Na janela do bolicho, João observava Carlos desembarcando da Brasília.
— O que aconteceu? Estás mancando?
— Claro que não.
— Pisa mais rápido com o pé esquerdo?
— Gosto de usar mais meu pé direito.
Riram. Carlos entrou e acenou ao bodegueiro:
— Um Dreher com gelo.
João espiou por baixo da mesa:
— Mocassim novo?
— Sim, e as helancas também.
— Gosto das marrons.
Carlos recebeu o conhaque, pescou o cigarro no bolso da camisa e riscou o fósforo.
— Vai incomodar até lacear — comentou João.
— Está pronto pra perder no bolão? A cancha tá livre.
— Vamos, mas vou ter que jogar descalço. Osmar! Pode jogar descalço?
Osmar limpava o balcão. Resmungou sem olhar:
— Pode. Só por ser sexta. Se fosse sábado, não poderia.
Carlos tirou os sapatos com um suspiro que competiu com o motor da Brasília lá fora. Assumiu a pista vestindo as meias marrons. Tomou o último gole do conhaque, acendeu outro cigarro e caminhou para a cabeceira.
Ao lançar a pesada bola de madeira, o pé esquerdo deslizou na cera. O cigarro voou longe, a bola caiu morta e Carlos, num movimento de bailarino, desabou sentado na madeira.
João dobrava-se na cadeira de palha, sem ar:
— Osmar! Uma Cerpa e dois copos.
Ainda no chão da cancha, de pernas abertas, Carlos protestou:
— Você passa cera demais nessa cancha, Osmar.
Arrancou as meias de helanca, coladas na pele de tanto suor.
— Ri, João. Ri que o diabo te carregue — resmungou, massageando o calcanhar em carne viva.
Osmar trouxe a cerveja e os dois copos americanos na bandeja de metal. Olhou para Carlos no chão, depois para as meias jogadas como duas cobras mortas na madeira encerada:
— Eu disse que só podia porque era sexta. Se fosse sábado, essa patuscada ia ser na rua.
João serviu a cerveja, o colarinho subindo perfeito. Entregou o copo ao amigo, que continuava sentado, contemplando os dedos dos pés espalhados no chão.
— Sabe o que é pior? — disse Carlos, num gole longo.
— O que é pior do que cair de bunda na frente do Osmar?
— É que ainda vou ter que dirigir a Brasília até em casa. E o pedal da embreagem daquela desgraça é de ferro puro.
Brindaram, entre uma tragada e outra do Hollywood recuperado.
O bolão estava perdido. O mocassim novo, de lado.
E a Brasília esperava lá fora.