No corredor do prédio, uma música alegre escapava pela fresta da porta e invadia o pequeno apartamento de Cilda:
— La cucaracha, la cucaracha, ya no puede caminar; porque no tiene, porque le falta la patica principal.
Cilda transitava entre o quarto e o banheiro. Diante do espelho, aproximava o rosto para retocar o rímel e inclinava a cabeça para os lados, testando a simetria do olhar. Sabia que as mulheres da patota “Chuchu Beleza” passavam os olhos em cada detalhe.
Ajustou a saia de camurça, a blusa discreta, a meia-calça marrom e calçou as sandálias rasteiras. Soltou os cabelos loiros sobre os ombros, encarou o reflexo e deu-se por satisfeita. Estava pronta. Só faltava a bolsa.
Abriu o guarda-roupa e resgatou do fundo a de camurça, guardada havia meses. No fundo do couro, restavam farelos esquecidos de um chiclete de hortelã — o suficiente para atrair inquilinos. Sem olhar direito, Cilda jogou-a sobre a cama, comparou o tom com a saia e saiu.
Na descida dos quatro andares, um ruído sutil ecoou lá de dentro. Ela estancou nos degraus. Abriu o zíper e passou os dedos pelo fundo escuro, mas não tateou nada além de chaves e batom. Selou o fecho. Devia ser apenas o choque das argolas grandes dos brincos a cada solavanco dos degraus. Continuou a descida.
Lá fora, o centro de Marechal Cândido Rondon exalava o bafo morno do asfalto de fim de tarde, empurrando o comércio para as calçadas. Cilda passou diante do Cine Maver, dobrou a esquina da Loja Renascença e seguiu pelo passeio do Mercado Alli, deixando um rastro de lavanda pelo caminho. Na esquina seguinte, encontrou Lucila.
— Pensei que não vinha mais — reclamou a amiga, cruzando os braços.
— Eu? Perder uma noite dessas?
Lucila sorriu:
— Então aperta o passo.
As duas seguiram juntas para o Clube Aliança.
No bar, a fumaça densa dos cigarros de filtro flutuava sob a luz amarela do salão. Garrafas de cerveja suavam sobre as mesas e o gelo estalava nos copos de uísque. Marta e Rita já as esperavam, e as quatro logo se acomodaram ao redor do quadrado de fórmica.
A conversa começou por onde sempre começava.
— O Evaldo comprou um Fusca — anunciou Marta.
— Novinho — completou Rita.
Lucila ajeitou o cabelo, desdenhando:
— Eu ainda prefiro um Opala. Tem mais presença.
— Pois eu queria era um conversível — disse Cilda.
Marta soltou uma risada ruidosa:
— Conversível? Aqui em Rondon, Cilda? Com essa poeira?
— Vi na televisão. Coisa de cinema. Vento na cara.
Rita mexeu o gelo com o palito de dente e ponderou:
— Sendo assim, eu fico com o Puma.
Marta ergueu o copo de uísque num brinde solitário:
— Eu fico com este aqui. É mais garantido.
As quatro riram juntas, mas o riso de Rita morreu na garganta.
Na aba da bolsa de Cilda, duas antenas trêmulas e longas emergiram da costura áspera. Rita emudeceu. Com o estômago revirando, tocou o braço de Marta, que acompanhou o seu olhar fixo. O bicho cascudo, gordo e brilhante, subia devagar pela alça.
— Cilda... — murmurou Marta, enrijecendo a postura.
— O quê? — Cilda virou-se, alheia.
Marta apontou com o queixo:
— Tem uma barata na sua bolsa.
Cilda baixou os olhos e flagrou o inseto na sua escalada milimétrica. O pânico de infância travou sua garganta por um segundo:
— Meu Deus!
Lucila registrou a cena e soltou um grito agudo que rasgou o ambiente. No mesmo instante, Rita desferiu um tapa desesperado contra a camurça. A barata voou em arco.
Cilda saltou sobre a cadeira num impulso só, encolhendo as pernas, enquanto Lucila esganiçava-se outra vez. O inseto planou sobre a mesa vizinha, chocou-se contra o encosto de ferro e desapareceu na penumbra do salão. Ninguém sabia onde havia caído, e a sensação de que o bicho andava pelo chão invisível eletrizou o recinto.
Foi o estopim. Perto do balcão, um homem que já combatia a solidão com o uísque além da conta levantou-se de um salto. Ao deparar-se com as mulheres em pé sobre o mobiliário, saias suspensas e braços apontando para todos os lados, sua percepção turva disparou o pior alarme:
— Fogo! — berrou a plenos pulmões, chutando a própria cadeira para trás. — Fogo! É incêndio!
O comando tétrico acionou o instinto de manada. Cadeiras tombaram com estrondo, um copo se espatifou no chão e a correria afunilava todos para a mesma saída estreita. Entre gritos confusos de “Assalto!” e “Ladrão!”, corpos se prensavam contra as portas de folha dupla; uma mulher perdeu o sapato de salto na confusão, homens abandonavam copos cheios e um sujeito ainda tentou voltar para buscar o paletó, sendo arrastado pelo fluxo humano.
— É a barata! — esganiçou-se Rita, mas a sua verdade foi soterrada pelo tumulto.
Em menos de um minuto, a debandada cessou. O Aliança mergulhou num silêncio que zumbia nos ouvidos, quebrado apenas pelo cheiro de cerveja choca derramada e pelo eco das solas que sumiam pela calçada.
As quatro amigas permaneceram estáticas. Marta olhou para a porta escancarada e, depois, encarou Cilda.
— Cadê ela?
Rita agachou-se, inspecionando a penumbra debaixo da mesa. Lucila continuava firme no topo da cadeira, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o encosto de madeira.
— Eu não vou descer — avisou Lucila, irredutível.
— Desce, Lucila, já foi todo mundo embora — pediu Marta.
— Não desço.
Marta ignorou o protesto e afastou o pé da mesa com o sapato. O mistério resolveu-se ali: o bicho jazia esmagado, imóvel contra as ranhuras do assoalho.
Marta ficou olhando para o rastro do inseto. Depois, ergueu os olhos para as outras três, contemplando o cenário de guerra e as mesas reviradas que, minutos antes, abrigavam a elite da cidade.
— Era só isso?
Ninguém respondeu. No canto do salão abandonado, o rádio da parede continuava a chiar a sua ironia solitária:
— La cucaracha, la cucaracha, ya no puede caminar...