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Pesquisa aponta que 56% dos jovens deixam o primeiro emprego sem plena autonomia

Levantamento do Instituto PROA alerta para falhas de adaptação, liderança e perspectiva de crescimento, além do custo invisível da rotatividade para empresas

Por: João Livi
26/05/2026 às 13h12
Pesquisa aponta que 56% dos jovens deixam o primeiro emprego sem plena autonomia
Pesquisa do Instituto PROA aponta desafios de adaptação, crescimento e permanência de jovens no primeiro emprego. (Foto: Magnific)

A entrada no primeiro emprego formal nem sempre representa um caminho seguro de permanência e crescimento profissional para os jovens brasileiros. Pesquisa do Instituto PROA mostra que 56% dos jovens entrevistados deixaram sua última experiência de trabalho sem que a saída tenha ocorrido de forma plenamente autônoma.

O levantamento “Trampolim ou Armadilha? Turnover jovem: Mobilidade, autonomia e início da carreira” aponta que mais da metade dos jovens enfrentou desligamentos coercitivos ou foi levada a sair em razão de condições consideradas inviáveis de ambiente, liderança ou perspectiva profissional.

A pesquisa ouviu 403 jovens e 187 empresas de todas as regiões do país, além de realizar 15 entrevistas em profundidade. O objetivo foi compreender os motivos da rotatividade no início da carreira e o que essas saídas revelam sobre a qualidade dos vínculos de trabalho.

Além do estereótipo geracional

O estudo questiona a ideia de que a chamada Geração Z deixa empregos apenas por impaciência ou falta de comprometimento. Os dados indicam que a rotatividade entre jovens está mais ligada a fatores estruturais do ambiente de trabalho do que a escolhas superficiais.

Embora 94,7% das empresas acreditem ser possível reduzir a rotatividade, 82,4% reconheçam que os motivos das saídas estão ligados a fatores controláveis e 75,9% saibam que prevenir desligamentos é financeiramente mais vantajoso do que substituir funcionários, o ciclo de demissões continua se repetindo.

Uma das conclusões da pesquisa é que o principal problema não está na falta de diagnóstico por parte das empresas, mas na dificuldade de transformar esse conhecimento em práticas efetivas de gestão, acolhimento, desenvolvimento e retenção.

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Falta de perspectiva

Para a diretora de empregabilidade do Instituto PROA, Regiane Tofanello, a saída do jovem raramente deve ser interpretada como uma decisão leviana.

“O que os dados nos mostram é que a saída do jovem raramente é uma decisão leviana. Muitas vezes, o turnover mascara vínculos ‘ambíguos’, em que o jovem continua no emprego por pura falta de alternativas, ou trajetórias ‘negativas’, marcadas por um desgaste acumulado. Para a juventude periférica, o discurso do ‘propósito’ ainda é um privilégio, já que esses jovens buscam estabilidade financeira e ascensão. Inclusive, há uma disposição real de aceitar um salário menor hoje, desde que exista uma perspectiva estruturada de aprendizado e crescimento no futuro”, explica.

O levantamento mostra um desalinhamento importante entre a percepção das empresas e a experiência dos jovens. Em uma escala de 0 a 5, os jovens atribuem nota 4,0 à falta de aprendizado e perspectiva como motivo de saída. As empresas, porém, dão nota 2,74 para o mesmo fator.

A diferença de 1,26 ponto foi a maior registrada no estudo e revela que organizações podem estar subestimando aquilo que têm condições de controlar.

Primeiro emprego como armadilha

A pesquisa também mostra que experiências profissionais precárias podem gerar um impacto emocional contraditório. Ao deixar um emprego, 66% dos jovens afirmam se sentir mais preparados. Ao mesmo tempo, 30% relatam sair desiludidos e 25% mais inseguros.

Esse cenário indica que o primeiro emprego pode funcionar como aprendizado, mas também como fonte de desgaste quando não há acompanhamento, integração adequada, liderança preparada e perspectiva de desenvolvimento.

Segundo o Instituto PROA, há casos em que o jovem permanece no trabalho não por engajamento, mas por falta de alternativa financeira. Nesses casos, a retenção acontece por necessidade, não por vínculo saudável, criando uma relação prejudicial tanto para o trabalhador quanto para a empresa.

Custo invisível para empresas

O levantamento alerta para o chamado “custo invisível” do turnover. Cerca de 87% das empresas afirmam conseguir substituir um jovem talento em até dois meses, estimando gasto de reposição entre um e dois salários.

No entanto, essa conta não considera fatores como tempo de adaptação do novo funcionário, curva de erros nos primeiros meses, sobrecarga da equipe que permanece, perda de produtividade e desgaste da cultura organizacional.

Para a presidente e CEO do Instituto PROA, Alini Dal’Magro, muitas saídas poderiam ser evitadas com processos mais claros desde o início.

“Todos esses dados revelam um cenário que precisa da atenção do mercado corporativo. Apesar da maioria das empresas demonstrarem disposição para investir na retenção dos seus colaboradores, nosso estudo mostra que a eficácia dessas iniciativas esbarram em alguns desafios. Identificamos que o turnover evitável começa quase sempre no primeiro contato: 82% das saídas prematuras derivam de expectativas que não foram devidamente alinhadas durante o processo de integração”, analisa.

Raça, território e deslocamento

O estudo também chama atenção para fatores sociais que influenciam a permanência dos jovens no mercado de trabalho. Entre os entrevistados, 79% moram com a família e dependem integralmente da própria renda para sobreviver ou contribuir com as despesas da casa.

Dos 403 jovens ouvidos, a média de idade é de 21,4 anos. Além disso, 62% são mulheres e 61% se declaram pretos ou pardos.

A pesquisa mostra ainda que 60% das experiências profissionais duram até um ano e 20% dos jovens já acumulam quatro ou mais passagens pelo mercado em pouco tempo. A mobilidade também aparece como um fator decisivo, já que o deslocamento diário pode chegar a quatro horas.

Diante da urgência financeira, muitos jovens aceitam a primeira oportunidade disponível ou permanecem em ambientes hostis por não visualizarem alternativas ou por não terem condições de assumir o risco de ficar desempregados.

Permanecer por escolha

Para o Instituto PROA, a discussão sobre rotatividade jovem precisa ir além da pergunta sobre como reduzir o turnover. O ponto central é entender como garantir que a permanência seja resultado de escolha, desenvolvimento e vínculo saudável, e não de falta de opção.

“O que esta pesquisa espera deixar não é um conjunto de indicadores a serem monitorados, mas uma mudança de pergunta. Menos ‘como reduzimos o turnover?’ e mais ‘como garantimos que a permanência do jovem seja por escolha e sua saída seja com intenção?’. Entre o ‘trampolim’ e a ‘armadilha’, o que define o caminho não é apenas o movimento do jovem. É a qualidade do sistema em que ele está inserido”, finaliza Regiane.

Fundado em 2007, o Instituto PROA atua como ponte entre jovens de baixa renda da rede pública e o mercado de trabalho formal. A organização oferece formação gratuita com foco técnico e socioemocional e já formou mais de 30 mil jovens em 12 estados brasileiros.

 

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