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O Lado B de uma Tarde de Chuva
Entre fitas K7, vinis e uma canção dos Bee Gees, Pedro descobre que algumas tardes ficam guardadas para sempre na memória
06/11/2026 08h44
Por: Gelsiney Schell

A caneta Bic girava firme, presa entre os dedos de Pedro, rebobinando os minutos da fita K7 enquanto outra rodava no deck ao lado. O system da sala era moderno, o orgulho da casa, um legítimo três-em-um com duplo cassete. Pedro conhecia os segredos daquela máquina. Sabia que uma fita não precisava ser condenada ao lixo depois que o lacre de proteção fosse retirado. Bastava uma buchinha de papel, apertada com os dedos e encaixada no pequeno buraco da carcaça, para que o gravador aceitasse gravar novamente. O cabeçote descia, os roletes começavam a girar e a fita voltava a obedecer.
Era assim que ele montava o seu repertório: gravava uma música, esperava terminar, apertava o pausa e procurava a próxima. Na prateleira já havia várias, algumas com o nome escrito em caneta azul, outras trazendo apenas uma letra, uma data ou um rabisco que só ele entendia. Eram registros feitos de tardes inteiras, de canções descobertas naquele mundo de K7 e Vinil.
Enquanto os sintetizadores e as guitarras ocupavam a sala, Pedro aproveitava o som. O pai não gostava tanto; para ele, a fita magnética servia apenas para levar música de um lado para o outro, já que o vinil era outra coisa. À noite, quando o filho finalmente deixava o aparelho quieto, o pai assumia o Gradiente. Retirava o LP da capa de papelão pelas bordas, segurando-o como quem cuida de algo valioso, desembrulhando o disco daquele papel fino, quase transparente. Sobre o prato, o vinil começava a rodar. O braço descia, a agulha tocava a ranhuras do LP e, após o estalo inicial, a música preenchia o ambiente. Pedro observava o ritual, sabendo que nunca veria o pai fazer aquilo com pressa. Naquela casa, havia dois jeitos de ouvir música: um cabia numa K7; o outro precisava de duas mãos, uma capa de papelão e tempo.
Naquela tarde de outono, o frio chegou cedo e uma garoa fina batia contra o vidro da janela. Com a rua vazia, o milho estourava na panela da cozinha, espalhando pela casa aquele cheiro quente de pipoca. Pedro terminou a gravação, rebobinou o rolo e conferiu a seleção: Too Much Heaven estava ali.
Olhou para o relógio e, pouco depois, a campainha anunciou a chegada de Sandra. Ela entrou trazendo o frio da rua, com os cabelos úmidos e algumas gotas brilhando na manga da blusa, segurando a fita que havia deixado para ele gravar.
— Ficou pronta? — perguntou.
— Ficou — Pedro respondeu, entregando a K7.
Sandra olhou para a carcaça de plástico e depois para ele.
— Podemos ouvir?
Pedro encaixou a cassete no aparelho, apertou o botão e, após um ruído baixo do motor, surgiram os primeiros acordes dos Bee Gees. Sandra ficou quieta, revezando o olhar entre o visor do aparelho e o rapaz.
— De onde saiu essa música?
— É nova.
— Você sabe dançar?
Pedro tímido:
— Sei... eu acho.
Sandra se levantou e estendeu as mãos, chamando-o para perto. No começo, os dois ainda tentaram ensaiar alguns passos, mas logo desistiram e ficaram simplesmente ali, de mãos dadas, com o corpo balançando quase sem sair do lugar. O perfume dela misturava-se ao calor da sala e ao barulho da chuva fina atrás do vidro. Quando a música terminou, Sandra não soltou as mãos dele.
— Rebobina.
— De novo?
— De novo.
Pedro acionou o reverso girando até a fita correr para trás com aquele ruído seco e contínuo. Ele apertou o play e a música recomeçou. Dessa vez, Sandra não disse nada. Quando a faixa terminou, ela pediu o mesmo comando, e ele rebobinou mais uma vez.
A tarde foi ficando escura atrás da janela enquanto a garoa continuava. Quando a melodia cessou pela terceira ou quarta vez, Sandra apenas encostou a cabeça no ombro de Pedro. A fita continuou rodando em silêncio, restando apenas o pequeno movimento mecânico dentro do aparelho.
Mais tarde, com a noite estabelecida, a família se reuniu na sala e o pai escolheu um LP para rodar no prato. O braço desceu, veio o estalo e a música antiga começou. Pedro continuou sentado, olhando o vinil girar, sabendo que para ele aquela tarde ainda não tinha acabado.
Anos depois, talvez aquela fita já estivesse quebrada, enrolada dentro da carcaça ou esquecida no fundo de alguma gaveta. Talvez Sandra nem se lembrasse daquele dia. Pedro, no entanto, se lembraria. Algumas recordações ficam escondidas dentro de uma música. Quando os primeiros acordes voltam, a caneta Bic ainda encontra os dedos, o mecanismo começa a girar e a tarde de outono retorna inteira.