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O Gato do Paiol

Um causo das crianças sem celular

Gelsiney Schell
Por: Gelsiney Schell
01/05/2026 às 16h33

Antigamente, no interior, milho não era apenas milho. Era quase uma poupança guardada em forma de espiga. Representava meses de trabalho, esperança de inverno tranquilo e comida garantida para gente e para bicho.

Depois da colheita, as espigas eram guardadas ainda envoltas na palha. Empilhavam-se no paiol até quase tocar o teto. A palha ajudava a conservar o grão. Aos poucos, durante o ano, a família ia debulhando: um tanto para as galinhas, outro para os porcos, alguns grãos escolhidos para a próxima lavoura e, de vez em quando, os mais bonitos seguiam para o moinho para virar farinha.

Debulhar milho era quase um ritual doméstico. Sentava-se num banco, com um balaio entre as pernas, e o trabalho seguia no ritmo da conversa, das risadas e das histórias repetidas pela terceira ou quarta vez.

O paiol tinha cheiro de safra boa.
Cheiro de milho seco, de palha quente e de inverno garantido.
Para quem vivia da terra, aquilo não era apenas um depósito. Era tranquilidade empilhada.

Lá pelos anos 60, no interior de Marechal Cândido Rondon, havia um sítio na comunidade de Bom Jardim onde uns primos do meu pai moravam. E naquele sítio existia um paiol que era quase um orgulho da família.

Grande. Alto. Cheio até o teto de milho.

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Aquilo ali não era pouca coisa. Era resultado de plantar, capinar, colher espiga por espiga e depois carregar tudo num balaio até o abrigo seguro do paiol. Um verdadeiro monumento à paciência da roça.

Num certo sábado, os pais precisaram ir até a cidade resolver umas coisas. Coisas simples, mas que sempre demoravam mais do que o planejado.

E deixaram os filhos em casa.

Cinco ou seis piás. Todos naquela idade em que a imaginação cresce mais rápido que o juízo.

No começo fizeram o que toda a piazada de sítio faz quando não tem tarefa: mexer nas galinhas, correr pelo terreiro, disputar corrida imaginária e implicar um com o outro até alguém reclamar.

Até que surgiu uma ideia.

Ideia de moleque raramente nasce acompanhada de prudência.

Pegaram o gato da casa. Um gato manso, acostumado com o silêncio das tardes e com a rotina tranquila do sítio.

Amarraram um barbante no rabo do bicho.
Na ponta do barbante prenderam um punhado de palha seca de milho.

A intenção era simples: ver o gato correr.

Mas alguém achou que faltava emoção na brincadeira.

Então colocaram fogo na palha.

Quando a chama subiu, o gato deu um salto que parecia empurrado pelo próprio fogo. Disparou pelo terreiro numa velocidade que nenhum cavalo da região alcançaria.

Os piás começaram a rir e correr atrás.

Até que o menor deles foi o primeiro a parar.

Porque gato assustado não participa de espetáculo.

Ele foge.

E fugiu.

Atravessou o quintal como um raio… e entrou exatamente onde não devia.

Dentro do paiol.

Aquele paiol enorme.

Cheio até o teto de milho.

O gato desapareceu entre as espigas. Os guris ficaram parados na porta, sem saber se riam ou se rezavam.

Durante alguns segundos não aconteceu nada.

Depois veio um estalo.

Outro.

Como se o paiol estivesse tentando avisar que algo estava errado.

Uma fumacinha começou a subir, tímida, quase inocente.

Mas palha seca não perdoa.

O fogo correu por dentro das espigas como cobra solta em mato seco. Em poucos instantes o paiol inteiro estalava, rangia e ardia como uma fogueira de São João fora de época.

A risada morreu.

O terreiro ficou em silêncio.

E naquele silêncio nasceu a certeza que todo piá conhece quando a brincadeira atravessa o limite:

— Acho deu problema.

Quando os pais voltaram da cidade, ainda antes da porteira já se via a coluna de fumaça subindo contra o céu de Bom Jardim.

O pai diminuiu o passo da carroça.

Quem vive da roça aprende cedo a reconhecer fumaça que não deveria existir.

Onde antes havia um paiol cheio de milho… restava apenas um monte de cinzas quentes.

Meses de trabalho tinham virado fumaça.

Plantio, capina, colheita, carregar espiga por espiga.

Tudo queimado.

A piazada estava sentados perto do que restou do paiol. Quietos. Olhando para o chão com uma concentração que nunca haviam demonstrado na escola.

Dizem que naquele dia ninguém precisou fazer muitas perguntas.

Bastou olhar para os meninos.

E para o paiol.

O gato apareceu mais tarde. Chamuscado, e vivo. Caminhando pelo terreiro com a dignidade de quem parecia não ter relação alguma com o ocorrido.

E não tinha mesmo.

Porque, pensando bem, naquele sábado dos anos 60, no interior de Bom Jardim, todos aprenderam alguma coisa.

Os adultos aprenderam sobre perdas.

Os piás aprenderam sobre consequências.

E o gato…

Bem, o gato apenas voltou a ser gato.

Livre das ideias humanas.

Enquanto os outros ainda estavam aprendendo a crescer.

 

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e 
não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial da Revista Especiais.

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