
A evolução arquitetônica de Marechal Cândido Rondon está diretamente relacionada à chegada e à atuação de profissionais de arquitetura e engenharia. Ao longo das últimas décadas, o município deixou para trás um padrão construtivo mais simples e passou a incorporar novos projetos, materiais, técnicas e conceitos urbanísticos.
Um dos profissionais que acompanha essa transformação é o arquiteto Ricardo Luis Leites de Oliveira, que há 24 anos atua no município. Rondonense, ele retornou à cidade em 2002 após concluir a faculdade e foi o quinto arquiteto a se estabelecer profissionalmente em Marechal Cândido Rondon. Hoje, segundo ele, são mais de 120 arquitetos em atividade no município e quase 200 na região.
Em entrevista ao portal da Revista Especiais, Ricardo falou sobre arquitetura, verticalização, trânsito, expansão urbana, Plano Diretor e os desafios para garantir que o crescimento da cidade ocorra de forma planejada.
Até a década de 1980, grande parte das construções em Marechal Cândido Rondon seguia modelos mais tradicionais, muitas vezes executados sem a participação direta de profissionais formados em arquitetura ou engenharia. Com a chegada desses profissionais, novas tendências passaram a ser incorporadas ao cenário urbano.
Ricardo explica que esse processo não ocorreu apenas em Marechal Cândido Rondon, mas em toda a região e no Paraná. O aumento no número de arquitetos e engenheiros trouxe novos modelos construtivos, soluções técnicas, materiais e formas de pensar a edificação.
Segundo ele, a presença desses profissionais contribuiu para elevar a qualidade das obras e ampliar a diversidade arquitetônica do município.
Atualmente, o estilo contemporâneo predomina em muitas novas construções de Marechal Cândido Rondon. Entre as características estão telhados embutidos, linhas mais retas, beirais discretos e fachadas com linguagem moderna.
Ao mesmo tempo, ainda há obras com telhados aparentes, inclinações maiores e inspiração em estilos europeus. Ricardo observa que essa arquitetura, incluindo referências ao enxaimel, exige maior investimento e mão de obra mais qualificada.
O custo é um dos fatores que reduziu a adoção desse tipo de construção. Telhados com grande inclinação, por exemplo, demandam equipes preparadas para trabalhar em altura e em planos inclinados, o que eleva o valor final da obra.
Ricardo avalia que Marechal Cândido Rondon possui um bom padrão de construção. Segundo ele, o município conta com profissionais qualificados tanto na elaboração de projetos quanto na execução das obras.
Além de arquitetos e engenheiros, ele cita a presença de bons pedreiros, carpinteiros, eletricistas, encanadores e demais profissionais da construção civil. Essa cadeia de trabalho contribui para que o município mantenha um nível construtivo considerado positivo em comparação com cidades da região.
Para o arquiteto, a combinação entre projeto técnico e execução qualificada é essencial para manter a evolução urbana e arquitetônica.
Nos últimos anos, Marechal Cândido Rondon passou a registrar maior presença de edifícios e empreendimentos verticais. A tendência, comum em cidades maiores, também começa a ganhar espaço no município.
Ricardo explica que a verticalização está relacionada principalmente ao custo dos terrenos. Mesmo em bairros mais afastados, os novos loteamentos têm apresentado valores elevados, em razão do preço das áreas destinadas ao parcelamento.
Com isso, lotes em regiões centrais passam a ser melhor aproveitados para construções com maior adensamento, como edifícios e conjuntos de moradias. Segundo ele, o Plano Diretor indica que Marechal Cândido Rondon ainda pode praticamente dobrar sua população sem necessidade imediata de ampliar o perímetro urbano.
A organização do crescimento urbano é um dos pontos centrais abordados por Ricardo. Ele explica que o Plano Diretor busca evitar vazios urbanos, ou seja, loteamentos isolados e distantes da malha consolidada da cidade.
Esse cuidado é importante porque áreas afastadas exigem investimentos em infraestrutura, como água, esgoto, coleta de lixo, escolas, vias públicas e serviços urbanos. Quando há grandes espaços vazios entre a cidade e um novo loteamento, o custo para o município aumenta.
Por isso, novos loteamentos devem estar dentro do perímetro urbano e anexos a áreas já urbanizadas. A medida busca garantir crescimento contínuo, organizado e financeiramente viável para a administração pública.
Sobre o trânsito de Marechal Cândido Rondon, Ricardo afirma que quem já morou em cidades maiores não encontra grandes dificuldades para circular no município. No entanto, ele reconhece que há problemas ligados ao comportamento dos motoristas.
Um dos pontos citados é a compreensão do funcionamento das rotatórias. Segundo ele, ainda existe a cultura de que quem está na avenida tem preferência, quando, nas rotatórias, a preferência é de quem já circula ou ingressa pela esquerda, conforme a dinâmica do tráfego.
