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Tempos modernos
Entre fitas BASF, voltas de Fusca pela Avenida Rio Grande do Sul e noites diante da televisão, lembranças de uma época em que a pequena Marechal parecia uma cidade grande
25/09/2026 11h23
Por: Gelsiney Schell

Na cozinha, no rádio AM, o Zé Curió contava seus causos.

O sol entrava pela fresta da cortina de renda.

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E o sábado começava.

Café com leite, pão com nata e melado e, às vezes, um ovo frito na banha.

Era dia de o pai ir ao mercado, de a mãe fazer a faxina e de eu?

Gravar as músicas no meu gravador de fitas.

Ficava ajoelhado na sala, com os dedos no REC e no PAUSE.

Era um “esquema” que só nós, os caçadores da boa música, sabíamos.

O locutor anunciava as músicas que viriam, e os dedos sincronizavam com o ouvido.

Esperava.

Preparava.

E, na hora certa, despausava a fita.

Começava a gravação.

Aquilo exigia precisão.

Um segundo depois, perdia a introdução.

Um segundo antes, pegava o locutor falando.

E quando a música estava indo perfeitamente, justamente quando tudo parecia dar certo, o radialista largava:

— Sabadão é aqui na rádio "flubé"...

Pronto.

E poluía a música.

Estragava tudo.

A música continuava, mas agora vinha acompanhada da voz do locutor.

E não tinha jeito.

Era gravar de novo.

Eu tinha uma fita BASF regravável, de 60 minutos cada lado.

Passava o sábado inteiro gravando.

Era música para a noite.

E à noite tinha o Fusca.

O Fusca precisava estar preparado.

Passava umas doze, quinze, vinte vezes pela Avenida Rio Grande do Sul.

As gatinhas saindo do Cine Maver.

Outras estavam nas lanchonetes.

Algumas passavam pela calçada.

E nenhuma estava no Fusca.

Mesmo assim, eu continuava.

Vidros abertos.

Fusca andando bem devagar.

A fita tocando.

A música certa.

O cabelo no lugar.

A noite prometia.

A Avenida era movimentada, cheia de meninas.

Tinha baile no Salão do Cerny, em Curvado. Às vezes, no Borgmann, na Quinta das Seleções.

E o Fusca branco desfilava.

Na fita, Modern Talking, Bee Gees, Pink Floyd.

Eu passava.

Voltava.

Passava de novo.

A fita tocava.

O Fusca desfilava.

As meninas olhavam.

Ou talvez nem olhassem.

Mas eu continuava passando.

Até que, justamente na hora de “abafar”, o sem-vergonha do toca-fitas engolia a fita.

O som começava a ficar estranho.

Parecia que a música estava sendo tocada debaixo d’água.

Depois vinha um:

— Cléc!

E o toca-fitas desarmava.

A música parava.

O Fusca parado perto da Prefeitura.

E eu ficava olhando para o aparelho.

A fita estava lá dentro.

Enroscada.

Minha melhor música da noite.

E eu ainda tinha vinte voltas pela Avenida Rio Grande do Sul pela frente.

Só que a gasolina não estava tão interessada naquela programação.

O ponteiro entrou na reserva.

E o desfile acabou.

Cheguei em casa às dez da noite.

O pai estava sentado no sofá, esperando começar o Super Cine.

Olhou para mim.

Depois olhou para o Fusca pela janela.

— Bora jogar uma cachetinha até o filme começar?

E lá estávamos nós.

Eu e meu pai.

Baralho na mesa.

Uma Cerpa gelada.

O Super Cine começando.

O pai quase nunca assistia a um filme até o fim.

Logo ia dormir.

E eu terminava a noite sozinho, com uma loira gelada e um copo suado.

A janela aberta.

O Fusca na garagem.

Céu estrelado.

Vagalumes.

O vento balançando as cortinas.

E os anos 80 passando.

A pequena Marechal parecia cidade grande.