
As exportações brasileiras de produtos atingidos pela nova tarifa mexicana registraram queda de 42,5% no primeiro semestre de 2026, em comparação com a média do mesmo período dos três anos anteriores. O recuo equivale a US$ 91,5 milhões, segundo levantamento divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).
A medida faz parte do Programa de Protección para las Industrias Estratégicas, implementado pelo governo do México em janeiro deste ano. A política elevou o imposto de importação de 1.463 códigos tarifários, com taxas que, em alguns casos, ultrapassam 50%.
De acordo com a CNI, cerca de US$ 665 milhões em exportações brasileiras podem ser diretamente afetados. Entre os países que não possuem acordo de livre comércio com o México, o Brasil passou a ser o 5º mais exposto à medida.
A avaliação da CNI é que o aumento tarifário compromete a integração produtiva entre Brasil e México e reduz a competitividade de bens industriais brasileiros no mercado mexicano.
A entidade defende a isenção dos produtos brasileiros das novas tarifas e o avanço nas negociações de um acordo de livre comércio entre os dois países.
Segundo a CNI, um acordo poderia neutralizar os impactos da medida tarifária, acrescentar US$ 13,8 bilhões ao PIB conjunto, ampliar em US$ 3,2 bilhões o comércio bilateral e atrair cerca de US$ 8 bilhões em investimentos.
Para a gerente de Comércio e Integração Internacional da CNI, Constanza Negri, o momento exige intensificação do diálogo entre os governos.
“O aumento de tarifas para alguns produtos preocupa a indústria brasileira e vai na contramão do que o setor busca com o país: aprofundar a relação bilateral e avançar nas negociações de um acordo comercial”, afirma.
Ela destaca que o México é um parceiro estratégico para o Brasil, especialmente em um cenário de busca por maior diversificação das relações comerciais.
“Isentar os produtos brasileiros da taxação e destravar essas negociações são passos essenciais para preservar a competitividade e ampliar as oportunidades de negócio”, completa.
O levantamento mostra que os impactos da nova tarifa atingem principalmente bens intermediários, ou seja, insumos utilizados por cadeias produtivas.
Do total da queda registrada nas exportações brasileiras afetadas, 78,1% correspondem a bens intermediários.
Entre janeiro e junho de 2026, dos 171 produtos brasileiros atingidos pela tarifa e exportados para o México, 113 tiveram piora no desempenho de vendas.
A queda nas exportações se concentrou em segmentos industriais relevantes.
O setor de veículos automotores respondeu por 51,8% do recuo. Em seguida aparecem produtos de borracha e material plástico, com 9,1%; metalurgia, com 8%; couros e calçados, com 7,4%; químicos, com 5,9%; celulose e papel, com 5,8%; e máquinas e equipamentos, com 5,6%.
Produtos específicos também registraram forte retração. No primeiro quadrimestre, tubos de ferro ou aço usados em oleodutos e gasodutos tiveram queda de 100% nas exportações brasileiras para o México, interrompendo totalmente as vendas desses itens.
A análise da CNI identificou 474 oportunidades comerciais para a indústria de transformação brasileira exportar ao México.
Os produtos foram mapeados com base na competitividade brasileira no comércio internacional e na complementaridade com a pauta de importações mexicana.
Entre os setores com maior potencial estão químicos, com 18,8% das oportunidades; máquinas e equipamentos, com 17,3%; alimentos, com 9,9%; produtos de metal, com 6,1%; produtos de borracha e material plástico, com 6,1%; e veículos automotores, com 5,3%.
Apesar do potencial identificado, a presença de tarifas reduz a capacidade de aproveitamento das oportunidades comerciais.
Das 474 oportunidades mapeadas, 456, o equivalente a 90,3%, estão sujeitas a tarifas de importação no México.
A maior concentração ocorre nos setores de químicos, máquinas e equipamentos e alimentos, o que reforça, segundo a CNI, a necessidade de avançar em um acordo comercial entre os dois países.
O impacto da tarifa mexicana será apresentado ao governo brasileiro durante reunião virtual da seção brasileira do Conselho Empresarial Brasil-México (Cebramex).
O encontro será liderado pela presidente do Conselho e vice-presidente de Reputação, Sustentabilidade, Jurídico e Corporate Affairs da Natura, Ana Beatriz Macedo da Costa.
Também participam o diretor do Departamento do Mercosul do Ministério das Relações Exteriores, embaixador Francisco Cannabrava; a diretora do Departamento de Negociações Internacionais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Ana Cláudia Takatsu; e representantes do setor privado.
Além da isenção dos produtos brasileiros da nova tarifa mexicana e do avanço no acordo de livre comércio, a CNI recomenda o cumprimento e a ampliação do Acordo de Reconhecimento Mútuo de Operadores Econômicos Autorizados, a eliminação de barreiras no comércio bilateral e o fortalecimento da cooperação regulatória entre Brasil e México.