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De bicicleta pelas estradas de chão

Entre a Monark, a poeira das estradas e os encontros de domingo, pequenas aventuras guardavam os primeiros encantos da juventude no interior

Gelsiney Schell
Por: Gelsiney Schell
21/08/2026 às 07h54
De bicicleta pelas estradas de chão
Imagem criado pelo autor por IA.

E o jovem vinha pedalando.

Na descida, segurava no freio de pé. Na subida, diminuía o ritmo e apertava os pedais.

A Monark avançava pela estrada de chão.

Quando a corrente estava meio frouxa, uma pedalada mais forte era suficiente para ela cair.

Ari parava.

Descia, virava a bicicleta de lado e procurava a corrente.

As mãos ficavam pretas.

A graxa grudava nos dedos. Ele encaixava a corrente, girava o pedal com a mão, conferia e seguia.

Mais adiante, se a estrada estivesse livre, dava uma pedalada mais forte, puxava o guidão para trás e levantava a roda dianteira.

Uma empinadinha.

A piazada olhava.

— Lá vai ele...

Ari continuava pedalando.

A Monark era nova. Verde. Os paralamas tinham de estar limpos, e o para-barro, no lugar.

Flanela fazia parte da rotina.

Barro, só quando não havia jeito.

Nas estradas do interior, bastava um pouco de chuva para os paralamas “embucharem”. A roda começava a travar, e a bicicleta, que saíra limpa de casa, voltava coberta de terra.

Por isso, quando o pé do vô doía ou alguma junta do braço começava a reclamar, era melhor ficar no sítio.

Mas havia domingos em que não dava.

Num desses, Ari saiu cedo.

Do Apepú para Bom Jardim.

Nas baixadas, deixava a bicicleta correr. Nas subidas, apertava o pedal.

Chegou à igreja.

Desceu.

Apoiou a Monark no pezinho e entrou.

Cantou com a comunidade.

Ouviu o sermão.

Do lado de fora, a bicicleta esperava.

Quando o culto terminou, os rapazes começaram a sair.

Ari passou a mão na camisa listrada, ajeitou-a por dentro da calça e apertou o cinto marrom.

Olhou para os sapatos.

Estavam lustrados.

As meias pretas apareciam logo acima.

Montou na Monark.

Dessa vez, porém, não foi para casa.

Ainda havia outro caminho.

Ia nas meninas.

Bem...

Não propriamente meninas.

Mas menina.

Chegava falando do sermão do pastor.

E sempre tinha alguma coisa para falar.

— Mas o harmônio da igreja tá com o fole vazando.

Sentava no banco de madeira.

Ela de um lado.

Ari do outro.

E o irmão mais novo dela no meio.

Sempre havia um irmão.

Ari levava caramelo no bolso.

Tirava um para o maninho e outro para ela.

Na troca, as mãos se encontravam.

Por alguns segundos.

Depois o caramelo desaparecia.

E a mão também.

No fim da tarde, Ari montava novamente na Monark.

O banco rangia nas molas.

Pedalava devagar pela estrada de chão.

Chegou em casa, levou a bicicleta até o paiol e a encostou no lugar de sempre.

Soltou o guidão.

Olhou para as mãos.

Ainda estavam pretas de graxa.

Ari sorriu.

E entrou.

 

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