Ricardo observa que acidentes em alguns pontos ocorrem principalmente por excesso de velocidade e falta de atenção. Para ele, a solução passa por educação no trânsito, respeito às regras e mudança de comportamento.
O arquiteto também comentou a presença crescente de bicicletas, motos elétricas e patinetes elétricos. Segundo ele, esses veículos trouxeram novos desafios ao trânsito das cidades, porque nem sempre seguem padrões previsíveis de circulação.
Ricardo avalia que os patinetes elétricos, especialmente, exigem regulamentação mais clara. Ele cita situações em que usuários circulam em calçadas, contramão ou em faixas de veículos sem respeitar normas básicas de segurança.
Para ele, o problema não é exclusivo de Marechal Cândido Rondon. A chegada rápida desses equipamentos surpreendeu muitos municípios, que ainda precisam criar regras para organizar o uso e reduzir riscos.
Ricardo também destacou sua atuação na Associação Regional de Engenheiros e Arquitetos, da qual participa desde 2002. Desde 2004, integra diretorias da entidade, tendo ocupado diferentes funções, como vice-presidente, presidente e diretor.
Ele também atuou por cinco anos como conselheiro de arquitetura junto ao Crea e, posteriormente, por nove anos como conselheiro do CAU, após a criação do conselho próprio dos arquitetos. Ao todo, foram 14 anos de participação em conselhos estaduais em Curitiba.
Na avaliação dele, entidades profissionais e conselhos contribuem para qualificar o debate técnico e fortalecer a atuação de arquitetos e engenheiros no desenvolvimento urbano.
Ricardo ressalta que arquitetos e engenheiros têm papel direto na organização do crescimento das cidades. Em Marechal Cândido Rondon, a Secretaria de Planejamento é comandada por um arquiteto e conta com equipe formada por profissionais das áreas de arquitetura e engenharia.
Segundo ele, nos últimos 10 a 15 anos houve avanço importante no planejamento urbano do município. A preocupação com continuidade de ruas, alargamento de vias, novas avenidas e organização de loteamentos passou a ser mais presente.
Um exemplo citado é a região oeste da cidade, que deverá receber novos loteamentos e sete novas avenidas. Para Ricardo, esse planejamento já considera o crescimento do trânsito e a necessidade de evitar problemas futuros.
Atualmente, Ricardo preside o Conselho do Plano Diretor de Marechal Cândido Rondon. Ele explica que qualquer demanda que não esteja de acordo com as leis urbanísticas do município precisa passar pelo conselho, que avalia a viabilidade técnica.
Alterações no Plano Diretor não podem ocorrer apenas por decisão política. Mesmo mudanças pontuais exigem audiência pública, análise da população, encaminhamento à Câmara de Vereadores e posterior aprovação pelo Executivo.
Segundo Ricardo, há pedidos de revisão de alguns pontos, mas por se tratar de ano eleitoral, eventuais alterações podem ficar para 2027.
A tendência de expansão urbana de Marechal Cândido Rondon, conforme Ricardo, está concentrada na região oeste. Ele menciona áreas próximas à Linha Peroba, onde diversas chácaras estão em processo de parcelamento e loteamento.
A expectativa é de que, nos próximos anos, entre 500 e até mil lotes possam ser liberados, após a conclusão da documentação e análise pela prefeitura.
Mesmo assim, ele reforça que o município ainda possui áreas dentro do perímetro urbano capazes de absorver crescimento populacional significativo, sem necessidade de expansão desordenada.
Ricardo também abordou a situação de áreas adquiridas por grupos de pessoas com intenção de formar condomínios ou futuros loteamentos. Segundo ele, quando a área está dentro do perímetro urbano e não gera vazio urbano, pode ser loteada desde que cumpra as diretrizes legais.
A situação é diferente quando a área está fora do perímetro urbano. Nesse caso, não há possibilidade de loteamento regular enquanto a legislação não permitir. Ampliar excessivamente o perímetro urbano também pode prejudicar áreas agrícolas, que perderiam sua função produtiva e enfrentariam restrições de uso.
Para o arquiteto, é preciso equilibrar o direito ao crescimento urbano com a preservação da atividade rural e a responsabilidade técnica do planejamento.
Rondonense, Ricardo afirma que sempre acreditou no desenvolvimento de Marechal Cândido Rondon. Depois de estudar em Curitiba, retornou ao município por confiar no potencial da cidade e na possibilidade de exercer sua profissão contribuindo com o crescimento local.
Ele destaca que os profissionais de arquitetura e engenharia buscam tornar a cidade mais bonita, organizada e preparada para o futuro. O objetivo, segundo ele, é deixar para as próximas gerações um município desenvolvido, acolhedor e com menos problemas urbanos.
Aos 66 anos de Marechal Cândido Rondon, Ricardo reforça a importância do planejamento, da técnica e da responsabilidade coletiva para que a cidade continue crescendo de forma ordenada.