guarani no Oeste
Variedades tradicionais de milho voltam a ser cultivadas e compartilhadas por comunidades Avá Guarani de Guaíra e Terra Roxa. (Foto: Divulgação)

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Variedades tradicionais de milho consideradas sagradas pelos Avá Guarani voltaram a ser cultivadas em comunidades de Guaíra e Terra Roxa, no Oeste do Paraná. A recuperação das sementes Saboró Branco e Saboró Preto reúne agricultores indígenas, pesquisadores e instituições em um trabalho de preservação de alimentos, conhecimentos e práticas espirituais.

Um dos resultados foi a colheita de 60 espigas de Saboró Preto a partir de uma única espiga utilizada no plantio. Parte da produção foi distribuída a mais 3 agricultores, ampliando a rede comunitária de multiplicação e conservação da variedade.

A iniciativa teve origem em uma demanda do Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (Capa) de Marechal Cândido Rondon. Entre 13 e 15 de setembro de 2023, estudantes e professores do doutorado em Desenvolvimento Rural Sustentável da Unioeste realizaram um diagnóstico em nove aldeias de retomada Avá Guarani, identificando a perda de variedades agrícolas tradicionais.

Parceria aproxima comunidades e recupera sementes

Entre os participantes do diagnóstico estava Alberto Feiden, pesquisador da Embrapa Pantanal e professor, por convênio, das disciplinas de Métodos Interdisciplinares e Participativos e Seminários II da Unioeste. Segundo ele, o levantamento revelou que as perdas incluíam sementes de milho com significado sagrado para as comunidades.

O Saboró Branco e o Saboró Preto foram recuperados por meio de uma articulação entre a Embrapa Pantanal e o banco de sementes da escola indígena Jaguapiru, em Dourados, no Mato Grosso do Sul. Feiden ressalta que as instituições públicas atuaram como intermediárias entre as comunidades, sem acesso às sementes.

A retomada do cultivo está ligada à alimentação e às cerimônias religiosas. O milho é consumido assado e cozido e utilizado no preparo de pamonha, rorá, canjica e chicha, alimentos associados a conhecimentos transmitidos entre gerações.

Isolamento busca preservar as variedades tradicionais

Para reduzir os riscos de cruzamento com milho transgênico e de exposição a agrotóxicos utilizados em lavouras vizinhas, o plantio foi realizado em uma área mais baixa da aldeia, com maior umidade e distância das propriedades do entorno.

Durante o desenvolvimento da cultura, não foram observados ataques de pragas, conforme o relato apresentado pelo pesquisador. As plantas alcançaram entre 1,80 e 2 metros de altura. Após a colheita, as espigas foram despalhadas e penduradas sobre o fogão, utilizando a fumaça como parte do método tradicional de conservação.

A continuidade do trabalho prevê dois plantios em períodos diferentes, no início de setembro e no início de outubro, para reduzir os riscos de perdas por eventos climáticos. Em cada época, serão utilizadas sementes de dez espigas, enquanto outras dez permanecerão como reserva.

Manejo combina conhecimentos e diversidade de cultivos

O planejamento considera a realização dos plantios na lua minguante. Segundo o conhecimento tradicional relatado pelo agricultor, o plantio e a colheita nessa fase ajudam a evitar o ataque de carunchos.

O milho também é cultivado em consórcio com outras espécies. Uma das combinações envolve o feijão-de-corda, que utiliza as plantas do cereal como suporte e mantém as vagens afastadas do solo. A mandioca também pode integrar o cultivo.

Para Feiden, produzir, selecionar e conservar as próprias sementes amplia a autonomia das comunidades sobre o que plantar e consumir. A prática também reduz a dependência de sementes comerciais e mantém conhecimentos próprios de manejo da terra.

Partilha sustenta a conservação comunitária

O cacique Raúl Medina, da aldeia Tokoha YvY Raty Porã, explica que o cultivo está orientado prioritariamente à alimentação da comunidade e à continuidade de suas práticas culturais. “A cultura guarani valoriza a suficiência e a partilha. O milho é cultivado para alimentar a comunidade, não para gerar lucro.”

A distribuição das espigas entre agricultores permite que outras famílias reproduzam as variedades e compartilhem novas sementes. Segundo Feiden, essa circulação forma uma rede de conservação sustentada pela participação das próprias comunidades.

Raúl Medina relaciona as variedades agrícolas ao Ñande Reko, expressão Guarani traduzida como “nossa vida” ou “nosso modo de viver”. A próxima etapa da iniciativa será ampliar a multiplicação das sementes, mantendo áreas de cultivo protegidas, plantios em épocas distintas e reservas para as safras seguintes.

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