Quarta, 27 de Maio de 2026
15°C 24°C
Marechal Cândido Rondon, PR
Publicidade

Superintendente da Fiep, João Arthur Mohr, destaca logística como desafio central para a indústria do Oeste

Em entrevista à Revista Especiais, superintendente da Fiep falou sobre Porto de Paranaguá, ferrovia, pedágios, energia elétrica, força da agroindústria regional e oportunidades com o acordo Mercosul-União Europeia

Por: João Livi
27/05/2026 às 13h27 Atualizada em 27/05/2026 às 13h54
Superintendente da Fiep, João Arthur Mohr, destaca logística como desafio central para a indústria do Oeste
Superintendente da Fiep, João Arthur Mohr, concedeu entrevista à Revista Especiais durante evento do Dia da Indústria em Marechal Cândido Rondon.

A logística é um dos principais desafios para ampliar a competitividade da indústria do Oeste do Paraná. A avaliação é do superintendente da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), João Arthur Mohr, que esteve em Marechal Cândido Rondon na manhã desta quarta-feira, dia 27 de maio, durante evento promovido pela Acimacar em comemoração ao Dia da Indústria.

Em entrevista à Revista Especiais, Mohr destacou que a região Oeste possui uma das cadeias produtivas mais fortes do Estado, especialmente na produção de proteína animal, mas ainda enfrenta gargalos importantes para escoar grãos, farelo, óleo e carnes industrializadas até os portos e mercados consumidores.

Segundo ele, a solução passa pela ampliação da capacidade do Porto de Paranaguá, pela modernização da malha ferroviária, pela duplicação de rodovias estratégicas e por melhorias na estrutura de energia elétrica, especialmente para produtores rurais e agroindústrias.

Escoamento da produção

Para João Arthur Mohr, o Oeste do Paraná deixou de ser apenas uma região produtora de grãos e passou a ocupar papel estratégico na industrialização de alimentos. A soja e o milho, antes exportados com baixo processamento, hoje são transformados em farelo, óleo, ração e proteína animal.

“O principal ponto é o escoamento da nossa safra, seja grãos, soja, milho, farelo, óleo, mas principalmente a proteína animal. Nós somos o maior produtor de proteína animal do mundo, na região Oeste do Paraná, e precisamos ter esse escoamento”, afirmou.

Continua após a publicidade
Anúncio

O superintendente observou que a dependência atual das rodovias, muitas ainda em pista simples, eleva custos e reduz competitividade. Para ele, o avanço logístico precisa combinar investimentos em rodovias, ferrovia e estrutura portuária.

Porto de Paranaguá

Ao tratar do Porto de Paranaguá, Mohr destacou obras consideradas essenciais para ampliar a capacidade de exportação do Paraná. Entre elas está a dragagem de aprofundamento do canal de acesso, que deve passar de 13 para 15 metros.

Segundo ele, o aumento da profundidade permitirá receber navios maiores, dobrando a capacidade de transporte em alguns segmentos. No caso dos grãos, embarcações de 50 mil toneladas poderão ser substituídas por navios de até 100 mil toneladas. Já no transporte de contêineres, a capacidade poderá passar de cerca de 8 mil TEUs para 12 mil ou 13 mil TEUs.

“Com o aumento do tamanho dos navios, reduzimos o custo unitário do transporte. É uma obra importantíssima”, destacou.

Mohr também citou a construção de novos berços de atracação e a necessidade de um segundo terminal de contêineres no Paraná, além da expansão do atual TCP. Segundo ele, o crescimento da indústria do Oeste, especialmente da proteína animal que depende de contêineres refrigerados, exige maior capacidade portuária.

Ferrovia e Serra da Esperança

Outro ponto central da entrevista foi a ferrovia. Mohr explicou que, atualmente, há uma malha que liga Cascavel a Guarapuava e outra que conecta o Norte do Paraná a Paranaguá, mas com limitações operacionais importantes.

O principal gargalo apontado é a Serra da Esperança, trecho com curvas fechadas e rampas íngremes, que limita o tamanho dos trens, reduz a velocidade e impede o transporte de determinados produtos.

A proposta defendida pela Fiep e por entidades do setor produtivo envolve a reorganização da concessão ferroviária da Malha Sul, que vence em fevereiro de 2027. A ideia é dividir a malha em duas partes, sendo uma voltada ao Paraná e Norte de Santa Catarina e outra ao Rio Grande do Sul.

Mohr defende a unificação da operação ferroviária do Norte e do Oeste do Paraná, com novo modelo de contrato, mais favorável aos usuários e capaz de garantir maior oferta de vagões para a região.

Uma vez resolvido o gargalo da Serra da Esperança, a proposta é avançar em uma segunda fase com a expansão dos trilhos de Cascavel para Toledo, Marechal Cândido Rondon, Guaíra e, futuramente, Mato Grosso do Sul.

Rodovias e pedágios

Ao falar sobre as rodovias, Mohr lembrou que a BR-163 é hoje um dos principais corredores de transporte da produção regional. Ele destacou que a Fiep atuou nos debates sobre o novo modelo de concessões rodoviárias, defendendo ausência de limite de desconto no leilão, retirada da outorga e contratos com obras efetivas.

