Associados do Sicredi que realizaram apostas online em 2025 apresentam inadimplência 40% superior à observada entre aqueles que não apostaram no período. O dado faz parte de uma pesquisa preliminar realizada pela instituição financeira e divulgada pela Folha de S.Paulo.
O levantamento considerou pessoas físicas com operações de crédito vigentes em julho de 2026 e verificou a ocorrência de apostas online entre janeiro e dezembro do ano passado. Segundo as informações apresentadas, a amostra envolveu 1,3 milhão de associados que apostaram em 2025.
Os resultados indicaram também uma associação entre o comportamento de apostas e os atrasos: entre os apostadores, maior frequência e valores mais elevados aparecem relacionados a níveis superiores de inadimplência. Como a análise ainda está sendo aprofundada, os dados mostram correlação e, isoladamente, não permitem estabelecer que as apostas sejam a causa direta de todos os atrasos identificados.
O diretor-presidente do Banco Cooperativo Sicredi, César Gioda Bochi, afirmou à Folha que a instituição encontrou outra diferença relevante dentro do próprio grupo de apostadores.
Segundo ele, a inadimplência daqueles que apostam com maior frequência é 40% superior à registrada entre os que fazem apostas com menor frequência. Valores maiores e maior recorrência também aparecem associados a dificuldades de pagamento.
Os resultados chamaram a atenção da instituição porque superam os encontrados em outro estudo, realizado por pesquisadores ligados ao Insper e à Stone. Nesse levantamento, divulgado anteriormente, a proporção de pessoas com pagamentos em atraso foi, em média, 20% maior entre apostadores.
Os resultados preliminares da pesquisa do Sicredi foram apresentados ao Banco Central, que analisa os possíveis impactos das apostas online sobre o endividamento das famílias.
Um dos pontos em análise envolve a relação entre apostas e inadimplência no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), linha de política pública destinada ao financiamento de pequenos produtores rurais em condições específicas.
Para Bochi, o problema não está restrito aos consumidores urbanos e também merece atenção no meio rural. O comprometimento de recursos com apostas pode reduzir a disponibilidade financeira destinada ao pagamento das parcelas de financiamentos, segundo a avaliação apresentada pelo executivo.
O próprio Sicredi ressalta que os resultados são preliminares. O levantamento divulgado até agora não apresenta recortes por faixa de renda, localização, atividade econômica, quantidade de apostadores ou participação em linhas específicas de crédito.
Essas limitações são relevantes para a interpretação dos números. A diferença de inadimplência observada entre apostadores e não apostadores demonstra uma associação estatística no universo analisado, mas outros fatores econômicos e financeiros também podem influenciar a capacidade de pagamento.
O Sicredi reúne mais de 90 cooperativas de crédito e 10,5 milhões de associados em todos os estados. Em julho de 2026, administrava R$ 502 bilhões em ativos e possuía carteira de crédito de R$ 297 bilhões, incluindo operações com Cédula de Produto Rural (CPR).