Durante seu julgamento, Jesus dissera a Pilatos ter vindo ao mundo para testemunhar da verdade, e que todos que amassem a verdade estariam aptos a ouvir sua voz. Em tom de retórica cínica o governador romano o interpelou: “O que é a verdade?” (João 18:37-38).
Ao fazer a pergunta, Pilatos demonstrou descrença na existência de uma verdade absoluta ou objetiva, vendo a questão como algo irrelevante diante da política e dos interesses de Roma.
Agostinho de Hipona (354-430), considerado um dos pais da Igreja, já havia descoberto que lidar com a verdade era difícil, pois costuma incomodar pelo aspecto paradoxal que carrega: apreciamos quando nos ilumina, mas incomodamo-nos quando somos descobertos em nossa falta de verdade.
Em “Confissões”, Agostinho tenta explicar a verdade a partir de algumas indagações: “Por que é que a verdade gera o ódio? Por que é que os homens têm como inimigo aquele que prega a verdade, se amam a vida feliz, que não é mais que a alegria vinda da verdade?”
Num esforço reflexivo o teólogo tenta responder: “Talvez por amarem de tal modo a verdade que todos os que amam outra coisa querem que o que amam seja a verdade. Como não querem ser enganados, não se querem convencer de que estão no erro. Assim odeiam a verdade, por causa daquilo que amam em vez da verdade. Amam-na quando os ilumina, e odeiam-na quando os repreende”.
Considerando sua própria experiência libertina de vida, Agostinho conclui que as pessoas não querendo ser enganadas, mas desejando enganar, amam a verdade quando ela se manifesta e odeiam-na quando ela as descobre. E finaliza: “É assim também a alma humana: cega, lânguida, torpe e indecente, procura ocultar-se e não quer que nada lhe seja oculto”.
É por isso que nem sempre ficamos sabendo de pronto o que de fato foi verdade. Quando não oculta para sempre, demora às vezes por se materializar.