Segundo ele, no Lote 5, que abrange trechos importantes para a região Oeste, o desconto tarifário chegou a 23%, e aproximadamente R$ 400 milhões permaneceram vinculados ao próprio lote para obras não previstas originalmente.

 

Entre as obras previstas estão a duplicação entre Marechal Cândido Rondon e Guaíra. O trecho entre Marechal e Mercedes deverá ser concluído em até quatro anos; de Mercedes a Bela Vista, em mais um ano; e de Bela Vista a Guaíra, no ano seguinte. Também está previsto o contorno de Guaíra, para retirar o tráfego pesado de dentro da cidade.

Além das duplicações, o contrato prevê viadutos, retornos com segurança, iluminação, ciclovias, vias marginais e estruturas para separar o tráfego urbano do tráfego rodoviário.

Free flow na BR-163

Mohr também explicou que a cobrança de pedágio no trecho entre Cascavel, Toledo, Marechal Cândido Rondon e Guaíra será feita pelo sistema eletrônico de livre passagem, conhecido como free flow.

Nesse modelo, não haverá praça física tradicional. O motorista passará por portais eletrônicos que farão a leitura do tag instalado no veículo. Quem não tiver tag terá a placa fotografada e deverá pagar posteriormente pelo aplicativo, site da concessionária ou pontos físicos disponibilizados.

Segundo o superintendente da Fiep, haverá um período inicial de sete meses sem aplicação de multa para adaptação dos usuários. Ainda assim, a tarifa deverá ser paga.

Ele recomenda o uso do tag eletrônico, que dará 5% de desconto na tarifa. Para veículos de passeio, também haverá desconto de usuário frequente, voltado a quem utiliza o mesmo trajeto várias vezes no mês.

Energia elétrica no campo

Outro tema abordado foi a instabilidade no fornecimento de energia elétrica no Oeste do Paraná. Mohr destacou que a região sofre com frentes frias, ventos fortes, vegetação próxima às redes e linhas antigas, fatores que contribuem para quedas frequentes.

Segundo ele, a Fiep tem trabalhado junto à Copel em uma força-tarefa com três prioridades: poda de vegetação próxima às redes, reforço das equipes de pronto atendimento e priorização de propriedades rurais classificadas como eletrodependentes.

Mohr comparou a situação de produtores de aves, suínos e peixes à de pessoas que dependem de equipamentos elétricos para sobreviver. Nas propriedades rurais modernas, a falta de energia pode comprometer ventilação, abastecimento de água, oxigenação de tanques e funcionamento de equipamentos essenciais.

“A propriedade rural do Oeste do Paraná hoje é eletrodependente. O produtor rural hoje é uma indústria rural”, afirmou.

Oeste como potência industrial

Na avaliação de João Arthur Mohr, o Oeste do Paraná tem apresentado um dos maiores crescimentos industriais do Estado nos últimos anos. Ele destacou a transformação da região, que deixou de exportar apenas matéria-prima agrícola e passou a agregar valor por meio da industrialização.

O superintendente citou a força da proteína animal, das cooperativas, da agroindústria, da tecnologia aplicada ao campo e de setores associados, como silos, equipamentos, máquinas agrícolas, drones e metalmecânica.

Segundo ele, a região Oeste ocupa posição de destaque no crescimento do PIB industrial paranaense e tornou-se exemplo de eficiência e produtividade.

“O Oeste tem dado um show de eficiência, um show de produtividade. Isso acaba atraindo outras indústrias”, destacou.

Mercosul e União Europeia

Mohr também comentou as oportunidades abertas pelo acordo entre Mercosul e União Europeia. Para ele, o entendimento amplia possibilidades de acesso a mercados, parcerias tecnológicas e joint ventures entre empresas paranaenses e europeias.

A Fiep lançou o programa Paraná for Business, voltado a estimular conexões entre indústrias do Paraná e empresas internacionais. A ideia é aproximar tecnologias europeias de empresas paranaenses, permitindo produção local, ganho de produtividade e acesso a novos mercados.

Segundo Mohr, o acordo reduz tarifas de importação de ambos os lados ao longo de até 15 anos. Alguns produtos terão redução imediata, enquanto outros terão queda gradual em períodos de quatro, oito, 12 ou 15 anos.

Ele ressalta, porém, que a indústria brasileira precisará estar atenta a exigências fitossanitárias e barreiras não tarifárias impostas por mercados internacionais.

Agenda de futuro

A entrevista reforçou que o desenvolvimento da indústria do Oeste depende de uma agenda integrada entre logística, energia, infraestrutura, inovação, qualificação e acesso a mercados.

Para João Arthur Mohr, o Oeste do Paraná já demonstrou capacidade produtiva e industrial. O desafio agora é garantir condições estruturais para que essa produção seja transportada com menor custo, maior segurança e mais competitividade.

Ao tratar de portos, ferrovias, rodovias, energia e comércio internacional, o superintendente da Fiep apontou que o setor produtivo regional tem força para seguir crescendo, desde que os investimentos estratégicos avancem e os gargalos sejam enfrentados com planejamento.

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários